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    Arte


    Grupos de teatro persistem em meio à pandemia em Manaus

    Com a incerteza do cenário pós-pandemia, os grupos de teatro persistem no ramo onde o contato físico é parte essencial do trabalho

    Espetáculo da Companhia de Atores Escalafobéticos
    Espetáculo da Companhia de Atores Escalafobéticos | Foto: Divulgação

    Manaus - Resistindo em meio à pandemia, que afetou amplamente o cenário cultural, os grupos de teatro do Amazonas lutam em meio às dificuldades da área. Além da discriminação que a classe artística sofre rotineiramente, a interrupção de espetáculos é outro fator que surgiu no momento delicado da crise na saúde.

    Em Manaus, uma das peças teatrais que precisou ser suspensa foi a “E contar tristes histórias das mortes das bonecas’’, classificada como uma peça de teatro marginal, de Tennessee Williams.

    “A companhia teve o projeto aprovado no Edital Conexões Culturais da Manauscult no ano passado, e previa a realização das atividades no primeiro semestre deste ano. Quando estávamos no período de pré-produção do trabalho, fomos surpreendidos pela pandemia’’, afirmou Wallace Abreu, da Companhia de Atores Escalafobéticos, responsável pela peça.

    O processo de construção do espetáculo previa duas oficinas de teatro antes de iniciar a produção. Uma para mulheres trans e travestis, e outra direcionada para jovens da periferia de Manaus. “Ambas visavam à formação do elenco da peça, o que se tornou inviável e que infelizmente não sabemos quando essas oficinas poderão acontecer e se poderão acontecer’’, relata Wallace.

    Desafios dos artistas continuam sendo o reconhecimento da área
    Desafios dos artistas continuam sendo o reconhecimento da área | Foto: Divulgação

    Sem o contato entre os atores e público, a continuidade dos espetáculos se baseia em planejamento. “Durante a pandemia, a companhia de Atores Escalafobéticos está com seus trabalhos totalmente parados. Infelizmente, não conseguimos dar seguimento de forma mais efetiva, embora tenhamos caminhado bastante no sentido da pesquisa para o trabalho’’, pondera Wallace.

    Adaptação

    A adaptação no período de quarentena em áreas como o teatro, onde o contato físico é parte essencial do trabalho, se revela com incerteza nesse período. Um dos primeiros setores a ser impactado deve ser o último a retornar à normalidade, devido à exigência de distanciamento social e proibição de aglomerações, o que torna inviável a realização de espetáculos até a normalização do quadro de pandemia no estado.

    O preparo dos grupos de teatro, no entanto, busca formas de se manter sem a exigência de presença física, apesar das dificuldades. Com produções à distância, o projeto ‘’Memoriografias’’, aos poucos, sai do papel.

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    A luta do movimento como um todo continua, já que para muitos, a cultura não é importante. E esse período de isolamento mostrou a todos o quanto é necessária "

    Wallace Abreu, Companhia de Atores Escalafobéticos

    “No momento, a produção se resume à discussão e montagem do espetáculo de forma virtual, onde interpretamos e somos guiados por vídeo chamada’’, explica Taciano Oliveira, da Companhia de Artes Cênicas Ateliê 23.

    De forma semipresencial, o grupo responsável pelo ‘’Memoriografias’’, do Ateliê 23, planeja continuar a produção na sede do grupo, mas outros obstáculos surgiram. ‘’Durante o período de quarentena, o espaço sofreu três assaltos, e houve invasão na sede, o que danificou a estrutura do prédio e furtaram materiais nossos’’, conta Taciano.


    Para recuperar os danos, o grupo depende de contribuições. Sem performances presenciais, o Ateliê 23 não tem manutenção financeira. “Os participantes buscam o próprio sustento com atividades alternativas nesse momento. Tivemos acesso a um edital, que contempla somente um projeto por grupo. Com o valor repartido entre todos os artistas, mal pagou necessidades básicas’’, revela Taciano, afirmando, inclusive, que os artistas não tiveram acesso ao auxílio emergencial.

    Sustento

    Não havendo espetáculos, a renda dos atores também se minimiza. A forma que a Companhia de Teatro e Escola de Artes Trilhares se mantém, durante o período de isolamento, é através de cursos virtuais, mas os valores ainda não são suficientes para manter o local.

    A Diretora Executiva da Trilhares, Rafaela Margarido, relatou que os atores da companhia se voltaram para editais e festivais de cultura, enquanto o local luta para manter o retorno após a pandemia. “Por também sermos uma escola, alternamos os cursos presenciais para virtuais, mas tivemos que fazer uma redução na mensalidade para manter os alunos, e o retorno que temos é somente para ajuda de custos dos professores’’, afirma. “O espaço em si não consegue se manter’’.

    A arte se mostrou uma parte essencial durante a quarentena
    A arte se mostrou uma parte essencial durante a quarentena | Foto: Divulgação

    Através dos editais, a Companhia se mantém ativa e planeja os próximos passos, que ainda são incertos, mas a previsão é que os espetáculos só retornem ano que vem. “A realidade hoje é que não sabemos o que o setor cultural aguarda. O retorno ainda está muito incerto, nós temos planos, mas somente o tempo irá dizer o que vem futuramente’’, afirmou a diretora executiva do Trilhares.

    Além da falta de atuação, os principais desafios durante a pandemia para os artistas continua sendo a valorização da arte. “Como pudemos perceber pelo fenômeno das lives e da ocupação artística nesse espaço virtual, a arte é importante não somente pela necessidade dos artistas em fazer, mas principalmente pela necessidade das pessoas em consumir arte’’, lembrou Wallace, da Companhia de Atores Escalafobéticos.