Fonte: OpenWeather

    A mulher mais bonita da tribo


    Criaturas de Tupã: as belas cunhãs-porangas do boi Caprichoso

    As mulheres mais bonitas da aldeia são mais que beleza, são representatividade da mulher aguerrida, indígena e cabocla. Relembre histórias de mais de 30 anos de item

     

    Relembre momentos marcantes com as cunhãs-porangas do Caprichoso
    Relembre momentos marcantes com as cunhãs-porangas do Caprichoso | Foto: reprodução

    Manaus – A brincadeira que começou nos quintais das casas de madeira e ganhou as ruas da cidade é mais que brincar de Boi-Bumbá, sempre foi a paixão das mulheres mais bonitas da aldeia. As cunhãs-porangas do boi da estrela na testa, o Caprichoso, relatam a paixão azulada que bate no peito, envolve na dança e evolui na Arena. 

    Luziane Medeiros abriu a lista de mulheres em defesa do item de número 9, no ano de 1990. O que muitos não sabem é que não existia esse item oficial, mas sim as misses do Boi. 

    No Festival, os bois Garantido e Caprichoso traziam as misses do Amazonas e Pará para as apresentações. Somente em 1989 foi decidido que a Miss Amazonas, Ane César, entraria com a roupa típica regional e não com o cetro, vestido e coroa, como acontecia anteriormente. A partir daí surgiu o item da mulher mais bonita da aldeia com traços indígenas e mulher aguerrida. 

    “Cunhã-Poranga Iacy! Cheiro bom de murupi. Cunhã-Poranga Iacy! Joia de tucumã. Pele de ouro da Pupunha. Amor moreno de paixão”

    Daniela Assayag- 1991 a 1995

    Daniela Assayag relembra momentos no boi
    Daniela Assayag relembra momentos no boi | Foto: Arquivo Pessoal

    Daniela Assayag foi a sucessora de Luziane. Apaixonada pelo boi da estrela desde a infância, participava das festas com os avós e o pai parintinenses. Ao completar 17 anos foi convidada para o título recém criado. 

    “O fato de eu ter sido cunhã poranga mudou muita coisa na minha vida, na maneira de me relacionar com as pessoas. Desde muito cedo eu participei desta festa e, mesmo para nós que estamos ali, é uma coisa indescritível. Eu comecei a dançar com 11 anos e aos 17 fui convidada pela diretoria do Caprichoso, Geraldo Medeiros e Márcia Baranda. Era um título recém-criado. Muitos acham que eu fui a primeira, na verdade foi a Luziane Medeiros em 1990, eu assumi em 1991. O meu amado boi Caprichoso lembra muito minha família e minhas raízes”, relatou. 

    Além da defesa do item, Daniela ressalta a força da mulher representada na Arena do Bumbódromo. Mais que uma apresentação e amor pelo boi, as conquistas das mulheres aguerridas são apenas alguns dos pontos de representatividade. 

    “Eu fui a segunda nesse item e pude representar a garra, não só a beleza da cunhã, mas a disposição de luta, de colocar a mulher no lugar onde ela deveria estar e deveria sempre se valorizar. Tudo isso está na dança, indumentária e força da cunhã. Ela é muito mais que um símbolo de beleza”, destacou.

    Existem momentos que marcaram a passagem de Daniela pela história do boi Caprichoso. Entre eles, destaca duas passagens que envolveram superação de limites, amor pelo trabalho e apoio da família. 

    "

    Duas me marcaram profundamente. Uma foi em 1993 na descida da alegoria ‘Lagarta de fogo’. Chegou um momento que não tinha mais os carregadores da alegoria, mas sim, a galera. Chovia muito, o capacete estava muito pesado e as penas com o peso da água estava me desequilibrando. Olhei para o meu pai e ele falou ‘joga, joga’. Eu joguei o capacete e todos acharam que eu tinha caído. Não valia mais ponto por conta da chuva e os bois concordaram. O Caprichoso não precisava se apresentar, mas em respeito a todos, fizemos. Outro foi em 1994 já estávamos no final da apresentação, e eu entrei na última alegoria com o boto girando em 360 graus. Foi uma inovação e ousadia. Meus pais deixaram e, hoje como mãe, entendo que eles se preocuparam, mas deixaram. Entrar na arena vendo tudo de cabeça para baixo, montada em um boto fictício foi indescritível. Nunca vou esquecer desse momento "

    Daniela Assayag,

    A apresentação foi inovação no ano
    A apresentação foi inovação no ano | Foto: Reprodução

    Atualmente, Daniela Assayag é jornalista e atribui os momentos que vivenciou no Caprichoso como fator importante por tudo o que é hoje, tanto na profissão, quanto no olhar de mundo. 

    “O carinho que eu sempre tive dos moradores, dos torcedores e do povo de uma maneira geral. Isso foi fator determinante para a minha visão de mundo, de me relacionar com as pessoas. Fundamental, pois podemos fazer comunicação não só com palavras, mas com gestos e com dedicação pela causa”, finalizou. 

    Após Daniela, vieram Marlessandra Nascimento e Marlessandra Barbosa que defenderam o item de 1996 ao ano 2000.

    Jeane Beloniel 2001 a 2004

    Jeane Beloniel conta sobre os desafios
    Jeane Beloniel conta sobre os desafios | Foto: Arquivo Pessoal

    “Ela chega dançando beleza mostrando, e o povo faz roda pro boi balançar. Na arquibancada a galera se agita, batendo palminhas, começa a cantar. Ô, ô, ê, a. É que a cunhã poranga acabou de chegar. Ô, ô, ê, a.É a índia mais bela dos tupinambás”

    Jeane iniciou a trajetória no Caprichoso aos 14 anos. Foi escolhida na época pela diretoria para ser sinhazinha. “Eu nunca escondi de ninguém que meu sonho mesmo, de menina, era ser cunhã-poranga. Eu alimentava esse sonho desde muito cedo. Minha brincadeira preferida era subir nas goiabeiras e imaginar que fosse uma alegoria. Passava horas brincando”, relembrou emocionada. 

    Ela conta que precisou entrar em um projeto pessoal para mostrar que merecia ser cunhã-poranga do boi Caprichoso. Ela relembra que, com muito esforço e dedicação, conseguiu realizar o sonho de criança. 

    A cunhã-poranga enfrentava desafios nas alegorias
    A cunhã-poranga enfrentava desafios nas alegorias | Foto: Arquivo Pessoal

    “Antes existia aquela coisa que time que está ganhando não se mexe. Eu não tinha traços de índia nem corpo de mulher. Comecei um projeto de ganhar peso e massa muscular. Daí comecei a ser testada como cunhã-poranga. Eu pedi para fazer uma apresentação para turistas, aí me viram como cunhã-poranga. Lembro que pintei o cabelo de preto, estava bem mais bronzeada. Cheguei com uma dança mais tribal, com um estilo mais aguerrido e aí impressionei”, disse Jeane. 

    Um dos momentos mais importantes para a artista foi a alteração do estilo da dança e ser reconhecida pela torcida como uma cunhã-poranga mais forte, mais índia, diferente. Além disso, fez questão de relembrar um momento de superação. 

    "

    Foi para um dos momentos mais marcantes e incentivadores na minha carreira. Teve um ano que deu um problema na minha alegoria e eu fiquei presa dentro e não conseguia descer. Já era o final da apresentação e eu não consegui descer. Eu voltei para a área da concentração. O tempo iria acabar e eu não iria me apresentar e ser penalizada. O desespero foi tanto que os torcedores conseguiram me puxar para fora da alegoria, coloquei a costeira da fantasia. Eu me meti no meio da tribo e fui puxando a tribo. Todos acharam que era ensaiado, mas não. Foi uma noite linda! "

    Jeane Beloniel,

    Maria Azedo- 2007 a 2017

    “Minha galera azul e branca está em festa. É festa de bumbá. Linda morena tem rosto de criança”

    Dez anos, uma década. Foi exatamente esse tempo que Maria Azedo defendeu o item no boi azulado. Assim como toda brincadeira de criança nos quintais de casa e frequentando os currais do boi, nasceu a paixão pela magia do Festival de Parintins. 

    Maria Azedo defendeu o item por 10 anos
    Maria Azedo defendeu o item por 10 anos | Foto: Arquivo pessoal

    “A minha história no Caprichoso começou muito cedo. Desde criança eu já frequentava o curral em Parintins que era pertinho de casa, minha família sempre foi muito Caprichoso principalmente a minha vó.  Com 17 para 18 anos, o presidente da época, Carmona Oliveira, me convidou. A princípio minha família foi contra, mas eu os convenci que era um sonho meu. Quando eu aceitei resolvi mergulhar de cabeça e minha prioridade, de fevereiro a junho, era isso”, relembra Maria. 

    Maria relembra o carinho da galera como um dos momentos mais marcantes. Ela sabia que a torcida estava com ela e isso dava forças para continuar na defesa do item, mesmo diante de empates e derrotas. 

    Com ritmo envolvente  evolui na Arena
    Com ritmo envolvente evolui na Arena | Foto: Arquivo pessoal
    "

    Muitas coisas marcantes nessa década, mas o que mais me marcava era quando eu vinha da galera. Acho que todo item deveria receber esse presente. Não tem sensação igual. Outra coisa que posso dizer que foi marcante, foi um apagão na hora que eu estava me apresentando para o DVD. A luz foi embora e a galera cantou comigo a minha toada. A pior parte foi a minha saída, que fui pega de ‘surpresa’, mas isso já foi totalmente superado e hoje eu sou de novo uma torcedora apaixonada pelo meu Boi "

    Maria Azedo,

    Marciele Albuquerque- 2017 a 2020

    “Ela vem chegando. Dançando, bailando, feliz a cantar. Vem como uma pluma. Pairando no ar”

    A atual cunhã-poranga relembra momentos
    A atual cunhã-poranga relembra momentos | Foto: Arquivo pessoal

    A atual defensora do item, Marciele Albuquerque, conta que ainda tem muito a contribuir no Festival e para a vitória do boi que tanto ama. A jovem continua pela espera da realização da festa, mesmo no momento de pandemia e cuidados. Porém, enquanto não há respostas efetivas, relembrou um momento que considera como “Consagração”. 

    Os desafios e a responsabilidade são maiores
    Os desafios e a responsabilidade são maiores | Foto: reprodução

    “Desde que entrei, em 2017, o momento mais marcante na arena foi em 2019, na segunda noite do festival. Tive um problema com a minha costeira, que quebrou durante minha evolução. O momento foi surreal, na hora eu não tinha noção de tudo que aconteceu. Era como se estivesse anestesiada, porém desesperada por conta de perder pontos no julgamento dos jurados. Eu não conseguia olhar com bons olhos a situação, mas o resultado foi muito positivo, um dos jurados até me elogiou pela performance. Mesmo com o que houve, até hoje não consigo acreditar, sinto que aquela noite me consagrou. Deus é bom o tempo todo”, disse agradecida. 

    Leia mais:

    Apaixonados pelos bois, torcedores pintam casas de azul ou vermelho

    Cunhãs-porangas do Garantido e momentos marcantes no Bumbódromo

    Cunhãs-porangas do Garantido e momentos marcantes no Bumbódromo