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    Parintins


    Raízes indígenas e magia envolvem apresentações de Pajés do Caprichoso

    Os artistas que deram "vida" ao pajé do Boi Caprichoso relembram momentos marcantes diante da nação azulada

    Os rituais são cenas marcantes durante o festival
    Os rituais são cenas marcantes durante o festival | Foto: reprodução

    Manaus - O Pajé é mais que um item que se apresenta no tradicional Festival Folclórico de Parintins, o personagem é considerado como o curandeiro, xamã, sacerdote e ponto de equilíbrio das tribos. Pajés que fizeram história no Boi Caprichoso relembram momentos de magia no Festival Folclórico da ilha tupinambarana.

    O item número 12 envolve magia e misticismo nas suas apresentações. Cada apresentação leva a fé e raízes indígenas para a Arena dos bois. Edelson Beltrão foi um dos primeiros pajés da nação azul e branca. Após isso, foi a vez de Waldir Santana brilha e defender o item por três décadas. 

    Waldir Santana - 1992 a 2017

    Hoje relembra grandes momentos no festival
    Hoje relembra grandes momentos no festival | Foto: reprodução

    Ele começou a participar do Festival Folclórico de Parintins com 14 anos. Já fez apresentações em bailado corrido, tribos e depois saiu de Tuxaua, que na época eram umas das atrações mais esperadas do festival. 

    “Como eu já dançava muito e era envolvido na cênica, fui convidado para ser pajé e eu achava a fantasia muito feia, eu disse que iria, mas com uma fantasia diferenciada, no Garantido”, disse Waldir sobre o contrário, onde permaneceu por dois anos. 

    “Depois de dois anos, fui para o Caprichoso e lá se foram 30 anos de pajé no boi da estrela. Eu carreguei esse cajado e títulos maravilhosos como Pajé. Eu mesmo entreguei meu cargo em 2017. Já estava na hora. Foi o momento em resolvi abrir espaço para outras pessoas atuarem como pajé”, relembrou. 

    Santana foi um dos artistas que falam das dificuldades encontradas por trás dos bastidores. São histórias que não chegam ao conhecimento de todos, mas fazem todo o sentido quando o assunto é amor pelo boi.

    Waldir Santana defendeu o item por 30 anos
    Waldir Santana defendeu o item por 30 anos | Foto: reprodução
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    “Com muito orgulho passei momentos maravilhosos. Um dos momentos mais marcantes foi em 2009 quando eu caí de mais de oito metros de altura e quebrei o pé. Eu não morri, mas foi terrível. A alegoria já estava dentro do Bumbódromo. Tive que dançar de pé quebrado mesmo e muita gente não sabia disso. Foi um desespero para mim e minha família. Eu consegui arrancar uma força dentro de mim que eu não sabia que existia. Meu pé inchou na hora, quebrei dois dedos, em duas partes. Consegui décimos de vantagem sobre o pajé do contrário nesse dia” "

    Waldir Santana, Ex-pajé do Caprichoso

    Quem pensa que Waldir se entregou à dor e descansou no outro dia, se engana, pois ele conta que mesmo assim, com o pé quebrado, fez questão de se apresentar na Arena. 

    “Eu fui na segunda noite. Foi de superação, com peso da fantasia e muita responsabilidade. Ganhei também na segunda noite. Nunca me esqueço desse dia, foi marcante. Fui na fronteira da dor e agonia, dançar para o boi, a galera e minha família”, destacou o artista. 

    “Pajé onça, pajelança, pajé dança. Mestre os espíritos sangram, os espíritos clamam, revelam-se auriluzem. Mestre os espíritos sangram, por isso te usam, por isso te chamam. És metamorfo entre as trincheiras. Pajé de guerra, vem!” (Letra: Ronaldo Barbosa Júnior, 2020)

    Netto Simões - 2017 a 2019

    Netto Simões revela o amor pelo Boi Caprichoso
    Netto Simões revela o amor pelo Boi Caprichoso | Foto: reprodução

    O artista permaneceu no item por dois anos. Netto Simões trabalhou desde a infância, junto com o pai, mas em outras atribuições com pai que trabalhava como artista de alegorias. Em 2009 entrou como substituto no Garantido e em 2011 recebeu o convite para vir para o Caprichoso ser substituto do Waldir. O artista saiu do item para estudar e volta em 2017 para ser o pajé oficial. 

    “Meu sonho era ser artista de alegoria, pois meu pai trabalhava com isso e com o tempo despertou o olhar para o item pajé, pois eu via como super-herói. Eu tinha aquela vontade reprimida de ser item do boi, só que existiam um certo preconceito para quem dança no boi. Minha família, a princípio, não gostou da ideia, mas minha mãe e irmã me apoiaram”, relembrou. 

    O grande momento que Netto relembra com carinho foi fora da Arena quando recebeu a notícia que seria o próximo pajé. 

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    “No dia que eu entrei para ser pajé, confesso que nem esperava mais, não tinha esperanças de entrar. Quando eu cheguei no portão do local para acertar minha entrada no item, comecei a chorar. Lembro que não conseguia falar direito nas entrevistas de tanto que fiquei emocionado. O dia que mais me marcou foram em 2018 e 2019, quando entramos no camarim e me viram começaram a gritar meu nome. Outro momento foi ver a galera inteira dançando comigo eu evoluía e chorava” "

    Netto Simões, Ex-pajé do Caprichoso

    Defender o item era um sonho
    Defender o item era um sonho | Foto: reprodução

    “Pajé, ritual da floresta na luta contra o mal. O clamor desse povo é justiça, é paz, é amor. E na dança de guerra, oração do pajé” (Letra: Andréa Pontes e Rainier de Carvalho)

    Erick Beltrão é o atual pajé do Boi Caprichoso, além do trabalho como coreógrafo em Parintins, ele já ganhou destaque em trabalhos regionais e nacionais. 

    O pajé também é coreógrafo reconhecido
    O pajé também é coreógrafo reconhecido | Foto: reprodução

    “Eu já sonhava em ser pajé e não sabia ao certo quando seria a hora. O momento chegou e veio com uma grande responsabilidade que é reacender a tradição do item 12 na minha família. Estou muito orgulhoso e emocionado, sem dúvidas é o maior desafio da minha vida”, explicou.

    Em 2016, na abertura dos Jogos Olímpicos do Brasil, no Rio de Janeiro, Erick foi assessor geral de Deborah Colker, bailarina e coreógrafa brasileira reconhecida internacionalmente. Juntos, arquitetaram o quadro Pindorama, que retratou a força dos povos da Amazônia no evento.

    Erick defende o item de número 12 atualmente
    Erick defende o item de número 12 atualmente | Foto: reprodução

    “O mundo inteiro estava presente no Maracanã e Parintins mostrou o quanto é surpreendente pertencer ao povo da floresta. Foi uma experiência surreal, que eu pude desfrutar na companhia de todos que embarcaram comigo na aventura”, relembrou.

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