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    Pajé do boi


    Em mais de três décadas, pajés do Garantido relembram apresentações

    Defensores do item por décadas relembram momentos e contam experiências na maior festa folclórica popular do norte do país: o Festival de Parintins

     

    Décadas de muita representatividade envolve pajés do Garantido
    Décadas de muita representatividade envolve pajés do Garantido | Foto: reprodução

    Parintins – “Toquem maracás, rufem tamurás” porque a dança do pajé vai começar. O item de número 12 do Festival Folclórico de Parintins une sabedoria ancestral, proteção da floresta e cura para todos os males. Veja quem passou pelo boi Garantido, fez história como item e quem continua com o legado do grande pajé. 

    De 1993 a 1996, o atual estilista Helerson Maia esteve à frente do item destaque. Diferente de outras histórias contadas por pajés que, desde de criança, já sonhavam em fazer parte do item, Maia conta que o interesse surgiu apenas na adolescência.

     

    O ex-item 12 conta sobre a experiência
    O ex-item 12 conta sobre a experiência | Foto: reprodução

    “A minha infância toda foi na igreja evangélica. Eu não era envolvido com nada referente ao boi. Comecei a pensar nisso depois que o Jair Mendes foi presidente do Garantido porque o Waldir Santana já era pajé no Caprichoso e eu via que era uma coisa bacana brincar e aparecer em uma alegoria. Comecei a ser pajé após convite dele e lembro que o item passou a ser muito mais valorizado. A partir daí, as principais alegorias eram pensadas para a aparição do pajé”, relembra Maia. 

    O momento de aparição, dança e cenografia do item são momentos de alegria e entrega. Porém Helerson relembra dois momentos difíceis que precisou lidar, a primeira era encarar a ansiedade e a forte crítica dos jurados e mídia da época.

    “Eu não lembro de me preparar ou de estar me apresentando e ser uma coisa apenas boa, quando eu entendi que era uma grande responsabilidade, comecei a sofrer por antecipação por conta do resultado. Eu ficava muito ansioso e não sabia, ainda, lidar com a crítica. Quando eu recebia uma crítica, não sabia como reagir. Isso me marcou muito na época, era a única coisa que não curtia. A coisa boa era que tinha mais pajés, um principal e outros que faziam o que chamamos de pajelança. Era muito legal, nossa turma era muito boa e unida”, declarou. 

    Atualmente, o ex-pajé é estilista renomado
    Atualmente, o ex-pajé é estilista renomado | Foto: reprodução

    Outro momento lembrado por ele, envolve acidentes durante as apresentações ou por trás dos bastidores. O ex-pajé relembra um grave acidente, não com ele, mas com outro importante item do festival.

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    “Um dia que marcou não foi um momento alegre, mas triste. Foi quando a cunhã-poranga Jaqueline Marques caiu em uma apresentação junto comigo. Ela caiu num cabo de aço que foi feito para mim. Naquela época, a gente já estava com fantasia volumosa e o suporte que carregava a gente não chegava nas plumas que tinha nas costas. Me trocaram para a alegoria da Jaqueline que era um formigueiro no meio da Arena. Ela veio no meu lugar e caiu. Me emociono toda a vez que lembro desse episódio” "

    Helerson Maia, Ex-pajé do Garantido

    Helerson Maia dedica a vida agora para as criações como estilista conceituado que é. Por vezes produziu as indumentárias e assinou trajes típicos para misses Brasil. O traje que vai de deusa do Sol e vira um lindo beija-flor com movimentos na frente dos jurados e público - usado pela ex-miss amazonas e ex-miss Brasil Mayra Dias - é um dos mais relembrados. 

    A miss Brasil Mayra Dias usou o traje típico assinado pelo artista
    A miss Brasil Mayra Dias usou o traje típico assinado pelo artista | Foto: reprodução

    André Nascimento defendeu o item por duas décadas - 1999 a 2018

    20 anos é tempo suficiente para amadurecer e fazer diversas coisas na vida. André Nascimento usou duas décadas de sua vida para defender o item no boi Garantido. Fugir da mãe para brincar de boi é apenas uma das histórias contadas pelo artista. 

    André é chamado de pajé dos pajés
    André é chamado de pajé dos pajés | Foto: reprodução

    “Lembro que quando criança ia assistir ao festival com meus pais. Ainda lembro do antigo estádio, depois passou para o “tabladão”, o Bumbódromo de madeira. Quando eu pude realizar este sonho de assistir ao Garantido, tinha 13 anos e fugi da minha mãe para brincar de boi. Eu acompanhava os artistas, via a produção das fantasias e tudo. Nesse ano, surgiu uma vaga para participar da tribo, mas minha mãe não deixaria porque eu era menor de idade, por isso fugi”, relembra com humor. 

    Não foi apenas esta, a aparição de André na arena. Ele já tinha o sonho de ser alguém que defende o boi. Ele e os amigos criaram um grupo de dança chamado “Ritmo quente” e mostravam o trabalho gratuitamente pelo simples prazer de dançar. Ele recebeu posteriormente o convite de ser o coreógrafo de galera. Não tinha coreografia, cada um ia do jeito que achava melhor na torcida. André tem orgulho de ser considerado o primeiro. 

    “Em 1998 surgiu a oportunidade de um concurso de pajé e fui o favorito, mas quem ganhou foi outro e fiquei em segundo lugar. Quando foi em 1999 fazia viagens com o boi como pajé, mas não oficial, para o Pará. Como já estava participando, na comissão de artes fui oficializado como pajé. Chorei muito. Os pajés do Garantido sempre eram de Manaus e eu achava um sonho impossível. Eu queria tanto ser e pensava 'Ninguém coloca o olho em mim’. Sempre fui muito tímido”, disse, relembrando que não foi tão fácil ser um item destaque. 

    A dança diferente fez André sair da zona de conforto e em 20 anos testar diferentes inovações. Ele estudou tanto que conseguiu colocar a identidade que queria na dança do pajé. 

    André estudou a dança dos pajés amazônicos e africanos para evoluir na arena
    André estudou a dança dos pajés amazônicos e africanos para evoluir na arena | Foto: reprodução
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    “Eu sempre tive muita paixão pelo item. Eu falei para mim mesmo ‘Vou mostrar um trabalho diferente’. Eu comecei a estudar muito, ver vídeos de pajés em danças nas tribos. Estudei as danças de pajés africanos por conta das danças mais elaboradas. A gente explorou esse lado folclórico. Na primeira vez ganhei de um ponto e foi mágico. O momento mais marcante foi em 2007 no ritual ‘Uari’ fiz uma metamorfose de pajé para porco-queixada, na hora da minha transformação as galeras centrais, tanto do contrário quanto do Garantido, me aplaudiram. Não é para qualquer um. Fui reconhecido como artista” "

    André Nascimento, Ex-pajé

    O presente do Boi Garantido

    Adriano Paketá é o atual defensor do item. Ele confessa que nunca teve sonho de ser item, participar dos projetos já era de bom tamanho para ele. Adriano sempre gostou de dançar e nunca chegou a imaginar estar na arena se representando. 

    A defesa da floresta é ponto principal do pajé
    A defesa da floresta é ponto principal do pajé | Foto: reprodução
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    “Encarei isso como um profissionalismo e chegar a ser um item foi consequência, eu amadureci o lado cênico para a dança e isso me levou a chegar nesse patamar. Já havia rumores da galera querendo que eu fosse item antes de entrar, mas nunca criei expectativas sobre isso. Como dançarino nunca imaginei me tornar uma referência. É gratificante saber que o trabalho que fazemos é reconhecido. O carinho das pessoas é maravilhoso. Foram degraus escalados e passo a passo” "

    Adriano Paketá, Atual pajé do Boi Garantido

    Apesar de pouco tempo no item, Adriano diz que todo o momento para ele é único e guarda com muito carinho. 

    Adriano conta que subiu degrau por degrau até ser item
    Adriano conta que subiu degrau por degrau até ser item | Foto: reprodução

    “Desde a minha primeira apresentação com a transição entre os pajés e os quatro ensaios técnicos que tivemos foram picos de emoção. Não sei dizer sobre apenas um momento emocionante, para mim todos são únicos. Fui ovacionado na terceira noite durante a evolução em que estava tocando tambor, ali entendi que esse era o caminho e que era o momento da ascensão de ser abraçado por todos da nação vermelha e branca”, finalizou, dizendo estar orgulhoso por defender a história dos pajés do Garantido. 

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