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    Paralisação


    Antes e depois da pandemia: os desafios do audiovisual no Amazonas

    O setor audiovisual no Amazonas já sofria com falta de incentivo para produções, que foi potencializada com a pandemia da Covid-19

    A falta de incentivo é um dos pontos fracos da área audiovisual no estado
    A falta de incentivo é um dos pontos fracos da área audiovisual no estado | Foto: Divulgação

    Manaus - Cinemas fechados, estreias de filmes adiadas, produções e gravações interrompidas. Esse é o padrão que o setor audiovisual segue mundialmente, e, apesar das grandes obras de Hollywood receberem os holofotes, essa é uma realidade que o Brasil e, especialmente, Manaus também segue. Se já era difícil antes da pandemia do novo coronavírus, agora é que as incertezas e desafios ficaram maiores.

    Com a possível reabertura de cinemas prevista para o dia 6 de julho, no quarto ciclo do calendário divulgado pelo Governo do Amazonas, o Cine Casarão do Casarão de Ideias se prepara para abrir as portas. Mas o impacto que o local sofreu durante esse período foi profundo.

    “A crise na questão cinematográfica é uma cadeia, tem a produção, a distribuição e a exibição. Nós, enquanto exibidores, fomos afetados no sentido de termos um grande público por mês, e, com a pandemia, esse público foi zerado’’, afirmou João Fernandes Neto, diretor do Casarão de Ideias.

    Em efeito dominó, a distribuição também foi afetada. Várias obras cinematográficas foram desvinculadas e deixaram de circular devido à inatividade dos exibidores. “Em média, exibíamos 40 filmes por mês e ainda vamos analisar os desdobramentos. Muitas distribuidoras não retornaram à atividade, e os regulamentos da Agência Nacional do Cinema (ANCINE) não permitem outros formatos’’.

    Na retomada dos cinemas em Manaus, somente 50% das capacidades poderão operar. No Cine Casarão, isso significa que somente 19 pessoas poderão assistir a cada sessão, de acordo com João Fernandes Neto. “Pelo menos nesse segundo semestre do ano, a pandemia vai continuar nos afetando economicamente”.

    Produção Audiovisual

    No olhar de profissionais, histórias particulares, temas e contextos se tornam únicos. Os profissionais de produção audiovisual são os responsáveis por todos os processos de desenvolvimento de um filme, desde a concepção da ideia até a finalização. São eles que realizam a produção, edição e finalização dos materiais.

    O produtor audiovisual Thiago Morais, responsável pela Oficina de Produção Audiovisual (OPA), oferecida pelo Museu Amazônico da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), havia ganhado reconhecimento nacional com o curta-metragem amazonense ‘’O Caso Tucumã’’, concebido através do projeto.

    Selecionado em Festivais de destaque, os planos para o curta tiveram que ser adiados ou modificados com a pandemia da Covid-19. “O Caso Tucumã foi selecionado no 8º Festival de Cinema ‘Curta Pinhais’ e no 2° Festival Mazzaropi de Curta-Metragens, que foram adiados. O Festival de Cinema de Jaraguá do Sul também aconteceria nesse período, e tínhamos planos de ir para Santa Catarina exibir o curta, mas também sofreu modificações”, afirmou o produtor.

    Thiago Morais, responsável pela Oficina de Produção Audiovisual (OPA)
    Thiago Morais, responsável pela Oficina de Produção Audiovisual (OPA) | Foto: Divulgação

    No Amazonas, o setor audiovisual depende diretamente do incentivo de Governo. Uma situação que foi agravada com a pandemia, mas que existia antes dela, foi a suspensão desses incentivos através de editais, não só no estado, mas no Brasil. De acordo com a produtora audiovisual Saleyna Borges, que auxiliou no curta-metragem, o cenário regional já demonstrava incertezas.

    “Com a produção do ‘O Caso Tucumã’ e a parceria do Museu Amazônico, o estado abriu portas para novos talentos, que se mostravam promissores na área. Mas a realidade é que o setor audiovisual no Amazonas estava parado”, afirmou Saleyna. “Desde 2018, o estado não tem um edital de fomento à produção cultural no audiovisual, e o cinema ficou enfraquecido no Amazonas. As produções que vieram foram independentes’’.

    A questão da pandemia, junto à situação frágil no setor, potencializou a paralisação do audiovisual. O cineasta amazonense Sérgio Andrade, com prêmios internacionais no currículo, participou em produções de TV e cinema nacionais, e reafirma o agravamento da paralisação, não por falta de talento, mas por falta de incentivo.

    Saleyna Borges diz que o cenário regional já demonstrava incertezas antes da pandemia
    Saleyna Borges diz que o cenário regional já demonstrava incertezas antes da pandemia | Foto: Divulgação

    “No que diz respeito ao apoio público, através do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA), gerido pela Agência Nacional do Cinema (ANCINE), nós já tínhamos uma pandemia. A ANCINE contingenciou todo o volume de recursos do FSA, ela não está pagando nem desembolsando os recursos referentes aos editais’’, expõe Sérgio.

    “Isso está intricado com várias questões políticas do governo, que não está dando o apoio necessário à cultura, mas que deveria ter, pois é uma indústria muito forte e que gera a renda de muitas pessoas’’.

    No Amazonas, a situação segue no mesmo caminho. “Com o novo Governo e a suspensão de editais e também com a falta de novos editais, nós começamos a enfrentar um cenário incerto. Se atinge o Brasil, atinge o Amazonas diretamente’’, afirmou a amazonense Saleyna Borges. “Algumas produtoras locais haviam terminado os projetos, mas outros estavam aguardando exatamente esses editais para iniciar as produções’’.

    Sérgio Andrade é diretor, roteirista e produtor
    Sérgio Andrade é diretor, roteirista e produtor | Foto: Divulgação

    Próximas produções e alternativas

    Sem o apoio necessário à cultura e o impedimento de gravações, buscam-se alternativas. “O corte de verba, as produtoras paralisadas, cinemas fechados, assim, muitos optaram pelo meio on-line. Tivemos pré-lançamento de filmes de forma on-line, festivais de filmes on-line, como o festival de Cannes, por exemplo’’, pontuou o cineasta Sérgio Andrade.

    Mas a retomada da cultura, mesmo que esteja distante, deverá se adaptar ao ‘’novo normal’’. ‘’Afinal, são eventos que trazem aglomerações, mas buscam-se alternativas pois é uma indústria lucrativa’’, afirmou Sérgio.

    Em relação às produções em si, os cuidados que serão tomados anunciam uma nova forma de fazer cinema: as filmagens serão realizadas com todos os Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) e terá a exigência de distanciamento mínimo, na visão de Sérgio. ‘’Vai ser um desafio, mas já começam a surgir regulamentos sanitários em produções audiovisuais para nos auxiliar’’.

    No entanto, o Amazonas ainda deve caminhar a passos curtos nessas produções, de acordo com Saleyna. ‘’Acredito que 2020 é um ano em que o setor audiovisual não irá produzir tanto. Mesmo que tudo se ‘normalize’, o estado só vai conseguir produzir ano que vem, pois tem a questão de pré-produção, assinatura de contrato, contratação de equipe e todos os detalhes que devem ser bem planejados’’.

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