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    Amazônia: veja 4 lendas que persistem no imaginário da região

    Quem nunca ouviu de seus avós ou pais, as fantásticas lendas que mexem com o imaginário do amazônida? Conheça algumas!

    | Foto: Ésio Mendes/Secom

    Manaus - O folclore brasileiro é rico em lendas, que são estórias ou contos do imaginário popular, passados de geração em geração. Para a historiadora Karollen Lima, as lendas são fenômenos que surgem a partir da necessidade de se explicar algo que não é possível ser compreendido logicamente.

    “É como os fenômenos sobrenaturais que ocorrem e o homem sempre tenta um modo de compreensão sobre aquilo. Isso não significa que seja algo mentiroso, acredito que seja uma narrativa, uma forma de enxergar a realidade que é diferente da lógica racional”, explica a historiadora, que tem como base estudos sobre religiosidade, que se relaciona com esse outro tipo de compreensão.

    Karollen também explica que muitas histórias são creditadas e passadas entre famílias pelos povos ribeirinhos e indígenas, que ouvem as lendas desde a infância. A realidade desses povos, mesmo que não seja a mesma da sociedade metropolitana, não deve ser invalidada, desde as crenças pelas lendas até as de rituais de cura, como os chás que muitas avós conhecem e tendem a passar aos filhos.

    A maioria das lendas amazônicas se originaram dos povos indígena e o EM TEMPO selecionou as quatro delas.

    Lenda da Matinta Pereira

    Como todas as lendas, esta possui algumas variações. Há quem diga que Matinta Pereira é uma bruxa idosa, que se transforma em um pássaro durante a noite ou também apenas uma idosa que anda com um pássaro sempre ao seu lado. A primeira versão é a mais comum, a Matinta se transforma em um pássaro que voa livre e, se pousar no telhado ou muro de uma casa e der seu assobio agudo, o dono deve oferecer-lhe tabaco ou fumo. No dia seguinte, é certo que uma idosa irá aparecer na casa para pedir o que foi oferecido.

    Conta a lenda que se não for oferecido nada, o pássaro volta todas as noites e fica assobiando nas proximidades da casa. Caso o que foi oferecido não seja entregue, a Matinta amaldiçoa os moradores da casa com doenças ou até morte. Quando a Matinta está prestes a morrer, ela pergunta às mulheres se querem, não especificando o quê, se a resposta for positiva a pessoa é então amaldiçoada e se torna a próxima Matinta Pereira. A lenda ainda conta que há uma forma de capturar a ave: enterrar no chão uma tesoura aberta, um terço e uma chave, à meia-noite.

    A Matinta é popularmente conhecida como uma bruxa velha que se transforma em ave à noite
    A Matinta é popularmente conhecida como uma bruxa velha que se transforma em ave à noite | Foto: Joe Santos/Guerreiros Folclóricos

    Lenda do Mapinguari

    O mito do Mapinguari é popular entre os caboclos amazonenses e conta a história de um monstro que vive nas penumbras da floresta amazônica. Com um corpo coberto de pelos vermelhos, um olho só, garras afiadas e a pele semelhante ao do jacaré, o Mapinguari ataca os valentes índios caçadores durante o dia, tirando a noite para dormir. Sendo um feroz matador, ele ataca entre gritos estrondosos e deixa um rastro de destruição por onde passa. Quando alguma vítima consegue resistir, acaba ficando aleijada ou com marcas horrendas.

    Diz a lenda que alguns índios, ao atingirem certa idade, se transformariam no temido Mapinguari. Quem for amaldiçoado, passaria a viver sozinho nas florestas e atacar animais e quem passar por seu caminho. Há quem diga que ele foge ao ver um bicho-preguiça e ainda, muitos ribeirinhos amazônicos contam histórias de que o monstro anda montado em um porco do mato.

    Mapinguari desenhado pelo ilustrador Ikarow
    Mapinguari desenhado pelo ilustrador Ikarow | Foto: Ikarow

    Lenda do Pirarucu

    Essa lenda é originária do povo indígena Uaiá, localizado no sudoeste da Amazônia, e diz que o índio Pirarucu, filho do chefe da tribo, era conhecido por ser forte e valente, e se vangloriava disso. Por ser egoísta, vaidoso e adorar criticar os deuses, Pirarucu era o oposto do pai, que tinha o coração bondoso. Certo dia, na ausência de seu pai, o guerreiro fez alguns índios de sua própria tribo reféns e os matou.

    O deus Tupã, considerado o mais poderoso, resolveu punir Pirarucu e convocou a deusa da chuva, Iururaruaçu para lançar uma forte chuva nas margens do Rio Tocantins, onde o guerreiro estava pescando com outros índios. Junto a ela, também o deus Xandoré enviou raios e trovões, e um desses atingiu o coração de Pirarucu. Mesmo assim, ele não se arrependeu de seus erros e então, uma enxurrada forte o levou às profundezas do rio, onde ele se transformou em um enorme peixe de grandes escamas avermelhadas e cabeça achatada.

    Pirarucu ainda assombrou a região por muito tempo, antes de finalmente desaparecer nas águas e nunca mais retornar.

    Lenda dos Rios Xingu e Amazonas

    A lenda dos rios conta que antigamente não tinha rios na Floresta Amazônica e nem água para beber. A dona de toda água era a ave Juriti, que a guardava em três grandes tambores. Um dia, os três filhos de Cinaã, a mulher do pajé, estavam com muita sede e decidiram então pedir um pouco da água. A ave negou, fazendo com que os meninos voltassem à aldeia chorando de tanta sede. Ao contar para a mãe o motivo de tanta lamúria, Cinaã disse para não procurarem Juriti novamente, alertando para o perigo de ter peixes dentro dos tambores.

    Os meninos não escutaram Cinaã e voltaram a pedir água à ave. Depois de receber outro não, os meninos quebraram os tambores fazendo toda a água escorrer e com ela, os peixes. Os meninos correram, mas o maior dos peixes engoliu um deles, Rubiatá, que ficou apenas com as pernas para fora da boca do peixe. Os irmãos correram, sendo seguidos pelo peixão, e a água foi ocupando o rastro da fuga, formando o Rio Xingu. Ao chegarem no Amazonas, eles cortaram as pernas de Rubiatá e sopraram o sangue, trazendo o menino de volta à vida. Sopraram também a água no Amazonas e o rio nasceu largo. Depois voltaram à aldeia e disseram que nunca mais lhes faltaria água.

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