Ilustrações


Artista faz ilustrações amazônicas à base de monóxido de carbono

Após o trabalho como laboratorista, Haroldo Ayres atua como artista plástico naturalista e ilustrador científico, retratando fielmente espécies de animais com monóxido de carbono

A ideia de utilizar a fuligem para o trabalho artístico surgiu durante a quarentena
A ideia de utilizar a fuligem para o trabalho artístico surgiu durante a quarentena | Foto: Lucas Silva

Manaus – O ensaio “Osteologias Comparadas”, do laboratorista aposentado pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) Haroldo Libânio Ayres, mescla a arte com a ciência em um trabalho inédito no seguimento científico, registrando mais de cem espécies da fauna amazônica em ilustrações feitas com fuligens de monóxido de carbono e hidróxido de ferro.

A ideia de utilizar a fuligem para o trabalho artístico surgiu durante a quarentena, conforme relatou Ayres ao EM TEMPO. Com a diminuição de veículos circulando, a produção de monóxido de carbono é controlada, já que o gás surge, em parte, por causas humanas: queima de lenha, carvão vegetal e mineral; e derivados de petróleo pelos motores de veículos, gasolina; querosene; óleo diesel ou gás dão origem à substância.

Manaus 14.08.2020. Laboratorista do INPA utiliza monoxido de carbono para ilustrar. Foto: Lucas Silva
Manaus 14.08.2020. Laboratorista do INPA utiliza monoxido de carbono para ilustrar. Foto: Lucas Silva | Foto: Lucas Silva

Normalmente associado a queimadas e poluição, o monóxido de carbono realmente pode significar graves danos à saúde e ao planeta Terra se não for administrado corretamente, mas o gás recebe novos fins além dos industriais através do olhar artístico de Ayres.

“Eu realizei minha iniciação científica no Inpa, e atuei como ilustrador científico, então aproveitei esses conhecimentos nas obras. Comecei a retratar espécies, principalmente as amazônicas, pois não temos bibliografias diretamente ligadas à Amazônia e publicadas no Brasil’’, ressaltou Ayres, “os trabalhos que temos hoje foram publicados por naturalistas estrangeiros que passaram pela Amazônia”.

| Foto: Lucas Silva

A ilustração científica é uma ferramenta vinculada às pesquisas, utilizadas para retratar fielmente a fauna e flora. Espécies de peixes, insetos, anfíbios, e principalmente quelônios receberam novas representações através da técnica conhecida como ‘’sfumato’’, usada para gerar suaves gradientes entre as tonalidades e foi utilizado, inclusive, por Leonardo da Vinci na obra Monalisa.

| Foto: Lucas Silva

Monóxido de carbono

O uso do monóxido de carbono se deu através de uma ferramenta adaptada por Ayres, que coleta partículas do escapamento de carros e motores. ‘‘Com um utensílio utilizado há muitos anos pelos povos da Amazônia, a lamparina, eu realizo esse trabalho, já que nela é usada a queima de combustíveis fósseis, como o óleo diesel e a querosene’’.

| Foto: Lucas Silva

O objetivo de Ayres é utilizar “Osteologias Comparadas" como material didático em escolas e universidades ‘’para incentivar a juventude a fazer arte e, principalmente, mostrar para a sociedade que o monóxido de carbono não é só vilão’’.

Com a técnica que envolve extenso conhecimento técnico-cientifico, além de criatividade, Ulysses Barbosa, biólogo do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), afirma que as obras são de muita importância.

"O trabalho é excelente, e a nova técnica com monóxido de carbono é um grande acréscimo à comunidade científica não só pela disposição que está dando a várias espécies, mas também pela durabilidade que a ilustração fornece’’, ressaltou.

| Foto: Lucas Silva

Ferrugem

A ferrugem é outro material que também é utilizado em diversas obras do artista naturalista Haroldo Ayres. Com materiais enferrujados tanto pelo processo químico ou físico, diversas imagens da fauna e flora amazônica ganham vida.

“O material enferrujado pela ação do tempo produz uma substância que pode ser utilizada na arte. Sem descartar o material produzido por ações químicas, o primeiro cria figuras magníficas”, afirmou Ayres.

O trabalho, defende Ayres, é 100% ecológico, já que as telas para as ilustrações são feitas com papéis reciclados e caixas de papelão.

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