Amazônia


Guardiões da Floresta: artistas do Norte estampam capa da Vogue Brasil

Personalidades que atuam ativamente na preservação da Amazônia foram ouvidos pela Vogue Brasil em uma "força-tarefa mundial" sobre a esperança

| Foto: Vogue

Manaus – Em setembro, a Vogue deixou de lado questões relevantes à moda e ocupou as páginas da revista com um único tema em todas as edições mundiais: a esperança. No Brasil, a esperança tomou o formato da Amazônia e personalidades indígenas receberam destaque ao falar sobre a preservação das florestas e de quem vive nelas.

Uma das personalidades retratadas foi o paraense Emerson Munduruku. Biólogo, educador e artista visual, ele se tornou conhecido no Amazonas através da figura "Uýra Sodoma’’, drag queen que se autodenomina como "A Árvore Que Anda’’ e é ativista da causa ambiental.

Com performances artísticas, ela desempenha uma forte conexão com a Floresta Amazônica e com a cultura indígena. Uma das "Guardiãs da Floresta’’ – termo utilizado pela Vogue para se referir aos entrevistados –, ela foi ouvida pela revista no Parque Nacional de Anavilhanas, em Novo Airão, no Amazonas, junto com as outras personalidades.

Emerson Munduruku como Uýra Sodoma
Emerson Munduruku como Uýra Sodoma | Foto: Matheus Belém

"Sem minhas ancestrais, eu não estaria aqui. É nessa garantia que reside a minha esperança’’, assegurou.

Honrando a temática envolta da esperança, Emerson Munduruku se orgulha das ações direcionadas a educar jovens ribeirinhos e indígenas do interior do Amazonas.

Em paralelo, Munduruku conduz projetos de arte visual, especialmente em foto performances. Como Uýra Sodoma, realiza intervenções realizadas e fotografadas nos ambientes de Manaus e arredores, com o objetivo de conscientizar sobre questões ambientais.

"Não somente me alimento de toda a luta e resiliência de quem sobreviveu e segue sobrevivendo, aos genocídios e etnocídios, mas também me inspiro na dignidade e na perseverança coletiva em meio ao caos’’, ressaltou.

Série Mil Quase Mortos, de Emerson Munduruku, em 2019
Série Mil Quase Mortos, de Emerson Munduruku, em 2019 | Foto: Matheus Belém

Natural de Santarém, no Pará, o biólogo nasceu à beira do Rio Tapajós e a proximidade com a floresta existe desde a tenra idade. Criando raízes em Manaus aos cinco anos de idade, Munduruku afirma que a mata sempre foi um lugar especial.

"

Cresci conversando com a floresta, mesmo sem perceber que isto ocorria. Eu tenho um afeto radical pela vida, por isso hoje a defendo também através da arte. É assim que nasce Uýra: por um pedido de dentro de mim, um pedido maior que eu. Me sinto canal da floresta e também de toda a vida, humana ou não, que nos rodeia nas cidades "

Emerson Munduruku, biólogo

 "A nossa esperança se dá pelos povos da floresta, que sempre cuidaram e mantiveram a vida em um bom fluxo. A proposta da Vogue, de dar luz à essa verdade e se posicionar a favor dessas vidas, é de muita importância".

Uýra Sodoma na capa da Vogue Brasil
Uýra Sodoma na capa da Vogue Brasil | Foto: Hick Duarte

Uma das críticas ao momento atual que a Floresta Amazônica e os povos indígenas enfrentam foi uma das pautas levantadas na entrevista de Munduruku à Vogue Brasil, conforme o biólogo relatou ao EM TEMPO.

"Nunca vivemos tanto caos quanto nesse governo, que é um governo de caos, que está se articulando inteiramente para acabar com as florestas e com os povos e tradições indígenas. É um governo que quer crescimento a qualquer custo, mesmo que esse custo seja a vida’’, afirmou. "Sempre é necessário reafirmar a potência da diversidade que existe no Brasil".

Guardiões da Floresta

Capa da Vogue Brasil com Vanda Ortega
Capa da Vogue Brasil com Vanda Ortega | Foto: Hick Duarte

Vanda Ortega, técnica de enfermagem do povo Witoto que coordenou um protesto em prol de melhorias no atendimento aos povos indígenas durante a pandemia de covid-19, também integrou os "Guardiões da Floresta’’.

Exemplo de liderança ao realizar atendimentos gratuitos no Parque das Tribos em Manaus, Ortega conseguiu alterar o destino de muitos indígenas, principalmente ao cobrar um hospital de campanha ao então ministro da Saúde, Nelson Teich e uma ala específica para esses pacientes.

A luta diária para tirar os povos indígenas da invisibilidade recebe uma singela homenagem na capa da Vogue e a "esperança’’, mais do que nunca, é fortalecida pelas iniciativas de Vanda Ortega.

Também fotografada no Parque Nacional de Anavilhanas, em Novo Airão, a educadora e agente social do Movimento de Mulheres do Nordeste Paraense (Mmnepa) Rita Auxiliadora Teixeira está à frente da organização que luta contra a violência doméstica e a favor do empoderamento feminino através da educação financeira, atendendo cerca de 600 mulheres.

Rita Auxiliadora Teixeira na capa da Vogue Brasil
Rita Auxiliadora Teixeira na capa da Vogue Brasil | Foto: Hick Duarte

Auxiliadora foi a primeira professora de formação de adultos em Capanema, em Belém. Ela só conseguiu concluir os estudos porque a mãe vendia galinhas para comprar o material escolar dela quando criança.

A modelo paraense Emilly Nunes, que é descendente dos aruans, acompanha atenta a luta do povo amazônico e é personagem da Vogue em setembro.

Emily participa do movimento “Tudo por um Sorriso”, que acontece em Soure, na Ilha de Marajó, onde ela cresceu, e faz doação de cestas básicas em comunidades em situação de vulnerabilidade.

Diretora de conteúdo da Vogue Brasil, Paula Merlo explica como foi retratar o maior símbolo da natureza brasileira, durante a Covid-19.

“Foi um desafio produzir os conteúdos em meio à pandemia e sabemos que é um tema muito extenso para abordar em uma só revista. Precisaríamos de várias edições para falar da Amazônia legal como um todo e contemplar todas as lideranças e iniciativas que existem pelo desenvolvimento sustentável dessa área, mas contamos com importantes nomes da causa, que generosamente colaboraram conosco e enriqueceram o discurso”, ressalta.

"

Esperança não é apenas acreditar, mas agir "

Emilly Nunes, modelo, em entrevista à Vogue Brasil

Leia mais:

Artista amazonense ganha reconhecimento nacional como Drag Queen

'Ser selecionado para premiação nacional é reafirmação', diz indígena

Projeto 'Incenturita' estimula cultura e leitura em comunidades no AM