Consciência Negra


Representatividade negra na arte e na moda do Amazonas

Karen Francis, Cassiane Barbosa e Keila Serruya Sankofa conversaram com o EM TEMPO sobre a representatividade negra nas artes

Karen Francis, Cassiane Barbosa e Keila Sankofa
Karen Francis, Cassiane Barbosa e Keila Sankofa | Foto: Divulgação

Manaus – O Dia da Consciência Negra, com data nesta sexta-feira (20), levanta diversas questões referentes às pautas de classe e raça na atualidade. A narrativa negra no cenário cultural também aparece com um importante assunto, e artistas amazonenses reforçam a construção da sociodiversidade no estado e no país.

Em entrevista ao EM TEMPO, a cantora Karen Francis, nome referência na música manauara, a artista visual Keila Serruya Sankofa, que realiza um intenso trabalho de diálogo com a população através da arte, e a modelo Cassiane Barbosa, que rompe barreiras ao construir uma carreira na moda, discutem sobre as próprias experiências no cenário cultural do Amazonas.

Subversão

Na visão de Karen Francis, o espaço que artistas negros ocupam, atualmente, é definido em uma palavra: subversão. ''Muito baseado na resiliência, na vontade, e na necessidade de se fazer arte e de transformar no seu trabalho. Artistas negros, muitas vezes, não tem o privilégio de fazer arte só como hobby'', ressaltou.

| Foto: Arquivo EM TEMPO

Artistas negros, de acordo com a cantora, são bem recebidos conforme a motivação, e conforme o espaço ocupado. Unindo o gênero africano com o gênero brasileiro, Karen Francis atua com o MPB, mas reflete que, se fizesse rap, talvez não tivesse a carreira que tem hoje. 

''É uma produção artística que fica um pouco mais à margem, sendo até mesmo hostilizado. Tem várias coisas que implicam o nosso trabalho, nossa vida, o nosso modo de se vestir, a nossa forma de se expressar com essas linguagens'', conta. 

A contribuição que a cantora acredita exercer no cenário atual, envolve os processos ‘’das pessoas que estão ao meu redor, das pessoas que se parecem comigo, das pessoas que partem do mesmo lugar. Acredito que contribuo sendo solidária, olhando por outro lado, e não só me lamentando, mas fazendo algo para que o cenário mude’’.

Memória

Projeto ''Direito à Memória''
Projeto ''Direito à Memória'' | Foto: Keila Sankofa

Reivindicar lugares na memória do Amazonas, compreender a identidade de figuras negras enterradas, ‘’que reforça o não-lugar do povo negro, tantas vezes invisibilizado’’, é a proposta do trabalho de Keila Serruya Sankofa, artista visual, realizadora audiovisual e produtora amazonense.

Um dos projetos mais recentes de Sankofa é o ‘’Direito à Memória’’, pesquisa artística que gera filme, fotografia e ocupação urbana, utilizando a arte como ferramenta de informação, e foi composto e executado juntamente com uma equipe formada por pessoas negras e indígenas.

O projeto transmídia tem foco nas figuras históricas importantes que não estão nos livros, nem nos retratos dos museus. Esse trabalho ocupa espaços do transporte coletivo das zonas leste e norte de Manaus.

Keila Serruya Sankofa, artista visual, realizadora audiovisual e produtora amazonense
Keila Serruya Sankofa, artista visual, realizadora audiovisual e produtora amazonense | Foto: Reprodução/Instagram

“As pessoas passam muitas horas dentro do ônibus, o transformaremos em um espaço expositivo de arte. Estamos satisfeitos por saber a importância e ineditismo desta ação”, disse Keila Sankofa. 

‘’Manaus vai ter que entender que não adianta empurrar esse lugar de estrangeiro, para nós, a população negra. Sabemos quem somos, e de onde viemos. Não há como voltar’’

As narrativas da artista visual são voltadas às questões ligadas à ancestralidade negra e gênero, não somente em ‘’Direito de Memória’’.

Keila compreende a rua como espaço de diálogo com a cidade e utiliza a fotografia e o audiovisual como ferramenta para propor autoestima e questionar apagamentos de pessoas negras; atualmente, utiliza seu corpo como protagonista na construção das obras.

Representatividade

A modelo Cassiane Barbosa
A modelo Cassiane Barbosa | Foto: Divulgação

Na luz dos holofotes, a modelo amazonense Cassiane Barbosa percorre uma carreira em ascensão no mercado mundial da moda, tendo participação em grandes revistas, como a Vogue, e virando inspiração para artistas estrangeiros.

Orgulho para a terra Baré e para si própria, a beleza de Cassi Barbosa – como é conhecida na profissão – rendeu um contrato com uma das maiores agências do país, e, aos 20 anos, o futuro da modelo é promissor.

O espaço de destaque que a modelo ocupa é algo que causa esperança. Ela, que se inspira em personalidades como Taís Araújo, conta do pouco espaço que modelos negras possuem no mercado.

‘‘Não tive muitas referências ao iniciar, então, estar onde estou é uma honra. Representar o Amazonas nesse mercado, levando meu estado, acredito que esteja abrindo portas para outras meninas negras, que, futuramente, sonham em virar modelos. Acho que elas se veem em mim, se sentem representadas’’, afirmou a modelo, relembrando as raízes amazonenses.

Atualmente, Cassiane revela que o mercado abriga mais modelos negras, e que tem contato com outras mulheres semelhantes em cor, mas ainda há um longo caminho a ser percorrido. ‘’Afinal, vivemos num país extremamente racista’’, concluiu. 

Leia mais:

Unindo gênero africano e brasileiro, Karen Francis faz 'acontecer'

'Até o Tucupi de Negritude' ocorre no Teatro Amazonas na sexta (20)

Jornalista do AM conta histórias de trabalhadores do Centro em livro