Aclamado pelo público pela crítica


Protagonizado por indígenas do AM, 'A Febre' é sucesso nos cinemas

Gravado em Manaus, o filme ‘’A Febre’’ já recebeu 30 prêmios e foi selecionado para mais de 50 festivais

| Foto: Divulgação

Manaus - Com Manaus como palco das filmagens de ‘’A Febre’’, dirigido por Maya Da-Rin, o longa-metragem acompanha Justino, interpretado pelo xamã do povo Desana, Regis Myrupu, e a filha Vanessa, vivida por Rosa Peixoto, da etnia Tariano. Ambos indígenas, eles vivem há mais de 20 anos na capital amazonense.

O filme já acumula mais de 50 festivais mundiais no currículo e já recebeu mais de 30 prêmios. Um deles marcou a estreia de Regis Myrupu no cinema: o primeiro filme na carreira do indígena lhe rendeu o troféu de Melhor Ator no Festival de Locarno, na Suíça. 

Premiadíssimo, “A Febre’’ foi, inclusive, cotado por críticos como o representante do Brasil para o Oscar 2021. Um dos aspectos que mais chamam a atenção no filme, é o fato de cenas serem interpretadas em português brasileiro e em tikuna – boa parte do filme, aliás, é falado na língua indígena.

Em Manaus, “A Febre’’ recebeu uma sessão única e simbólica no Playarte Manauara, e foi exibido pelo Cine Casarão, no Casarão de Ideias, e segue circulando por vários cinemas do Brasil. Filmado em 2018, o filme está em cartaz nas plataformas Net Now, Vivo Play e Oi Play. 

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A equipe responsável pelo “nascimento’’ do longa-metragem foi escolhida a dedo por Maya Da-Rin, que priorizou nomes locais, formando um grupo majoritariamente amazonense, e foi produzido por Tamanduá Vermelho (Brasil), em coprodução com Enquadramento Produções (Brasil), Still Moving (França) e Komplizen (Alemanha).

 Diego Bauer, responsável pelo Festival Olhar do Norte, que exibiu “A Febre’’, revelou que o filme foi motivo de enorme satisfação. “Não apenas pelo fato de ser um filme de trajetória gigante em diversos festivais pelo mundo, mas pela delicadeza e relevância das discussões que propõe. Pude ver de perto o filme sendo feito, fui 3º assistente de direção do filme, e ali pude ver todo o dedicado trabalho da direção na relação com Manaus, com os atores, os dramas ali expostos’’, contou.

A Febre

Justino, um índio de 45 anos, que há duas décadas vive na capital, trabalha como segurança no Porto de Manaus. Desde a morte da esposa, a filha mais nova, Vanessa, é a principal companhia dele no mundo industrial cercado pela floresta amazônica.

Enfermeira em um posto de saúde, Vanessa acaba de passar para a faculdade de Medicina, na Universidade de Brasília, mas se mostra insegura entre seguir o sonho e deixar o pai. Com a notícia da partida da filha e a distância da aldeia, de onde partiu há mais de 20 anos, Justino já não se sente tão bem. 

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Logo, ele é tomado por uma febre forte. Paralelamente, uma série de estranhos ataques a animais ganha destaque na TV local, e durante a noite, uma criatura misteriosa segue os passos de Justino.

Durante o dia, ele luta para se manter acordado no trabalho. Mas a rotina tediosa do porto é quebrada pela chegada de um novo vigia, que de forma bem direta, demonstra cada vez mais o preconceito contra o homem.

Enquanto isso, a visita do irmão faz Justino rememorar a vida na aldeia, de onde partiu vinte anos atrás. Entre a opressão da cidade e a distância da aldeia na floresta, Justino já não pode suportar uma existência sem lugar. 

Crítica especializada

O filme “A Febre’’ foi aplaudido de pé não só pelo público, mas também pela crítica especializada. Diego Lerer, do blog de cinema argentino Micropsia, definiu a obra como “um filme seco e rigoroso, mas próximo da observação da vida cotidiana do que de forçar estruturas dramáticas calculadas ou impor falsas narrativas sobre a evolução de vidas cuja complexidade é evidente em cada plano, diálogo ou olhar’’.

A encenação, de acordo com o crítico, é a mais precisa e consistente possível, “como a história que conta. E ter essa precisão em um primeiro filme é tão incomum quanto bem-vindo". A produção de Maya Da-Rin também marca a estreia na ficção da diretora.

Confira outras críticas

"A Febre pode ser considerado um marco no modo como o cinema encara esse personagem trágico que é o índio no mundo dos brancos - ou mais precisamente, o índio brasileiro num país entregue desde sempre a voracidade predatória de um certo modelo de civilização".

| Foto: Divulgação

José Geraldo Couto, Blog do IMS

“Sem alarde, com sutileza e sensibilidade, aproveitando a simplicidade e humanidade dos seus intérpretes, a diretora concebeu um dos filmes de estreia mais convincentes do cinema latino-americano dos últimos anos"

Diego Batle, Otroscine

"A Febre é cinema em sua essência, exigindo empatia e compreensão sem piedade e didatismo, e protagonizando os indígenas com uma atenção às suas especificidades culturais como poucos filmes se preocupam em elaborar."

Beatrice Loayza, Cinema Scope

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