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    Nova batalha


    Última locadora em Manaus enfrenta novo 'vilão': Covid-19

    Encarando a pirataria e a ascensão do streaming, a última locadora de Manaus enfrenta agora o que pode ser o último obstáculo nessa história: a pandemia da Covid-19

     

    Overland Cruz comandou a Take Video durante 25 anos
    Overland Cruz comandou a Take Video durante 25 anos | Foto: Arquivo EM TEMPO

    Manaus – Quando a locadora Take Vídeo abriu as portas em Manaus, na década de 90, o desejo do proprietário Overland Cruz era garantir um sustento para a família – na época, o negócio prometia um aumento significativo. E, por muitos anos, a empreitada deu certo: sobrevivendo à pirataria, a loja também bateu de frente com a era do streaming, e hoje, enfrenta a crise da Covid-19, o que pode resultar no fechamento.

    Atualmente, a loja na avenida Perimetral, bairro Parque 10 de Novembro, zona centro-sul de Manaus, acumula um acervo de mais de 50 mil filmes. Mesmo que muita gente acredite que as videolocadoras foram extintas, o negócio ainda atrai algumas pessoas, principalmente pela nostalgia.

    Última videolocadora de Manaus, o estabelecimento persiste à base do legado que tem sobre toda uma geração que, fielmente, passava horas lendo as sinopses nas capas dos DVDs para escolher os títulos que seriam alugados na sexta-feira, e devolvidos somente na segunda.

     

    Locadora ainda atua com serviço delivery e drive-thru
    Locadora ainda atua com serviço delivery e drive-thru | Foto: Arquivo EM TEMPO

    “O público que a gente tem hoje, é aquele que gosta mesmo de ir até a loja, conversar sobre os filmes, olhar todas as opções. Também aquele público que sabe que vindo na locadora, vai achar um filme que não achou em nenhum outro lugar, pois esse é o nosso diferencial”, compartilhou o proprietário. Antes da pandemia, a Take Vídeo alugava cerca de 400 filmes por mês, um número que vem caindo desde o início de toda a situação.

    Para contornar esse quadro, a loja recorreu a métodos criativos para se adaptar ao “novo normal”. Utilizando as redes sociais a seu favor, os serviços de aluguel de DVD também chegam por delivery ou drive-thru.

    “Nós temos nossa agenda de clientes fixos, e compartilhamos pelo WhatsApp as nossas novidades e nossas promoções. Além disso, aderimos ao delivery e drive-thru nos últimos tempos. As pessoas podem chegar para pegar o DVD, depois devolver, mas seguindo o decreto, só funcionamos duas horas por dia”, explicou. Uma das estratégias também foi a venda do acervo disponível.

     

    Loja está localizada no bairro Parque 10 de Novembro
    Loja está localizada no bairro Parque 10 de Novembro | Foto: Arquivo EM TEMPO

    Apesar de permanecer aberta, Overland revela que essa não é mais a principal fonte de renda da família. A Take Vídeo, agora, é uma loja que relembra os momentos de ouro do cinema, um hobby para o proprietário, mas que já não traz lucro.

    “Antes da pandemia, a locadora até se pagava, cobria os gastos que eu tinha, e eu não precisava tirar do meu bolso, agora é outra história”, disse.

    Auge

    As videolocadoras se popularizaram em todo o Brasil a partir de 1980, após a criação do VHS, e o “boom” foi em 2000, com a chegada do DVD. Segundo Overland Cruz, o auge não só da Take Vídeo, mas de todas as lojas do ramo, foi justamente nesse período de transição da tecnologia, onde a melhor qualidade de imagem e som ganhou a fidelidade dos clientes.

     

    Take Video chegou a ter três filiais em Manaus
    Take Video chegou a ter três filiais em Manaus | Foto: Arquivo EM TEMPO

    Referência em Manaus durante 25 anos, a Take Vídeo chegou a ter três filiais espalhadas por Manaus e inovou ao acompanhar a transição do VHS para o DVD, sendo a primeira videolocadora da capital a disponibilizar essa novidade ao público.

    “O negócio estava tão bom, que o que fazíamos em um dia naquela época, não é nem o que fazemos em um mês hoje”, afirmou Overland.

    Com esse auge, um dos diferenciais da loja foi ir além dos sucessos de bilheteria. Apostando em filmes independentes e fora do circuito comercial, a locadora oferecia o que nenhum outro local oferecia, e o público percebeu isso.

    Concorrência

     

    Grande concorrente das videolocadoras foi a TV paga
    Grande concorrente das videolocadoras foi a TV paga | Foto: Arquivo EM TEMPO

    A pirataria e a popularização dos serviços de streaming, apesar de parecerem os maiores concorrentes das locadoras, não são exatamente esses grandes vilões. “De um modo, atrapalha, mas de outro, até que ajudou. Uma das nossas vantagens, é que se temos um filme, temos um filme. Não é como no catálogo da Netflix, por exemplo, que tem essa rotatividade de entra e sai. Aqui, está sempre disponível”.

    A grande concorrência, na realidade, foi a TV paga, que também oferecia um serviço de locação de filmes sem sair de casa. No entanto, a pirataria ainda causou o fechamento de muitas videolocadoras.

    “A procura diminuiu, os fornecedores, os escritórios de representação saíram daqui, e foi todo um conjunto de fatores que causou o declínio das locadoras”, lamentou.

    O proprietário ressaltou, ainda, que nunca precisou recorrer à pirataria para manter o acervo  atualizado, uma prática que muitas lojas utilizaram. “Aliás, quando comprei a locadora, vi que alguns filmes não eram originais, mandei queimar todos esses filmes, e só abasteci o acervo com material legal”.

     

    Take Video se prepara para fechar as portas
    Take Video se prepara para fechar as portas | Foto: Arquivo EM TEMPO

    Segundo dados de 2019, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), há mais videolocadoras que livrarias em todo o território nacional, mesmo com todo esse declínio que o ramo passou nos últimos anos.

    E o que o futuro guarda para a locadora?

    Como muitos negócios, a Take Video também sofreu com os efeitos econômicos da pandemia, e caminha para o fechamento. Enquanto havia procura – mesmo que mínima – Overland continuou com as portas abertas, mas o adeus oficial já começou com a venda do acervo da locadora. “Foi muito bom enquanto durou, mas é inevitável: já estamos nos preparando para encerrar essa história”.  

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