Fonte: OpenWeather

    Trabalho criativo


    ‘Vamos resgatar a memória de Manaus’, diz Tenório Telles no Concultura

    À frente do Conselho Municipal de Política Cultural (Concultura), Tenório Telles afirma que busca promover as expressões culturais de Manaus, além de resgatar as memórias da cidade

     

    Tenório Telles assumiu a presidência do Concultura
    Tenório Telles assumiu a presidência do Concultura | Foto: Ana Gadelha

    Manaus – Em meio ao cenário do Centro Histórico de Manaus, no Museu da Cidade, o Conselho Municipal de Política Cultural (Concultura) iniciou as ações e planejamentos com a nova gestão. Em janeiro deste ano, o escritor Tenório Telles assumiu a presidência do órgão deliberativo e consultivo que entre um dos papéis, tem a função de fiscalizar e avaliar as ações da Fundação Municipal de Cultura, Turismo e Eventos (Manauscult). 

    Tenório Telles recebeu a reportagem do EM TEMPO no novo posto, onde compartilhou sobre os projetos que estão em execução e as motivações para trabalhar no órgão que é responsável pelos Prêmios Literários Cidade de Manaus e integra o Conselho Gestor do Fundo Municipal de Cultura.

    Um dos nomes de destaque na literatura amazonense, Tenório Telles substitui o também escritor Márcio Souza - que exerceu o cargo na administração anterior - a quem elogiou o trabalho à frente do conselho.

    O diretor-presidente da Manauscult, Alonso Oliveira, agora trabalhando ao lado do escritor, exaltou a parceria com o conselho. “Somos surpreendidos com essas boas notícias, essa parceria, e não poderíamos ter escolhido um ao outro, melhor. É como se fosse um laboratório de ideias boas, de projetos novos, muito bem-intencionados com a cidade de Manaus. A nossa intenção é justamente manter as duas instituições andando paralelamente, respeitando cada um, o limite do outro”, explicou ao EM TEMPO.

     

    Alonso Oliveira e Tenório Telles
    Alonso Oliveira e Tenório Telles | Foto: Ana Gadelha

    Confira a entrevista com o presidente do Concultura, Tenório Telles:

    EM TEMPO: O que o motivou a realizar esse trabalho no Concultura? Esse não é o primeiro convite que você recebeu para integrar órgãos culturais da esfera política, mas o que você viu de diferente nesse convite em específico para aceitar?

    Tenório Telles: De fato, eu já tinha recebido outros convites no passado para trabalhar na esfera pública, principalmente na área cultural. Mas, na época, eu estava muito empenhado no trabalho que eu fazia na área editorial. Era um trabalho, para mim, muito simbólico, que estava associado com o resgate das grandes obras da literatura do Amazonas, e eu queria muito fazer isso. Eu entendia, naquela época, que ao resgatar os livros e autores que estavam fora do mercado, eu poderia contribuir muito para firmar e ajudar na compreensão da consciência sobre a nossa história, nosso passado, nossa memória. Os livros transformam as vidas das pessoas. Era um trabalho de comprometimento com a nossa memória cultural, por isso, não aceitei naquela época nenhum convite. Naquele momento, eu precisava concluir esse trabalho. Quando recebi o convite para esse cargo, eu pensei muito sobre isso, e hesitei um pouco, pois ainda não tive essa experiência de gestão pública, embora tivesse muita experiência na gestão privada. Fiquei com muito receio de assumir o cargo, pois era uma função com a qual eu não tinha familiaridade, mas decidi topar esse desafio. Pela primeira vez, estou assumindo um cargo público, pois quem sabe eu não posso ajudar a promover as expressões culturais da cidade, principalmente a juventude.

     

    "Pela primeira vez, estou assumindo um cargo público, pois quem sabe eu não posso ajudar a promover as expressões culturais da cidade", diz Tenório Telles
    "Pela primeira vez, estou assumindo um cargo público, pois quem sabe eu não posso ajudar a promover as expressões culturais da cidade", diz Tenório Telles | Foto: Ana Gadelha

    ET: E ao aceitar o cargo, você teve alguma exigência para realizar esse trabalho?

    TT: A minha presença no Conselho de Cultura, na gestão do prefeito David Almeida, aconteceu de forma inesperada, pois como tive um problema de saúde e precisei voltar para Manaus, não pude mais retornar para São Paulo. Eu estava em Manaus quando ocorreu a eleição, e após a eleição, fui convidado para participar de uma reunião com o prefeito David Almeida e com o chefe da Casa Civil, Tadeu de Souza Silva, onde conversamos sobre os projetos culturais da prefeitura para a nova gestão, e eles me pediram opiniões, sugestões. Foi uma conversa muito positiva. Me perguntaram se eu teria interesse em ajudar a prefeitura que estaria iniciando em 2021, e eu respondi: “eu posso ajudar, me disponho a ajudar sim, já que não estou envolvido em mais nenhum projeto editorial”. Foi uma conversa informal, e quando foi início de janeiro, o chefe da Casa Civil me chamou novamente para me dizer que o prefeito David Almeida queria que eu assumisse o Conselho de Cultura. Eu tenho muito interesse em duas coisas: quero muito poder contribuir com esse processo de criação cultural da juventude, pois acho que os jovens precisam ter oportunidades de aprendizado, de crescimento, de compreensão, e eu acho que a cultura é muito importante na criação da juventude. Eu quero pautar muito aqui o meu trabalho no Conselho de Cultura, nesse trabalho de formação da juventude e, claro, incentivando outras expressões culturais na cidade. Outra coisa que eu considero muito importante, é esse trabalho em favor do reconhecimento das tradições ancestrais nas cidades, as culturas indígenas.

    ET: Nesse cargo, você também está seguindo os passos do escritor Márcio Souza. O que você observa da gestão dele que pretende dar continuidade e o que pretende mudar?

     

    Um dos nomes de destaque na literatura amazonense, Tenório Telles substitui o também escritor Márcio Souza
    Um dos nomes de destaque na literatura amazonense, Tenório Telles substitui o também escritor Márcio Souza | Foto: Ana Gadelha

    TT: O Conselho de Cultura já existe há algumas décadas, mas nesses últimos anos, ele assumiu uma importância e um significado maior. Ele foi estruturado, ele passou a ter uma abrangência maior, uma estrutura formal e mais efetiva, e esse foi um trabalho que foi realizado na gestão do Márcio, que eu considero muito importante. O Conselho assumiu um status, dentro da estrutura da prefeitura, de reconhecimento do ponto de vista administrativo. Acho que essa foi uma contribuição importante na gestão do Márcio Souza. Nós vamos manter os prêmios literários, vamos manter e reformular para dar mais densidade nesse prêmio. Nós vamos também continuar com essa política que começou na gestão dele, e vamos ampliar esse trabalho com novas iniciativas, principalmente com um projeto muito associado à memória de Manaus, vamos contribuir muito para resgatar a memória da cidade, por meio de publicações, por meio da produção de documentários. Você não valoriza o que você não conhece.

    ET: Nessas primeiras semanas de gestão, você já tem mostrado um trabalho bem forte para a preservação da cultura local e para aproximar a classe artística. Esse é o ritmo que o conselho irá manter?

    TT: No conselho, nós estamos trabalhando em conjunto com a Manauscult e queremos criar uma aproximação, unir esforços para que nós possamos colocar as expressões culturais da cidade num plano importante da gestão do prefeito David Almeida, já que o conselho é um órgão consultivo e a Manauscult é um órgão executivo, digamos assim, que realiza as políticas na área cultural. Nós estabelecemos um diálogo com o presidente, Alonso Oliveira, para que o conselho possa ajudar a Manauscult na execução dos seus projetos culturais, sugerindo projetos, sugerindo ações, e juntos executando tudo isso. É intenção nossa promover a cultura e tornar a cultura um tema importante, ainda mais, tornar a cultura uma fonte de emprego e renda. Vamos dar uma ênfase muito grande na cultura criativa, que cada artista seja um agente dessa indústria, que ele venda seu produto, e que esses produtos estejam acessíveis aos turistas. O prefeito David Almeida está com a política de criar um Distrito Cultural em Manaus. No planejamento de governo dele, junto com os secretários da área econômica, viram essa possibilidade de gerar emprego e renda.

     

    Tenório Telles recebeu a reportagem do EM TEMPO no novo posto
    Tenório Telles recebeu a reportagem do EM TEMPO no novo posto | Foto: Ana Gadelha

    ET: E quais são os primeiros passos para fazer isso acontecer?

    TT: Nós já começamos. O primeiro passo que foi dado nesse sentido, é que tanto o conselho de cultura quanto a Manauscult vão ficar no Centro Histórico. Ambos sempre funcionaram fora do Centro Histórico, e nós decidimos que ficando aqui, vamos valorizar esse local. Trazendo os funcionários para conviver com o espaço, trazendo as pessoas que nos procuram para conhecer aqui, fazer um passeio pelo Centro Histórico.

    ET: Em paralelo ao seu trabalho no Concultura, você pretende dar continuidade aos seus próprios projetos literários?

    TT: O meu trabalho criativo, eu pretendo continuar. Tenho três livros que estou preparando. Como eu te falei, quando eu adoeci, tive esse senso de urgência. Hoje eu ando muito rápido, fiquei com muito receio nessa questão. Quando eu me recuperei, entendi que a vida é precária, que a vida é impermanente. Então, estou fazendo tudo para hoje, faço tudo de imediato, quero muito fazer as coisas. Antigamente, eu planejava para o ano que vem, agora estou trabalhando para hoje.

    Leia mais:

    Tenório Telles lança livro dedicado a Manaus nesta sexta (23)

    Crônica para Manaus: cidade que mora em mim

    Representantes das artes em Manaus se reúnem com Concultura