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    História


    Conheça locais construídos em cima de cemitérios em Manaus

    Diversos pontos da cidade foram erguidos sobre locais de sepultamento de outras épocas da cidade

     

    | Foto: Divulgação

    Manaus - A cidade de Manaus é conhecida pela beleza natural, cultura diversa, por ser fronteada pelo colossal Rio Negro, pela culinária singular, pelo Teatro Amazonas, prédios de toques europeus do Ciclo da Borracha contrastando com as palafitas nos cursos d'água da cidade e pela qualidade de seus artistas, como os escritores Milton Hatoum, Thiago de Mello e o saudoso intérprete Zezinho Correa.

      No entanto, há pontos da história de Manaus que não são tão iluminados. Um destes pontos, desconhecido mesmo por moradores antigos da cidade, é que muitas de nossas praças e locais públicos mais conhecidos foram construídos sobre habitações e cemitérios indígenas.  

    Elaboramos uma lista dos locais mais famosos de Manaus que tem essa origem em comum em cemitérios. As informações foram fornecidas pela pesquisa historiográfica do historiador Bruno Braga, mestre em História Social pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam) e doutorando em História Cultural pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).

     

    | Foto: Divulgação

    A própria origem de Manaus

    Manaus como um todo foi erguida sobre as redondezas do que era conhecido como a Fortaleza da Barra do Rio Negro, que o antropólogo José Ribamar Bessa chamou de "curral dos índios".

    "Era nesse local que os indígenas dos séculos XVII, XVIII e XIX exerciam seus afazeres", afirma o pesquisador. 

    É por ter sido construída sobre um local com tantos indígenas de culturas diversas que a cidade de Manaus apresenta diversos pontos que têm origem em cemitérios indígenas, ou em que arqueólogos frequentemente encontram resquícios da história dos nossos primeiros habitantes.

     

    | Foto: divulgação
    "

    Temos tantos resquícios pela grande diversidade de grupos indígenas na região. E cada um deles exerciam suas idiossincrasias naquele espaço/tempo sem interferir no espaço dos outros. A vida indígena era e é diversificada "

    José Ribamar Bessa, antropólogo

     

    "Pela grande presença de indígenas, seguindo o ciclo da vida, ao morrerem estes eram enterrados na lógica cultural de sues respectivos grupos e todos no mesmo solo que era a Barra do Rio Negro."

    Praça da Saudade

     

    | Foto: Manauscult

    O viajante francês Paul Marcoy, que fez uma viagem para a Amazônia em 1848, documentou que na Barra do Rio Negro, atual Manaus, havia um cemitério indígena na região mais distante da vida urbana do local. O cemitério guardava especificamente os mortos de grupos rio negrinos da família aruak, Baré, Passé. 

    A região é muito provavelmente a região em que está hoje a Praça Cinco de Setembro, popularmente conhecida como Praça da Saudade.

    "O nome popular remeteria justamente a estes cemitérios e a presença de artefatos arqueológicos encontrados na região corrobora os indícios da antiga existência desse local de sepultamento", explica o professor.

    Praça Nove de Novembro

    A praça Nove de Novembro, hoje quase extinta, tem sido local de descoberta de diversos artefatos arqueológicos e urnas que fazem alusão à provável guarda dos corpos de indígenas de outrora.  "É significativo e expressivo o valor desses lugares para pensarmos a própria história da cidade e da gente dela", reflete Bruno.

    Praça Dom Pedro II

     

    | Foto: Manauscult

    Talvez o exemplo mais famoso e consolidado de um local público construído sobre um cemitério indígena, a Praça Dom Pedro II, no entorno do Paço Municipal e ainda estendendo-se à área do Museu da Cidade, possui uma riqueza arqueológica impressionante. Urnas encontradas no local já foram adicionadas ao Museu da Cidade.

      Notória pelos traços arquitetônicos do período áureo do Ciclo da Borracha, é um contraste cultural observar que a praça Dom Pedro conhecida pela beleza e pelos sinais associados a uma riqueza civilizacional europeia foi construída justamente sobre um cemitério indígena, reforçando simbolismos que permeiam a história de Manaus.  

    O professor Bruno destaca a semelhança sentimental e de preservação de memória entre as praças que coincidem em ter esse histórico.

    "É bacana pensarmos como a cidade se desenvolveu por sobre 'os mortos', se formou, urbanizou em locais de memória, de saudade. A Praça Dom Pedro II, é apontada como um sítio arqueológico devido a onipresença desses elementos e do antigo cemitério indígena"

    Construção do Conjunto Residencial Cidade Nova

    Mais distante do Centro Histórico de Manaus, durante a construção do Conjunto Residencial Cidade Nova, em 2001, foi descoberto um imenso sítio arqueológico, cobrindo mais de 250 mil metros quadrados. No local, além de um cemitério indígena, foram achados outros indícios de presença dos nossos primeiros habitantes, como cerâmicas e artefatos do dia-a-dia.

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