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    Literata


    Dom Casmurro, a obra-prima de Machado de Assis

    Sempre muito solicitado em vestibulares, Dom Casmurro é um romance do escritor Machado de Assis, publicado em 1899.

     

    A obra foi traduzida para diversas línguas e continua a ser um dos livros mais famosos e fundamentais da literatura brasileira.
    A obra foi traduzida para diversas línguas e continua a ser um dos livros mais famosos e fundamentais da literatura brasileira. | Foto: Reprodução

    Sempre muito solicitado em vestibulares, Dom Casmurro é um romance do escritor Machado de Assis, publicado em 1899. Seu protagonista é Bento Santiago, o narrador da história, que relata em primeira pessoa fatos de sua mocidade até os dias em que está escrevendo o livro. Entre esses dois momentos, Bento cita reminiscências da juventude, sua vida no seminário, seu caso com Capitu e o ciúme que vem desse relacionamento, enredo central da trama.

    Ao longo dos anos, Dom Casmurro, com seus temas do ciúme, a ambiguidade da personalidade de Capitu, esposa de Bentinho e o retrato moral da época, analisado pelo caráter conturbado do narrador, recebeu inúmeros estudos, adaptações para outras mídias e interpretações. A obra foi traduzida para diversas línguas e continua a ser um de seus livros mais famosos e fundamentais da literatura brasileira.

    Bentinho, Capitu e Escobar

    Bento Santiago é um homem na casa dos 60 anos, que, supostamente, teria muito o que contar. No entanto, desde logo fica evidente que seu interesse tem um foco dirigido: o relacionamento com a jovem Capitu, a vizinha que viria a ser o grande amor de sua vida. Personagem fascinante, Capitu possui um extraordinário poder de sedução, manifestado em seus “olhos de cigana oblíqua e dissimulada”, capazes de atrair como a ressaca do mar.

    Moço rico, Bento vive sob a proteção da mãe, a viúva D. Glória, que ainda mantém sob sua dependência um grupo de parentes: o irmão Cosme, a prima Justina e o agregado José Dias. É nessa casa de velhos viúvos que Bento cresce.

    Depois da perda do primeiro filho, D. Glória jurou que o segundo seria padre. Tendo enviuvado quando o filho era ainda criança, o juramento se transformou em angústia e prenúncio de separação do filho único. O namoro com Capitu reforça no menino a falta de vocação, mas ele acaba por obedecer ao desejo materno e entra para um seminário.

    No seminário, Bento e Escobar se tornam melhores amigos. Juntos, os jovens conseguem convencer os pais a retirá-los do lugar. Com isso, Bento se forma em Direito e se casa com Capitu, enquanto a melhor amiga desta, Sancha, acaba por se tornar esposa de Escobar.

    A felicidade de Bento se completa com o nascimento de Ezequiel, seu filho, que vem fazer companhia a Capituzinha, filha do casal amigo. No entanto, uma fatalidade muda o rumo do grupo de amigos: Escobar morre afogado. Durante o velório, Bento percebe no comportamento da esposa marcas de um adultério que ele, até ali, não tinha suspeitado.

    A partir desse momento, outros indícios se juntam ao primeiro. O maior deles é a grande semelhança que Bento vê entre seu filho e o amigo morto. Obtida essa prova viva da traição, separa-se e envia Capitu e Ezequiel para a Europa. Dali até a velhice, Bento vive em estado de relativa reclusão, o que faz surgir seu apelido: Dom Casmurro, que quer dizer introspectivo. 

    Ocorre que a expressão tem outro significado, que o narrador esconde do leitor desavisado: teimoso. E se a primeira definição mostra o comportamento do narrador, esta última revela o traço mais forte de sua personalidade: a insistência em defender o ponto de vista, de que teria sido traído por Capitu, mesmo sem a apresentação de provas.

    Importância do livro

    A temática da traição, presente em Dom Casmurro, é instigante. A traição conduz o narrador e até o próprio leitor aos limites da racionalidade. No entanto, o traço fundamental da obra é o questionamento da verdade, entendida como uma das características do realismo, escola literária a que o próprio escritor pertencia. A intensidade desse diálogo faz de Dom Casmurro um romance de releituras sempre necessárias.

    Encerrado o relato de suas memórias, Bento Santiago pode até se dar por satisfeito em ter sua tese comprovada. O leitor atento, porém, pode duvidar dele. O comportamento de Capitu no velório de Escobar não é prova suficiente de adultério. Tampouco a semelhança de Ezequiel, já que esta é alegada pelo narrador, sem que nenhuma outra personagem se manifeste a respeito.

      Cada acusação que pesa sobre Capitu pode ser desmentida por quem se preste ao papel de advogado de defesa da moça, sem esquecer que os argumentos de Bentinho acabam por deixar uma dúvida eterna.

    Na verdade, Dom Casmurro é um romance que trata da traição, sem que ela seja seu tema fundamental. O que se discute é o conceito de verdade, além da forma como a humanidade constrói seus valores e sua moral. 

    Dom Casmurro em uma ótica feminina

    Pode-se dizer que a literatura é uma transfiguração do real: realidade recriada pelo escritor que cria ou recria um mundo de verdades que não são mensuráveis pelos padrões das verdades factuais. Nessa linha de pensamento de que a literatura trata de aspectos do mundo real, uma leitura importante a se fazer da obra é a análise sobre o aspecto feminino.

    No século XIX, quando o modelo de mulher ainda é figura romântica, materializada no silêncio, Machado de Assis dá poderes dissimulados a Capitu, que marca a emergência de uma nova demarcação entre o espaço doméstico e o público para a mulher.

    Ele, percebendo que as mulheres começavam a ler romances, tenta trazer a leitora para a margem do texto. Machado então cria Capitu com o intuito de mostrar um novo tipo de mulher que é capaz de romper com as amarras do contexto público. A mulher começava a procurar uma identidade feminina para existir como presença na cultura, não como o avesso da identidade do homem, nem o seu contrário, mas existir por ela mesma.

    Capitu denuncia a condição de desigualdade da mulher e rompe a barreira do tempo, escancarando um novo comportamento da mulher, completamente inaceitável para os paradigmas da época. Parece que Machado de Assis entendeu o grito feminino reprimido e fez da experiência de Capitu uma maneira de mostrar que é possível a mulher ser protagonista de sua própria história. A leitura de "Dom Casmurro" é uma surpresa a cada capítulo, um convite a elucidar as facetas da alma humana.

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