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    Manaus 352 anos


    Manaus é a cidade que respira e inspira cultura

    Artistas amazonenses fazem a cultura manauara e revelam as expectativas para as próximas gerações

     

    A cultura manauara é única e se transforma a cada ano com a contribuição de grandes artistas
    A cultura manauara é única e se transforma a cada ano com a contribuição de grandes artistas | Foto: Janailton Falcão/Amazonastur

    MANAUS (AM) - Na junção do clássico da Belle Époque e das raízes indígenas a cultura manauara nasceu. A mistura pareceria ser impossível, mas se instaurou, marcou e continua a marcar os 352 anos de história de Manaus, localizada no coração do Amazonas. 

    Quem imaginaria que aquela aldeia indígena, em torno da Fortaleza de São José da Barra, em meados de 1669, se tornaria uma metrópole marcada por tantas histórias? 

      A cidade no meio da floresta amazônica cresceu e floresceu e se tornou um antro cultural peculiar para aqueles que estão acostumados com a cultura clássica. Todas as suas nuances se misturam com o clássico, influência dos europeus que vieram até a cidade nos tempos áureos da borracha e trouxeram a Belle Époque, e com as raízes do lugar que um dia foi uma aldeia.  

    A cultura manauara é única e se transforma a cada anos com a contribuição de grandes artistas, que são marcados pelas histórias de gerações anteriores e marcam as próximas gerações, formando, assim, o legado cultural, definido como único na cidade. 

    Marcas da cultura nos três séculos 

     

    O Clube da Madrugada foi um dos movimentos mais importantes da cultura manauara
    O Clube da Madrugada foi um dos movimentos mais importantes da cultura manauara | Foto: Arquivo/Portal Em Tempo

    É indiscutível que Manaus teve diversos momentos culturais que foram marcantes e viradas de chave para o legado cultural da cidade. Um dos momentos, que sem dúvidas, foi marcante e é lembrado até hoje, é o Clube da Madrugada. 

    Fundado em em 22 de novembro de 1954 por jovens intelectuais de Manaus, entre eles Saul Benchimol, Teodoro Botinelly, Celso Melo e Luiz Bacellar, surgiu com o objetivo de resgatar a literatura manauara.

    O movimento é lembrado como um dos mais importantes pelo poeta amazonense Tenório Telles, que destaca que o Clube transformou as expressões culturais manauaras. 

    "O Clube da Madrugada foi um movimento que que contribuiu para transformar as nossas expressões culturais", destacou.

     

    O diretor reconhecido internacionalmente, Diego Bauer, também acredita que o Clube da Madrugada foi um dos mais importantes
    O diretor reconhecido internacionalmente, Diego Bauer, também acredita que o Clube da Madrugada foi um dos mais importantes | Foto: Cesar Nogueira

    O diretor reconhecido internacionalmente, Diego Bauer, também acredita que esse momento foi o mais marcante para a história cultural, não só manauara, mas também amazonense. 

    O diretor destaca o momento como uma "explosão cultural" que moldou a cultura na cidade. Além de colaborar, para que Manaus seja inserido em âmbito cultural relevante. 

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    O clube da madrugada foi uma explosão cultural na cidade. Eu acho que se tem uma maneira de inserir Manaus num circuito cultural relevante e contemporâneo, o clube da madrugada fez isso. Foi extraordinário. A gente precisa beber muito dessa energia contraventora deles. "

    Diego Bauer, Diretor

     

     

    Márcia Novo acredita que o boi-bumbá foi um momento essencial para o Brasil conhecer a cultura manauara
    Márcia Novo acredita que o boi-bumbá foi um momento essencial para o Brasil conhecer a cultura manauara | Foto: Reprodução

    Já a cantora amazonense Márcia Novo, que faz questão de trazer beber da fonte cultural manauara em seus trabalhos, acredita que um momento marcante tenha sido os anos 90, nos tempos áureos do Boi-Bumbá, em que o Brasil e o mundo passou a conhecer a cultura popular amazonense. 

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    Sem dúvidas a década de 90 foi marcada com a explosão do Boi-bumbá a nível cultural e nacional. Eu acho que a gente precisa acreditar que o Boi-bumbá pode novamente ganhar o cenário do Brasil. Tudo o que aconteceu na década de 90 foi uma junção de fatores, não era só a música que era boa e o público prestigiando o evento. Havia uma estratégia de divulgação da nossa música para fora "

    Márcia Novo, Cantora

     

    Já a atriz Isabela Catão - que já atuou em mais de 25 produções, inclusive na novela "A Força do Querer" e na minissérie "Aruanas", ambas produções da Rede Globo - acredita que os festivais culturais são marcantes pois o público tem acesso as produções que estão sendo desenvolvidas na cidade. 

    "Os festivais de teatro, dança, cinema, são as produções culturais que mais me marcam porque é um momento em que os artistas conhecem o trabalho do outro, eles dialogam entre si e conseguem atingir o público da cidade", diz Catão.

    Produção manauara atual

    Uma coisa é fato: a cultura manauara atual vive um momento de retomada. Sabe-se que um dos setores mais afetados pela pandemia foi o setor cultural. Por isso, é comum que segmento esteja se reestabelecendo e se instaurando novamente na cidade. 

    Márcia Novo destaca que apesar dessa fase de retomada, os profissionais manauaras aproveitaram a pandemia para se profissionalizar e produzir. A cantora destaca é que pelo fato de Manaus ser uma cidade "isolada", produções da região não chegam ao resto do Brasil. 

    Apesar disso, é necessário que os artistas usem a tecnologia a seu favor e se conectem com o resto do mundo. Usando pessoas que são da Amazônia, para falar sobre Amazônia. 

    "Nossas produções ficam muito aqui em Manaus, não reverberam para o resto do Brasil. Mas eu tenho fé que a tendência agora é se conectar com o resto do mundo. Acho que nós somos os olhos do mundo e temos que aproveitar essa oportunidade, colocando gente da nossa terra para falar sobre a nossa terra", declara a artista.

    Tenório Telles também compartilha da opinião de que a produção cultural está retornando aos poucos após o período de pandemia. Ele afirma que os artistas estão se encontrando e buscando caminhos para encontrar o seu poder artístico.

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    A produção cultural vive um momento de retomada, principalmente em razão do arrefecimento da pandemia. Diria que atualmente vivemos uma fase de reinvenção, com os artistas buscando oportunidades e caminhos para o seu fazer artístico. "

    Tenório Telles, Poeta

     

     

    A atriz Isabela Catão acredita que a cultura manauara está crescendo cada vez mais
    A atriz Isabela Catão acredita que a cultura manauara está crescendo cada vez mais | Foto: Divulgação

    A atriz Isabela destaca que apesar de ser a pequenos passos, já é perceptível que existe um caminho sendo feito em prol do crescimento cultural manauara.

    "A gente consegue perceber esse avanço, por mínimo que seja, das produções daqui, existe esse caminhar do pertencimento e tudo mais e temos grandes produtores aqui, capacitados para que essas coisas aconteçam."

    O momento é de renovação, para Diego Bauer. "A produção cultural de Manaus está passando por um momento de renovação. Claro, né, com muitas rupturas, empecilhos no meio do caminho. Mas acho que ao mesmo tempo a gente tem um cenário cultural que se fortaleceu muito".

    Cultura pelas novas gerações

    Novas gerações virão. Na verdade, já estão em construção e se preparando para trazer novas diretrizes para a cultural local. Mas o que fazer para contribuir ainda mais com a cultura?

    Isabela afirma que o principal é amar o que faz e acreditar no próprio trabalho. Pois, assim, cria uma inspiração nas gerações que serão marcadas pela cultura feita por aquele artista. 

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    Eu acredito que se os artistas atuais estão fazendo o que gostam e o que acreditam, pode ser algo marcante para as próximas gerações. Porque eu também me inspiro nas gerações passadas, as mulheres que eu vi atuando no teatro e isso acaba sendo inspirador pra mim também. "

    Isabela Catão, Atriz

     

     

    O autor Tenório Telles acredita que com estudo e entendimento da cultura é o essencial para a criação de uma nova geração cultural
    O autor Tenório Telles acredita que com estudo e entendimento da cultura é o essencial para a criação de uma nova geração cultural | Foto: Márcio Mello

    Tenório Telles aconselha os artistas a estudarem e entenderam a cultura atual e os anseios que poderão servir como base para as transformações. Além disso, a vontade de produzir algo que seja inovador e atenda ao público em que consome.

    Márcia Novo aposta na "agressividade". Para ela os artistas devem experimentar conexões entre a cultura e o novo, criando novas possibilidade. Na música, ela cita a possível conexão entre o boi e outras sonoridades, criando uma nova forma de ouvir.

    "Eu acho que a gente tem que se apropriar mais do nosso som, usar mais ele e intrega-lo a vários outros lugares do Brasil".

    Ela ainda relembra o falecido cantor Zezinho Corrêa, que foi um dos artistas que mais contribuiu com a cultura local e foi um dos únicos que levou ela para o mundo todo ouvir. 

     

    Zezinho Corrêa foi um dos artistas que mais contribuiu com a cultura manauara
    Zezinho Corrêa foi um dos artistas que mais contribuiu com a cultura manauara | Foto: Reprodução

    "Tá aí o Zezinho Corrêa, do Carrapicho, que deixou um legado incrível e fez a nossa música ser reconhecida no Brasil e fora dele. Não tem um lugar no mundo que você cante "Tic Tic Tac" e as pessoas não conheçam. Então, que isso sirva de exemplo e estímulo para todos nós que podemos fazer algo pela nossa geração", afirma Márcia.

    O diretor Diego Bauer afirma que a geração atual está no caminho certo para contribuição com a cultura local. Para ele, os novos artistas entenderam que é simples fazer algo novo em Manaus, pois as coisas criadas aqui, são vistas, como um olhar de surpresa.

    "A nova geração entendeu que precisamos ocupar um espaço que não nos foi dado, não nos foi oferecido. A geração atual é uma geração que compreendeu que é, relativamente, simples fazer alguma coisa nova em Manaus, porque tudo é visto com um olhar de surpresa e novidade", finalizou.

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