Fonte: OpenWeather

    Literatura


    Milton Hatoum, romancista da floresta

    O escritor já acumula diversos prêmios literários e está em plena produção.

     

    Milton Assi Hatoum é um dos princpais escritores brasileiros nascido no Amazonas.
    Milton Assi Hatoum é um dos princpais escritores brasileiros nascido no Amazonas. | Foto: divulgação

    Milton Assi Hatoum é um dos princpais escritores brasileiros nascido no Amazonas. Além de escritor, é tradutor e professor brasileiro. Descendente de libaneses, cresceu em Manaus. Cursou arquitetura na Universidade de São Paulo e estudou na Espanha e na França. Quando retornou ao Brasil, foi professor de língua e literatura francesas na Universidade Federal do Amazonas. Em 1998, tornou-se doutor em Teoria Literária e passou a morar em São Paulo, onde vive atualmente.

    O escritor já acumula diversos prêmios literários e está em plena produção. Suas obras abordam questões sociopolíticas de diferentes momentos do século XX no Brasil e trazem a memória e o sujeito imigrante como temas-chave. O escritor tece seus enredos sempre em torno de sua cidade natal, Manaus, mergulhada no espaço aparentemente sem fim da gigantesca Floresta Amazônica. Há também nos seus livros um certo sabor autobiográfico, pois neles ele resgata o universo familiar que testemunhou o desembarque dos primeiros imigrantes, na Manaus do início do século XX. Ao abordar terríveis conflitos familiares, ele enfoca a decadência dos princípios convencionais, sufocados pelo espaço cada vez mais dominado pela voracidade da globalização.

     

    O escritor já acumula diversos prêmios literários e está em plena produção.
    O escritor já acumula diversos prêmios literários e está em plena produção. | Foto: Divulgação

    Milton Hatoum aborda, assim, em seus livros, as consequências deste aniquilamento das convenções, o seu reflexo na desorganização das relações familiares, adotando igualmente um certo tom crítico na esfera política, principalmente no que se refere à Ditadura Militar vigente nos anos 60 e 70 no Brasil. O autor evoca os fantasmas do passado para reconstruir no presente as experiências já vividas. 

    Filho de um imigrante oriental e de uma brasileira de mesma ascendência, desde cedo se revelou para o autor a questão da coexistência com o Outro, com as diferenças. Embora seu idioma fosse o português, esta convivência com árabes provindos do Oriente Médio e com judeus originários do norte do continente africano lhe possibilitou a absorção de uma parcela significativa de suas tradições culturais e religiosas.

     

    S‹o Paulo, SP , BRASIL, 25 -01-2017: O escritor Milton Hatoum Ž retratado em sua casa, na Zona Oeste de S‹o Paulo. (Foto: Bruno Santos/Veja)
    S‹o Paulo, SP , BRASIL, 25 -01-2017: O escritor Milton Hatoum Ž retratado em sua casa, na Zona Oeste de S‹o Paulo. (Foto: Bruno Santos/Veja) | Foto: divulgação

    Sua infância foi povoada também pelo contato com os índios que também se hospedavam na Pensão Fenícia, local em que passou sua meninice. Todas estas paisagens vão se tornando habituais para Milton, que aos poucos vai assimilando as várias culturas e religiões que o rodeiam.

    Outra importante fonte em que sua obra irá beber é a da narrativa oral, que se insinua em sua vida através dos antigos contadores de histórias que passavam amiúde pela sua casa. Estes narradores foram fundamentais na formação literária deste escritor. Os próprios familiares mais velhos, que exerciam profissões nômades, como a de comerciante-viajante, traziam em suas bagagens histórias sobre as regiões por eles visitadas. Estas características imprimem em suas obras as peculiaridades que as elevam ao patamar que elas hoje ocupam.

     

    | Foto: divulgação

    Seus livros já foram editados em diversos países, entre eles a França, Inglaterra, Portugal, Estados Unidos, Itália, Espanha, Alemanha, Holanda, Grécia e Líbano. Atualmente, o escritor reside na cidade de São Paulo.

    Muito valorizado na literatura brasileira contemporânea, Hatoum ganhou o prêmio Jabuti com seus três primeiros romances: Relato de um Certo Oriente, Dois Irmãos e Cinzas do Norte. Com esse último também levou os prêmios Bravo!, APCA e Portugal Telecom. Em 2017, recebeu do governo francês o título de Officier de L’Ordre des Arts et des Lettres.

    Obras literárias

    Relato de um Certo Oriente (1989), romance;

    Dois Irmãos (2000), romance;

    Cinzas do Norte (2005), romance;

    A cidade ilhada (2006), contos;

    Órfãos do Eldorado (2008), novela;

    Um solitário à espreita (2013), crônicas;

    A noite da espera (2017), romance;

     

    Um Solitário à espreita
    Um Solitário à espreita | Foto: divulgação

    Pontos de fuga (2019), romance.

    Relato de um certo Oriente

    É o livro de estreia do autor, publicado quando ele tinha 37 anos. O romance é ambientado em Manaus no período final do primeiro ciclo da borracha e da belle époque na cidade, o que configura um tom histórico à narrativa. A obra relata os conflitos de uma família de libaneses, introduzindo questões sobre a construção da identidade do imigrante, um tema característico da obra de Hatoum.

    Com a morte de Emilie, a matriarca da família, sua filha adotiva volta para Manaus, depois de vinte anos longe, e tenta reorganizar a sua história e a de seus antepassados através da memória e dos acontecimentos presentes. Assim, a narrativa é contada por ela e diversas outras vozes em uma perspectiva não linear cobrindo quase um século de história.

    Dois irmãos

     

    | Foto: divulgação

    O romance acontece em Manaus na década de 1940 e aborda um drama familiar em função do intenso conflito entre Yaqub e Omar, irmãos gêmeos. A partir da convivência desses personagens com a mãe, o pai, a irmã e a empregada Domingas, a história explora as relações de identidade e de diferença em uma família libanesa em crise.

    Só conhecemos o nome do narrador, Nael, ao fim da história. Trinta anos depois, o filho de Domingas relata o que presenciou procurando saber quem daquela família seria o seu pai. A narrativa transita entre os espaços da cidade e o rio Negro que, de tão importante no enredo, pode ser compreendido como um personagem. O romance foi traduzido para 12 idiomas e adaptado para televisão, teatro e quadrinhos.

    A produção de Hatoum continua a pleno vapor. Atualmente, ele está escrevendo a série O lugar mais sombrio que aborda as experiências de um grupo de jovens durante a ditadura civil-militar no Brasil. A série conta com três volumes e os dois primeiros já foram publicados: A noite da espera (2017) e Pontos de fuga (2019).

    7 frases de Milton Hatoum e de obras do autor

     

    A Cidade Ilhada
    A Cidade Ilhada | Foto: divulgação

    A vida começa verdadeiramente com a memória. (Frase de Relato de um Certo Oriente).

    Aqui reina uma forma estranha de escravidão. A humilhação e a ameaça são o açoite; a comida e a integração ilusória à família do senhor são as correntes e golilhas. (Trecho de Relato de um Certo Oriente).

    No lugar desconhecido habita o desejo. (Frase de A Cidade Ilhada).

    Na minha idade, a única vantagem é saber que não vou aturar por muito tempo a estupidez humana. (Frase de A Cidade Ilhada)

    O que Halim havia desejado com tanto ardor, os dois irmãos realizaram: nenhum teve filhos. Alguns dos nossos desejos só se cumprem no outro, os pesadelos pertencem a nós mesmos. (Trecho de Dois Irmãos)

    Um dia, eu lhe disse: Ao diabo com os sonhos: ou a gente age, ou a morte de repente nos cutuca, e não há sonho na morte. Todos os sonhos estão aqui, eu dizia, e ela me olhava, cheia de palavras guardadas, ansiosa por falar. (Trecho de Dois Irmãos)

    As promessas de quase todos os políticos são armas eficazes do populismo, essa praga tão recorrente na política, e não apenas na América Latina.