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    Leia o poema mais famoso de Thiago de Mello: "Os estatutos dos Homens"

    Thiago de Melo é considerado um dos poetas mais influentes e respeitados no país, reconhecido como um ícone da literatura regional

     

    | Foto: Divulgação

    Manaus (AM) - A sexta-feira, 14 de janeiro de 2021, amanheceu chuvosa, parece que lamenta a perda de um os poetas do Brasil, o amazonense Thiago de Mello, que deixou a vida, aos 95 anos, para entrar para a história. 

    Thiago de Mello coleciona várias obras, algumas traduzidas para mais de 30 idiomas. Um dos poemas mais famoso do escritor é "Os estatutos dos Homens", que nasceu em 1977, como forma de indignação após o poeta ser preso pela ditadura miliar. Perseguido pelo governo, ele ficou exilado no Chile por dez anos, encontrando em Pablo Neruda um amigo.

    Os Estatutos do Homem (Ato Institucional Permanente)

    Artigo I

    Fica decretado que agora vale a verdade. Agora vale a vida, e de mãos dadas, marcharemos todos pela vida verdadeira.

    Artigo II

    Fica decretado que todos os dias da semana, inclusive as terças-feiras mais cinzentas, têm direito a converter-se em manhãs de domingo.

    Artigo III

    Fica decretado que, a partir deste instante, haverá girassóis em todas as janelas, que os girassóis terão direito a abrir-se dentro da sombra; e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro, abertas para o verde onde cresce a esperança.

    Artigo IV

    Fica decretado que o homem não precisará nunca mais duvidar do homem. Que o homem confiará no homem como a palmeira confia no vento, como o vento confia no ar, como o ar confia no campo azul do céu.

    Parágrafo único: O homem, confiará no homem como um menino confia em outro menino.

    Artigo V

    Fica decretado que os homens estão livres do jugo da mentira. Nunca mais será preciso usara couraça do silêncio nem a armadura de palavras. O homem se sentará à mesa com seu olhar limpo porque a verdade passará a ser servida antes da sobremesa.

    Artigo VI

    Fica estabelecida, durante dez séculos, a prática sonhada pelo profeta Isaías, e o lobo e o cordeiro pastarão juntos e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora.

    Artigo VII

    Por decreto irrevogável fica estabelecido o reinado permanente da justiça e da claridade, e a alegria será uma bandeira generosa para sempre desfraldada na alma do povo.

    Artigo VIII

    Fica decretado que a maior dor sempre foi e será sempre não poder dar-se amor a quem se ama e saber que é a água que dá à planta o milagre da flor.

    Artigo IX

    Fica permitido que o pão de cada dia tenha no homem o sinal de seu suor. Mas que sobretudo tenha sempre o quente sabor da ternura.

    Artigo X

    Fica permitido a qualquer pessoa, qualquer hora da vida, uso do traje branco.

    Artigo XI

    Fica decretado, por definição, que o homem é um animal que a mãe que por isso é belo, muito mais belo que a estrela da manhã.

    Artigo XII

    Decreta-se que nada será obrigado nem proibido, tudo será permitido, inclusive brincar com os rinocerontes e caminhar pelas tardes com uma imensa begônia na lapela.

    Parágrafo único:

    Só uma coisa fica proibida: amar sem amor.

    Artigo XIII

    Fica decretado que o dinheiro não poderá nunca mais comprar o sol das manhãs vindouras. Expulso do grande baú do medo, o dinheiro se transformará em uma espada fraternal para defender o direito de cantar e a festa do dia que chegou.

    Artigo Final

    Fica proibido o uso da palavra liberdade, a qual será suprimida dos dicionários e do pântano enganoso das bocas. A partir deste instante a liberdade será algo vivo e transparente como um fogo ou um rio, e a sua morada será sempre o coração do homem.

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