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    ARTIGO


    Quem ouve o grito dos excluídos?

    “Vida em primeiro lugar”, indicava o caminho do 27.º do Grito dos Excluídos. Como pessoas vivendo em sociedade, no mundo, temos a responsabilidade pela vida pessoal, familiar, comunitária, pela vida da Casa comum". Leia mais no artigo do arcebispo Leonardo Steiner

    Escrito por Leonardo Ulrich Steiner no dia 10 de setembro de 2021 - 19:42
    | Foto: Divulgação

    Dom Leonardo Ulrich Steiner

    Arcebispo de Manaus

    Ler é próprio do ser humano. Ler é mais que identificar letras e na conjunção das letras ler palavras. É nos dado inteligir, ler entre “as letras”, “entre as linhas”. Ao dirigir o barco pela primeira na viagem pelo rio Araguaia, o “Seu Manu” me diz: vá pelo outro lado. Lhe perguntei: como o senhor sabe ser melhor por lá. Respondeu: basta ler o rio. Tudo tão simples para quem navegava desde adolescente pelo Araguaia. Ler o rio! Não mais esqueci que o rio se deixa ler e em lendo ele se dá a conhecer. E em lendo se navega, chega ao porto, à casa, em casa.

    Na celebração do Grito dos Excluídos, celebrado em Manaus, foi lido: Jesus “levantou-se para fazer a Leitura. Desenrolando o livro, encontrou o lugar onde está escrito: O Espírito do Senhor está sobre mim, pois ele me ungiu para anunciar o Evangelho aos pobres: enviou-me para proclamar a liberdade aos presos e, aos cegos, a visão” (Lc 4,17-19). Desenrolar o livro e ler. Na leitura perceber o sentido do existir, a missão que o Espírito concede. O ler que desperta para uma missão! Ler a vida!

    “Vida em primeiro lugar”, indicava o caminho do 27.º do Grito dos Excluídos. Como pessoas vivendo em sociedade, no mundo, temos a responsabilidade pela vida pessoal, familiar, comunitária, pela vida da Casa comum. A vida não é uma palavra vazia, que se possa manipular. Vida é quem somos, quem a pessoa do outro é, quem somos como família, como sociedade, como pessoas que recebem vida das criaturas. Vida: os descaminhos, as injustiças, as manipulações, as agressões; é verdade destruição, mas Vida. Vida como dom de Deus. Vida: a ser levada à plena maturidade. A vida de cada pessoa: presença de Deus.

    O lema “A vida em primeiro lugar!” recebeu várias dimensões para a leitura: “Participação popular, saúde, comida, moradia, trabalho e renda, já!” Saúde diante de tantas mortes; comida diante de pessoas sempre mais necessitadas de cestas básicas; moradia diante da precariedade das casas na periferia e pessoas sem casa; trabalho com o crescente número de desempregados, de trabalho informal; renda diante de sempre mais pessoas esperando a nossa ajuda, a nossa esmola. A participação popular como expressão da Política, o cuidado da cidade! Uma obrigação de todo cidadão fazer política, isto é, de participar das proposições e decisões para com o bem comum, as políticas públicas. Deixar tudo para o tempo das eleições e na mão de poucos que acabam descuidando do Comum, do que é de todos, enfraquece e empobrece uma sociedade, uma nação. E poderíamos ter acrescentado outras tão fundamentais e necessárias para a vida de todos.

    Vida em primeiro lugar, está a exigir discussões, diálogo, ações que coloquem a economia a serviço de todos, por isso mesmo, gere empregos, oportunidade de vida. Vida em primeiro lugar, está a responsabilizar a todos no perseverar no cuidado da Casa Comum. Estamos destruindo a nossa casa em benefício de poucos. Vida em primeiro lugar, está a despertar para a dignidade e respeito para com os povos indígenas, quilombolas, ribeirinhos, os pobres. Grupos fechados e dominadores agridem e desfazem o sentido de Nação.

    Lermos o sete de setembro que passou, e percebemos onde estamos, que sociedade queremos, que Estado mantemos e que nação estamos a construir. Ler sem preconceitos e ideologias exacerbadas podem ajudar a perceber que a Vida sempre está em primeiro lugar.

    Uma leitura crítica, transparente onde a realidade social, democrática, econômica, ética, apareça na sua verdade, pode despertar esperança para as pessoas quase desesperançadas. Uma pessoa de fé deseja ver a verdade da realidade para navegar, mesmo entre as tormentas, os banzeiros, e chegar ao porto, no encontro com as pessoas. Ler para contribuir e ajudar na construção do Reino da verdade e da graça, da justiça do amor e da paz, nosso porto seguro. 


    Leonardo Steiner, arcebispo de Manaus 

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