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    Pós-pandemia


    O futuro, uma reflexão acerca do pós-pandemia

    Há muita ansiedade provocada pelo isolamento e falta de perspectiva para o futuro, em termos econômicos. Tudo o que foi reprimido tende a voltar com maior força. A pandemia foi um sinal profético enviado por Deus, mas parece que vamos perder mais uma chance de conversão

    Escrito por Dom Sergio Castriani no dia 30 de janeiro de 2021 - 10:00

    Dom Sérgio Castriani

    Arcebispo emérito de Manaus

     

    | Foto: Divulgação

    As pessoas já começaram a perguntar: depois que tudo isto, distanciamento social, confinamento, e todos os protocolos, acabar como vão ficar as coisas? A primeira constatação é que vai demorar mais tempo do que pensávamos para terminar. Vacinar toda a população não é tão simples assim e entrou a corrupção no meio. Já se viu que o jeitinho brasileiro para privilegiar parentes, gente rica e poderosa não acabou com a pandemia e o fato de todos nós sentirmos muito iguais no contágio, na hora de resolver a questão, os governos privilegiaram alguns em detrimento de outros. Longe de termos crescido em solidariedade e educação, parece que voltamos a um vale tudo quando se trata de privilégios.

     A crise do oxigênio foi uma ocasião para uma solidariedade que ultrapassou fronteiras e fomos ajudados por muita gente. Mas, a nível local o que se viu deu pena. As pessoas que tinham acesso ao oxigênio inflacionaram os preços de forma exorbitante tornando impossível para os pobres o acesso ao gás da vida. Já no começo da pandemia a inflação dos preços de itens que até então tinham preços razoáveis, como as máscaras e o álcool em gel, só para citar os dois produtos que de uma hora para outra se tornaram essenciais. Chegamos ao meio da pandemia e ao lucro, que move os corações de quem vê num momento de desgraça a oportunidade de aumentar seus ganhos. Trata-se de uma característica das sociedades humanas.

     Do ponto de vista da religião, há questões que se colocam de novo: não é segredo para ninguém que o pentecostalismo no mundo protestante e a renovação carismática na Igreja Católica em termos de espiritualidade são dominantes. E é difícil explicar por que uma intervenção divina não resolveu a situação. O fechamento dos templos, penso eu, terá consequências para a prática religiosa dos fiéis. A participação dos fiéis na vida das paróquias, comunidades, templos e casas de oração diminuirá. Espero estar errado.

     As relações familiares, que no começo foram um grande ganho, na medida que o tempo passa tendem a desgastar-se. Também do ponto de vista sanitário, estamos mais conscientes hoje do estrago que o vírus provoca no organismo. Mas as sequelas físicas não são as únicas. Há muita ansiedade provocada pelo isolamento, e a falta de perspectiva para o futuro, em termos econômicos, muita depressão que vai ser preciso intervir com remédios. Um cientista social disse-nos na televisão estes dias que os tempos pós-pandemia se caracterizarão por ser um tempo de libertinagem. Tudo o que foi reprimido tende a voltar com maior força.

     Isto tudo preocupa a nós cristãos que gostaríamos de ver um movimento de conversão diante da realidade. Mas não é tão simples assim. Na história da salvação o tempo dos profetas caracterizou-se pelo seguimento do povo aos falsos profetas. Penso muito na situação da ecologia. Os verdadeiros profetas, que anunciam a necessidade de conversão não são levados a sério, e mesmo os que os levam a sério não mudam de vida. A pandemia foi um sinal profético enviado por Deus ou aproveitado por ele. Mas, parece que vamos perder mais uma chance de conversão.