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    Igreja Católica


    Morte: Vida!, o sabor ‘agridoce’ da Semana Santa

    As dores e sofrimentos nos levam a perceber o quanto humano somos, podem nos abrir ao humano mais humano, pois somos conduzidos ao mais íntimo do íntimo de nós mesmos. Uma travessia! Ali a vida e morte estão em confronto

    Escrito por Dom Leonardo Ulrich Steiner no dia 30 de março de 2021 - 18:59

    Dom Sérgio Castriani

    Arcebispo emérito de Manaus

     

    | Foto: Divulgação

    A semana que na Igreja católica vem denominada de Santa, tem um sabor agridoce. Somos confrontados com a dor, o sofrimento, a morte e a vida que renasce, a superação da morte.

    Jesus ingressa na cidade de Jerusalém, onde celebra a páscoa, é condenado, sofre a crucifixão, vem à morte, supera o sepulcro, ressuscita oferecendo novo horizonte ao caminho do humano.

    O humano se faz humano na sua finitude. A finitude carrega a tarefa da superação permanecendo na finitude. A dor, o sofrimento pertence à finitude; dor e sofrimento físico, psíquico, espiritual. São passagens que nos podem levar à morte ou à vida.

    À morte quando apenas tentamos nos desvencilhar, desvestir, esconder. À vida quando abertura para o transcender de nós mesmos. As dores e sofrimentos nos levam a perceber o quanto humano somos, podem nos abrir ao humano mais humano, pois somos conduzidos ao mais íntimo do íntimo de nós mesmos. Uma travessia!

    Ali a vida e morte estão em confronto, isto é, vivos confrontando-nos com a morte. Morte como ser para a morte. Morte não o fim, o último suspiro, mas como transformação, maturação. O processo humano de ter que deixar para avançar, o ter que deixar a infância da fé, para o adulto da fé. Adulto não como meta, mas como processo existencial.

    Os evangelhos sinóticos nos apresentam a narrativa da Paixão. Elas nos deixar percorrer o caminho do sofrer para dar à luz ao Filho de Deus como Filho do Homem. Um caminho de esvaziamento, caminho de libertação, de comunhão. Lá no alto de onde era possível tudo ver, nada mais vê, nem o Pai.

    Está na suspensão de tudo: sem céu e sem terra! Sente-se abandonado por tudo e por todos. Nesse nada ter, nada ser, percorre o caminho do humano mais humano. Assim, na mais completa liberdade de quem ama, mesmo no abandono, mas na confiança mais terna de amar, declara: “nas tuas mãos entrego o meu espírito”. Ali no humano mais humano como que viceja o divino. O humano que floresce como divino.

    Tão difícil para nós da pós-modernidade percebermos nessa dinâmica a transformação e a plena realização da humanidade na finitude. O que de mais finito que a dor, o sofrimento, a morte? Existe algo mais que pertença à nossa finitude que a morte e a morte acontecida na Cruz? Deus humanado nos mostrando quão preciosa é a nossa finitude, a nossa humanidade.

    O cristão assume a finitude e faz dele o caminho da eternidade. Não se trata de passividade, masoquismo, de moral estéril, mas de entrever a grandeza do humano, na sua maior debilidade e fraqueza, mesmo da injustiça.

    Ao acompanharmos o Senhor que entra aclamado como o Messias, o filho de Davi, em Jerusalém, somos logo despertados para o mistério da finitude onde estamos aconchegados. O acompanharemos no sofrer do Getsêmani, na condenação, na subida do Gólgota e na sua luta com a solidão.

    A aclamação do Messias torna-se morte de cruz. Uma contradição! Na contradição da finitude se manifesta a grandeza de que o mal e a morte não conseguem dominar a vida. Ela ressurge luminosa com sabor de eternidade!

    O caminho do ser cristão não despreza a finitude; abraça a finitude e suas desventuras, pois aprendeu com o Mestre que a vida é dom que ressurge sempre e vai nos maturando para a eternidade, a vida da Trindade.

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