EFEITO PANDEMIA


Desespero de endividados pode impulsionar procura ilegal por agiotas

Comerciantes de Manaus relatam que a oferta é quase que diária, a juros de 20 a 40%, sob o risco de ameaça a vida

Durante a pandemia, comerciantes de Manaus afirmam que a oferta aumentou, principalmente de colombianos | Foto: Reprodução

Manaus - Durante a pandemia, diversos setores foram afetados economicamente e pela falta de assistência financeira pública, a atuação ilegal do mercado criminoso de agiotas cresceu. A casos que relatam o envolvimento de colombianos. O serviço de oferta de dinheiro rápido e fácil tem atraído muitos comerciantes de Manaus, que temem represálias. A Secretaria de Segurança Pública do Amazonas (SSP-AM) não disponibilizou nenhum dado sobre o quantitativo de criminosos que tenham sido presos realizando a prática ou dos cidadãos prejudicados pela agiotagem.

A prática é perigosa e criminosa, de acordo com a Lei 7.492/86, que dispõe que os empréstimos, que devem ser feitos com a autorização prévia do órgão competente. A educadora financeira e vice-presidente da Associação Brasileira de Educadores Financeiros (Abefin), Glauce Galucio, explica que a prática é criminosa e mesmo assim, ainda é requerida por muitas pessoas.

“Os agiotas não seguem as regras. Oferecem um empréstimo sem ter uma empresa legalizada, como um banco ou correspondente bancário, e está cometendo um crime. Justamente por não estar dentro da lei, geralmente eles fazem ofertas que parecem tentadoras, como a de dinheiro rápido na mão, sem a necessidade de comprovação de renda, documentos ou assinar um contrato”, explica Glauce.

Glauce é especialista em educação financeira, formada em Estatística pela Universidade Federal do Amazonas
Glauce é especialista em educação financeira, formada em Estatística pela Universidade Federal do Amazonas | Foto: Divulgação

Especialista também explica que geralmente são alvo de agiotas aquelas pessoas que estão realmente em situações difíceis, como dívidas, e precisam de uma certa quantia com urgência. Por estarem inadimplentes, elas muitas vezes não têm como recorrer a um banco tradicional, já que a maioria não concede empréstimo para quem estiver inadimplente. Apesar de parecer uma alternativa, o negócio pode custar mais caro do que muitos pensam.

Os riscos de se realizar empréstimos com esses agiotas são muitos, principalmente o de vida. Uma das situações, além dos juros altos, é a requisição de bens materiais como garantia caso não seja realizado o pagamento devido. A especialista avalia que é importante lembrar que além dos juros altos, os agiotas pedem bens como garantias, porque não podem cobrar o devedor na justiça, caso o pagamento não seja feito.

"O empréstimo foi feito de forma ilegal e não há contrato firmado por escrito. Os bens dados como garantia são alvo de extorsão por parte desses agentes. Outro risco é que o agiota pode mudar os termos combinados a qualquer momento. Vocês podem combinar certa taxa de juros, mas caso não esteja conseguindo pagar, o agente poderá ameaçar tomar seus bens ou te extorquir”, diz Glauce.

Ofertas a comerciantes acontecem diariamente

Comerciantes de diferentes pontos de Manaus conversaram com o EM TEMPO e percebeu-se que a atuação dos agiotas é sempre a mesma: eles chegam aos estabelecimentos, entregam um cartão com informações sobre valores disponíveis para empréstimo e quanto deve ser pago diariamente, e pouco falam ou sequer chegam a se apresentar.

O dono de um estabelecimento comercial na Zona Oeste de Manaus, Jonas Almeida*, explica que durante a pandemia, a oferta se intensificou. “Eles sempre vêm aqui com uma certa frequência até mesmo nesse período. Chegam, entregam aqui o cartãozinho e vão embora. Eu sempre rasgo e jogo no lixo. Sei que não presta, mas tem gente que no desespero acaba caindo na armadilha né”, comenta.

Os juros vão de 20% a 40%, dependendo do valor solicitado e os pagamentos são diários
Os juros vão de 20% a 40%, dependendo do valor solicitado e os pagamentos são diários | Foto: Reprodução

Em um dos cartões oferecidos é destacada a promessa de dinheiro fácil, sem burocracia e sem nenhuma complicação. Os juros vão de 20% a 40%, dependendo do valor solicitado e os pagamentos são diários, chegando a R$ 120. Nos casos de atraso de pagamento, as ameaças começam e em casos extremos, chegam a assassinar o devedor.

A comerciante Luciana da Silva* contou que ela e um vizinho, também dono de mercadinho já receberam propostas, mas ela nunca emprestou por medo. “Aqui tem esses dois mercadinhos, um é meu e o dono do outro é meu vizinho. Um dia veio um homem aqui, falando enrolado e ofereceu o cartão para gente. Eu já sabia do que era, então só fiz jogar, esse pessoal é perigoso. Quando eu preciso de dinheiro prefiro pegar quantias maiores no banco porque é mais seguro. Só sei que um dia um homem veio cobrar o dinheiro do meu vizinho e a mulher dele começou a fazer um escândalo e todo mundo foi para cima dele. Depois a polícia chegou e levou”, conta.

Ocorrências de Norte a Sul

Em outubro do ano passado, um comerciante de 29 anos, dono de uma barbearia em Brasília, capital do Distrito Federal, foi morto por ter dívidas com agiotas colombianos. O crime ocorreu durante o dia, quanto ele trabalhava em seu estabelecimento, dois homens entraram no lugar, atiraram e depois fugiram. De acordo com familiares e amigos da vítima, ele havia realizado pelo menos três empréstimos de um grupo de colombianos.

Outra situação ocorreu em Dourados, município do Mato Grosso do Sul, quando um grupo com seis agiotas colombianos foi preso em junho deste ano com mais de R$ 20 mil. O sistema comandado por eles era o mesmo, com juros altos.

Antes de recorrer a um agiota é preciso levar todos os riscos em conta, mesmo em situação de urgência o correto é pesquisar por empréstimos com taxas reduzidas de juros ou pensar em segundas opções, como vender o carro ou pedir ajuda de algum parente ou amigo.

*Nomes fictícios para preservar a identidade dos entrevistados

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