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    Reinvente-se


    Após doença, PM se reinventa e vira chefe de cozinha internacional

    Para se inspirar: Paulo Vieira foi em busca do sonho de infância e conseguiu estudar na melhor escola de gastronomia do mundo

    Policial descobriu ter granuloma e precisou parar de trabalhar | Foto: Divulgação

    Manaus - Paulo Vieira é um Chef de cozinha e gastrônomo de 37 anos com um extenso currículo na culinária internacional. Mas se você o conhecesse há alguns anos, a descrição seria outra. Isso porque, até 2016, era Policial Militar do Estado do Amazonas da ativa e lutava contra a criminalidade e o tráfico de drogas. Foi só após descobrir uma lesão na medula óssea que a vida do PM virou de cabeça para baixo. Impossibilitado de trabalhar, ele decidiu seguir o sonho de infância e se tornar um grande chef de cozinha. 

    A partir daquele momento, se iniciava uma jornada que o levou por lugares inimagináveis, como a escola francesa Le Cordon Bleu, considerada a melhor escola de culinária do mundo.

    Mas antes de todos esses méritos, a história de Paulo com a cozinha e os temperos começou cedo, ainda na infância. Natural de Santarém, no Pará, ele conta que aprendeu a se virar na beira de um fogão para ajudar em casa.

    "A nossa mãe nos exigia limpar tudo, o jardim, o quintal, a casa. E como eu sou o mais velho do segundo casamento, eu era quem cuidava dos meus irmãos quando meus pais saíam. Então desde cedo eu aprendi a cozinhar, a fazer feijão, arroz e o trivial. Embora meus irmãos tenham aprendido o básico, eu me encantei por isso e fui me desenvolvendo na cozinha, cozinhava para um e para outro, enfim, sempre amei cozinhar", lembra ele.

    Paulo não sabia, mas um dia estudaria na melhor escola de gastronomia do mundo
    Paulo não sabia, mas um dia estudaria na melhor escola de gastronomia do mundo | Foto: Divulgação

    Mas, já naquela época, Paulo enfrentou seu primeiro desafio. Por desavenças familiares, aos 13 anos, ele fugiu de casa com seus irmãos. Ainda menores, colocaram os pertences em uma saca de fibra e partiram de barco rumo a Manaus.

    "Ficamos na cidade alguns meses. Depois minha mãe foi nos buscar para retornarmos para Santarém. Eu voltei e fiquei lá por um tempo, mas aos 15 anos, retornei e passei a morar definitivamente em Manaus", conta Paulo.

    Por precisar se sustentar, ele deixou o sonho da gastronomia de lado e foi atrás de emprego com retorno rápido. A carteira de trabalho dele foi assinada na Zona Franca, no setor de comércio, vendas de consórcio e até como cobrador de ônibus.

    "Cheguei a iniciar a faculdade de arquitetura aos 18 anos e estava prestes a mudar totalmente de profissão, mas fui pai pela primeira vez nessa época. Isso mudou as coisas e precisei trancar a graduação", lembra Paulo.

    Policial: do concurso à internação médica

    Depois de ter enfrentado essas dificuldades, ele viu que o concurso da Polícia Militar estava aberto e decidiu se inscrever. "Nessa época eu tinha 24 anos. Como minha vida não estava fácil, eu mudei para Brasília e em seguida par Santarém. Nessa última cidade, consegui um emprego na área de fiscalização de redes de alta tensão e atuei lá viajando pela transamazônica, até receber a notícia de que havia passado no concurso da PM", conta Paulo.

    Nesse momento, ele largou tudo e retornou para Manaus para assumir a vaga. Depois de se formar na Academia Militar em 2009, ele foi designado para trabalhar no Batalhão Raio, onde atuava com farda preta estilo Bope do Rio de Janeiro (RJ), e pilotava motos.

    Paulo foi aprovado no concurso da Polícia Militar, em Manaus
    Paulo foi aprovado no concurso da Polícia Militar, em Manaus | Foto: Divulgação

    "Atuávamos nos becos da cidade onde só policiais com moto conseguiam entrar. Também treinávamos muito para não morrermos em perseguição de criminosos. Mas por causa disso, a partir de 2012 comecei a sentir dores no meu braço e no ombro, até descobrir que eu estava com uma inflamação", lembra o PM.

    Enquanto ainda era policial, Paulo iniciou em 2014 uma graduação em gastronomia na Fametro. Aliado a isso, passou a organizar e participar de eventos culinários, mas ainda era só o início dessa outra vida que ele iria experienciar. 

    Os anos foram passando e ele não deixou de prestar serviço como policial, o que agravou sua condição médica. Em 2016, a situação já estava complicada e ele precisou se operar porque teve uma compressão medular séria, que poderia deixa-lo em uma cadeira de rodas.

    "Por causa disso, precisei me afastar definitivamente do serviço policial, ficando com quatro pinos e uma placa de titânio na coluna. Naquele momento alguns amigos chegaram para mim e perguntaram por que eu não seguia no ramo de gastronomia que eu já havia demonstrado interesse. Foi então o que eu fiz", diz Paulo.

    Recomeço: receitas, temperos e pratos autorais

    Àquela altura, em 2016, ele já estava finalizando sua graduação em gastronomia pela Fametro. Para complementar a formação, Paulo também fez um curso técnico intensivo de culinária no Senac, o qual durou seis meses.

    "Era um modo avançado, por isso durava menos de um ano. Eu estudava o dia inteiro no Senac, à noite ia para a Fametro, e quando chegava em casa, ainda ia estudar na madrugada. Eu sou assim, quando quero algo, fico focado", afirma Paulo.

    Nesse período, ele criou seus primeiros pratos autorais e passou a fazer o chamado 'networking', que é quando se conhece pessoas com objetivos de expandir sua rede de contatos profissionais. 

    Experiência internacional e seleção para o Master Chef Brasil Profissionais 

    Ao finalizar as duas formações, Paulo conheceu um empresário por meio de uma amiga que morava nos Estados Unidos. Tudo aconteceu depois de ele postar seu currículo em um grupo no Facebook de brasileiros nos EUA.

    "Eu fiz essa postagem no grupo e essa minha amiga viu. Ela perguntou se eu queria conhecer seu patrão e mudar para os Estados Unidos e disse que ele estava precisando de um chef de cozinha. Assim ela me apresentou a ele", conta Paulo.

    Por causa do ‘networking’, ele acabou conhecendo o empresário José Seabras, um português dono de um grupo empresarial e gastronômico com ramificação na Europa e nos EUA.

    "Apresentei meus pratos autorais e ele gostou bastante. Eu falei também da minha experiência em eventos e feiras gastronômicas e formação. Como resultado, o Sr. José perguntou se eu queria ir trabalhar em um dos restaurantes dele e eu fui", conta Paulo.

    Prato autoral a base de polvo grelhado a portuguesa acompanhado de batata ao murro, purê de mandioca e camote, batata-doce peruana
    Prato autoral a base de polvo grelhado a portuguesa acompanhado de batata ao murro, purê de mandioca e camote, batata-doce peruana | Foto: Divulgação

    Por conta disso, em 2017, o agora PM aposentado passou a morar na cidade de Newark, no Estado de New Jersey, Estados Unidos. Casado, ele precisou enfrentar mais um desafio em sua trajetória profissional.

    "A ideia era que a minha ex-esposa se mudasse comigo, mas ela preferiu não deixar a família no Brasil. Tivemos nossas diferenças de escolha e o casamento acabou. Todo esse percurso que fiz foi muito forte como experiência de vida", comenta Paulo.

    Com a mala cheia de história para contar, ainda em 2017, ele se inscreveu no Master Chef Brasil profissionais, o programa de gastronomia mais famoso da televisão. E para a surpresa dele, foi um dos selecionados.

    "Descobri que havia passado e a produtora do programa estava me procurando nas redes sociais e por telefone. Fiquei muito feliz, porque senti que estava alcançando lugares que antes eram apenas sonhos", afirma Paulo.

    Ele diz que precisou enfrentar uma escolha difícil porque o convite para o programa veio assim que ele havia acabado de receber uma permissão de trabalho nos EUA  e precisou fazer uma escolha muito difícil, entre um sonho maior e um sonho que poderia esperar. 

    Paulo precisou 'pesar' os dois caminhos e, após analisar a situação, preferiu seguir com seu sonho de uma carreira internacional.

    Para complementar a renda, Paulo precisou trabalhar também como instalador de cerâmica, nos EUA
    Para complementar a renda, Paulo precisou trabalhar também como instalador de cerâmica, nos EUA | Foto: Divulgação

    "Foi a minha escolha, já que eu estava em busca de conhecimento e prestígio internacional. Por isso continuei nos EUA por quase dois anos. Trabalhei em vários restaurantes, estudei muito sobre a culinária de lá, até que senti que meu objetivo no País estava cumprido", conta o chef de cozinha.

    Sonho realizado: estudar na Le Cordon Bleu

    Depois da passagem pelos Estados Unidos, Paulo sentiu que podia alçar voos mais altos. Ele queria estudar na considerada melhor escola de culinária do mundo, a Le Cordon Bleu.

    "Pesquisei muito e vi que uma das melhores unidades da escola ficava no Peru. Achei uma boa oportunidade, porque o Peru é, hoje, um dos principais destinos turístico do mundo. Mais da metade dos que visitam o país o fazem por causa da culinária. Além disso, alguns restaurantes peruanos estão entre os melhores do mundo", afirma Paulo.

    E assim, por meio de uma amiga que morava no País, ele se mudou para lá. O chef de cozinha escolheu uma graduação mais longa e com ramificação para especialização em culinária peruara e vinhos.

    Aula no laboratório durante a formação  internacional de Sommelier de vinhos na Le Cordon Bleu, no Peru
    Aula no laboratório durante a formação internacional de Sommelier de vinhos na Le Cordon Bleu, no Peru | Foto: Divulgação

    "Além de estudar na escola, passei a estagiar lá. Fiquei nove meses nessa experiência e  na maior parte desse tempo eu estava na Le Cordon Bleu", comenta Paulo.

    Manaus como cidade gastronômica: o novo alvo

    Durante sua experiência no Peru, o chef de cozinha estudou política e, principalmente, o que o país latino fez em políticas públicas para impulsionar o turismo e a gastronomia local.

    Ao entrar em contato com essas informações, surgiu em Paulo um novo sonho. A vontade de elevar Manaus à rota do turismo e da culinária mundial. Ele passou a querer aplicar o exemplo do Peru na Cidade amazônica.

    "Surgiu em mim uma vontade de mudar a história da gastronomia amazonense e a minha ideia para isso é que Manaus seja coroada com o título de cidade criativa da Unesco. Esse certificado chama a atenção de turistas, principalmente os fãs de culinária", explica Paulo.

    X-caboquinho feito pelo chefe: carne artesanal, molho de queijo coalho, ovo, molho barbecue e banana doce da terra frita
    X-caboquinho feito pelo chefe: carne artesanal, molho de queijo coalho, ovo, molho barbecue e banana doce da terra frita | Foto: Divulgação

    Ao finalizar o curso na Le Cordon Bleu, ele diz ter procurado deputados federais e estaduais para apresentar ideias de políticas públicas para fomentar o turismo em Manaus.

    "Ouvi da boca de um deputado federal do Amazonas que eu deveria procurar ganhar dinheiro e parar de tentar implantar políticas públicas", lembra o chef de cozinha.

    Depois da experiência, Paulo teve uma ideia. Decidiu lançar uma candidatura a vereador nas eleições proporcionais de 2020 para, por meo de um mandato, implementar os projetos que criou para Manaus. Filiado ao Partido Social Liberal (PSL) desde 2017, ele passou a focar na área política. 

    "Agora lidero um gastrobar, um ‘pub’ que fica na Zona Norte da Capital. Lá eu implemento comidas, pizzas e hambúrgueres. E estou sempre na cozinha, mas durante o dia, estou correndo atrás para viabilizar a minha candidatura e também já estou finalizando os projetos para a área de turismo e gastronomia", diz ele.

    Lições de vida

    Para motivar outras pessoas, Paulo aponta três dicas primordiais para alcançar seus objetivos. O primeiro deles é sonhar.

    "No decorrer da minha vida, muitas pessoas me desmotivaram, porque para algumas eu sempre falei que sairia do Brasil, que estudaria fora. E elas não acreditaram. Além de sonhar muito, sempre fui muito positivo. Quem não sonha, não chega a lugar nenhum", garante o profissional.

    A segunda dica é planejar como você vai alcançar seus sonhos. Paulo diz que, sem essa organização, tudo será muito mais difícil.

    "Descubra o caminho, trace seu objetivo, torne em uma meta de vida. Detalhe o que você tem que fazer e em qual momento irá começar. Acima de tudo, seja apaixonado pelo que você irá fazer, porque isso vai te ajudar a se comprometer", afirma ele.

    Por último, Paulo diz que o importante é agir. "Corra atrás", ressalta o chef de cozinha.

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