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    Trade turístico


    Morte de hotéis: qual o futuro do turismo amazonense?

    Enquanto alguns hotéis no Amazonas morrem, outros faturam milhões anualmente

    Tropical Hotel passou do glamour à falência | Foto: Arquivo EM TEMPO

    Manaus -O fechamento de hotéis icônicos como o Tropical Hotel, Ariaú Towers e Caesar Business Manaus nos últimos anos é visto como reflexo do que muitos chamam de 'crise do turismo' no Amazonas. O tema foi até pauta na Assembleia Legislativa (Aleam) no final de outubro, quando o deputado estadual Fausto Jr (PV) citou a falência das estruturas hoteleiras e o cancelamento de voos da MAP Linhas Aéreas para os municípios de Coari, Eirunepé e Tefé como sinais de alerta para o setor turístico do Estado. 

    Ariau foi símbolo de poder para o turismo amazônico; hoje, encontra-se em ruínas
    Ariau foi símbolo de poder para o turismo amazônico; hoje, encontra-se em ruínas | Foto: Divulgação

    Dívidas e má administração são fatores comuns na falência de gigantes hoteleiros do Amazonas. O Ariaú Towers, em Anavilhanas, fechou em 2016 e encontra-se em estado de abandono total. Desde seu fechamento, foram várias as tentativas de leilão para sanar as dívidas. O lance para compra do hotel caiu de R$ 26 milhões para R$ 13 milhões, sem interessados à vista.

    Já o Caesar Business, na Chapada, encerrou as atividades em 2018, após enfrentar dificuldades financeiras. O prédio foi adquirido pelo Sidia Instituto de Ciência e Tecnologia, como parte importante de uma estratégia de ampliar seus projetos e aperfeiçoar o desenvolvimento de novas tecnologias na região.

    O caso mais recente é do Tropical Hotel, que fechou as portas em maio de 2019 com dívidas de R$8 milhões com a concessionária de energia elétrica. Atualmente, o empreendimento aguarda um novo leilão e espera reabrir as portas até o final do ano, no melhor dos cenários. “O hotel faliu por contas de vários fatores, inclusive administrativos, não só da questão da energia. Quando assumimos em agosto, contratamos equipes para a segurança do local, mas é complicado porque tiramos do próprio bolso”, diz o advogado responsável pelo Tropical, Pedro Cardoso.

    Cardoso informa que há um investidor interessado no complexo com uma proposta de R$120 milhões. A expectativa é que um novo leilão aconteça na primeira quinzena de dezembro. Sobre a manutenção, o advogado afirma que serão necessários reparos na parte externa, mas os 240 apartamentos do Tropical estão em bom estado e prontos para receber hóspedes.

    Amazonastur

    Na avaliação da presidente da Empresa Estadual de Turismo (Amazonastur), Roselene Medeiros, há muito ‘achismo’ por parte de quem faz alarme sobre a situação do turismo do Amazonas. “Os números mostram que só no primeiro semestre de 2019, houve um aumento de 2,95% no volume de turistas. Temos equipes nas entradas da cidade fazendo pesquisa. Não estou dizendo que está uma maravilha, mas aos poucos estamos conseguindo aumentar os números com muito trabalho”, diz a presidente.

    Sobre a situação de hotéis como o Tropical, Roselene diz que a Amazonastur sempre ofereceu suporte às empresas, mas não pode interferir no modo como elas são administradas. “Nós não podemos fazer a administração dos hotéis por eles. Claro, há empresários que acabaram não evoluindo junto com o modelo de negócio. Mas nós estamos ali fazendo acompanhamento, conversando com os prestadores de turismo, na busca por investidores”, afirma. 

    Apenas em Manaus, há 3,8 mil unidades habitacionais, com mais de 7,5 mil leitos. Na hotelaria de selva, são 486 unidades no Estado, com mais de 1,2 mil leitos disponíveis. 

    Roselene aponta a excelente ocupação de hotéis de selva e abertura de novas unidades como exemplos da hotelaria amazonense. Em dezembro, o Juma Opera abrirá 42 apartamentos no Centro de Manaus; e a rede Slaviero levará para a Avenida das Torres mais 160 apartamentos. “É uma melhora. Inclusive, há hotéis que conseguiram fechar sua ocupação em 100% em alguns meses de 2019, um total de 85% no apanhado do ano”, diz a presidente da Amazonastur. 

    Hotéis de selva são modelos de sucesso

    O Hotel Juma tem um faturamento anual de R$ 7 milhões e uma média de 7 mil hóspedes por ano
    O Hotel Juma tem um faturamento anual de R$ 7 milhões e uma média de 7 mil hóspedes por ano | Foto: Divulgação

    Se por um lado grandes unidades hoteleiras faliram, o turismo de selva permanece aquecendo o turismo do Estado. Um dos exemplos é o Amazon Tupana Jungle Lodge, situado à margem esquerda do rio Tupana, a 178 quilômetros de Manaus. A proprietária Conceição Khattab chegou a atuar como gerente comercial do Ariau Towers no auge daquele empreendimento.

    “Aprendi muitas coisas lá, inclusive o que não se deve fazer para manter um padrão buscado pelos turistas”, diz Conceição. Atualmente, o Amazon Tupana tem uma receita bruta anual de R$1,3 milhão. Foram mais de 1 mil turistas recebidos em 2018, sendo 70% estrangeiros e 30% brasileiros. Conceição estima que o número da ocupação aumente 42% ao ano. 

    A dona do Amazon Tupana atribui o sucesso do hotel à experiência de vida ribeirinha oferecida aos turistas. “Por ter vivido parte de minha vida no Rio Juruá e passando férias no seringal de minha família, o Santa Eutália, quis retratar uma experiência mais próxima possível de uma vida na selva”, diz Conceição. O lodge é inspirado em construções ribeirinhas e as excursões são feitas com guias capacitados em grau de imersão na selva.

    Os períodos de alta são o mês de julho para os brasileiros e agosto e setembro para os europeus. Nessa época, o número de hóspedes gira em torno de 350 a 430 por mês.

    Hotéis de selva mantém boa ocupação
    Hotéis de selva mantém boa ocupação | Foto: Divulgação

    Outro hotel de selva bem-sucedido é o Juma Amazon Lodge, em Autazes, a 100 quilômetros da capital. Com um faturamento anual de R$ 7 milhões e uma média de 7 mil hóspedes por ano, o Juma se orgulha de oferecer uma experiência na selva em área preservada. Em breve, uma unidade do Juma no centro de Manaus será inaugurada.

    “O turista vem para ver a Amazônia, então isso é o mínimo que temos que oferecer”, diz o diretor da rede, Caio Fonseca. “Por isso nosso hotel se manteve pequeno para que não haja muito barulho e atrapalhe a experiência do turista”.

    Experiência profissional também chave para a boa administração do hotel de selva. “Meus sócios Aparecida Ikeda e Renato Barbosa atuaram no Ariaú Towers e foi muito importante para adquirirem know-how de toda a operação hoteleira antes de abrir o próprio empreendimento”, diz Caio. 

    Em períodos de alta temporada como julho, agosto, Natal e Réveillon, o Juma Amazon Lodge alcança 100% de ocupação.

    Deficiências

    Para a turismóloga Naiara Arruda, o Amazonas esbarra em questões de logística e infraestrutura que impedem o desenvolvimento do potencial turístico do Estado. 

    “Temos gaps que precisam ser preenchidos. Percebo que o trade turístico caminha com as próprias pernas e fazem uma promoção do Amazonas mais efetiva que o próprio governo ou prefeitura, principalmente nas cidades pequenas”, argumenta a especialista, ao citar o exemplo do Local Hostel, situado no Centro da capital, que abriu uma unidade em Presidente Figueiredo.

    Naiara também aponta estruturas como a Rodoviária, Marina do Davi e o Porto de Manaus, que sofrem com a falta de manutenção. “Vemos um porto abandonado e uma orla marginalizada. O turismo no Amazonas está voltado para um segmento muito específico que é o turismo de selva: a pessoa que vem com muito dinheiro, compra pacote com tudo. O Estado parece não entender que existe o turista que quer se organizar sozinho”, critica a turismóloga.

    Naiara também considera que o Estado precisa repensar a forma como promove o turismo nos municípios amazonenses. Ela cita Maués, que possui atrativos naturais, mas não é visto como rota turística como Alter do Chão. “Alter está despontando porque teve investimentos grandes em voos, marketing e na orla. Por que não Maués? Barcelos, por exemplo, é um grande polo de pesca esportiva. Por que não ouvimos falar de lá?”, questiona.

    Uma solução, segundo Naiara, é desenvolver estratégias nesses municípios-chave que funcionem como piloto para Barcelos. “A priori, seria ver esses destinos e trabalhar de forma mais estratégica as forças desses municípios. Não adianta trabalhar com os 65, tem que ver os que já têm atrativo como Presidente Figueiredo e Manacapuru”, sugere.