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    CARNAVAL 2020


    Costureiras dobram a renda com as encomendas das escolas de samba

    Por trás de paetês e alegorias estão artistas dedicados que trabalham muito no período da folia

    As irmãs Aurismar e Guiomar Cardoso veem a renda com o serviço de costura melhorar até 50% na época do Carnaval | Foto: Lucas Silva

    Manaus - A poucos dias do desfile das escolas de samba de Manaus, do Grupo Especial, os foliões já estão a todo vapor para brincar Carnaval, com a agremiações, de 20 a 22 de fevereiro, no Centro de Convenções Professor Gilberto Mestrinho – Sambódromo, Zona Centro-Oeste. Por trás de cada fantasia apresentada pelas escolas de samba, há por trás uma economia popular que gera um crescimento de até 50% na renda de profissionais como artesões e costureiros.

    Depois de sair da mesa de costura de milhares de costureiras, as fantasias dão as cores do desfile na avenida do samba
    Depois de sair da mesa de costura de milhares de costureiras, as fantasias dão as cores do desfile na avenida do samba | Foto: Marcely Gomes

    Entre tecidos, paetês, agulhas e linhas, as irmãs Cardoso se preparam para mais um Carnaval. Guiomar, Aurismar e Rosimar costuram para a agremiação Reino Unido da Liberdade, desde a infância.

    Guiomar, 59, e Aurismar, 62, relatam que trabalham como costureiras no Carnaval desde 1984. Quem começou a fazer as fantasias foi Aurismar, que ensinou a função para as irmãs mais novas. “Ela me chamou e eu vim. Éramos nós três e uma vizinha da frente da nossa casa”, conta Guiomar.

    Há alguns anos, as irmãs se dedicavam a fazer adereços e fantasias, mas, hoje só atendem a escola de samba com as costuras, pois a casa não tem mais tanto espaço. Rosimar, 55, a mais nova das irmãs, também costura. Ela tem deficiência auditiva.

    Irmães trabalham com costuras para escolas de samba do Carnaval de Manaus, desde 1984
    Irmães trabalham com costuras para escolas de samba do Carnaval de Manaus, desde 1984 | Foto: Lucas Silva

    O Carnaval é um período que elas chegam a lucrar 50% a mais que no resto do ano. Dona Guiomar explica que só cobra mão de obra, pois os materiais são oferecidos pela escola. O valor de cada peça depende de sua complexidade. Ela prefere não comentar quanto cobra, mas avisa que é um valor que ajuda muito na renda familiar.

    Quem introduziu as três no mundo da folia foi a mãe, que era da ala das baianas, na escola Reino Unido. Desde sempre moradoras do bairro da agremiação, o Morro da Liberdade, Zona Sul, a família é toda carnavalesca e torce fielmente para escola. “Nascemos no Morro e somos Reino Unido”, garante Guiomar.

    Confeccionar as fantasias da escola é uma grande responsabilidade. “Às vezes, a gente trabalha até o último dia antes do desfile”, compartilha Guiomar. Nem sempre dá tempo de encomendar as fantasias com antecedência, as irmãs contam que já fizeram as fantasias de um desfile em 20 dias de trabalho. 

    Para entregar as fantasias a tempo dos desfiles, costureiras estão trabalhando de 8h às 23h
    Para entregar as fantasias a tempo dos desfiles, costureiras estão trabalhando de 8h às 23h | Foto: Lucas Silva

    Estratégia

    Geralmente, as escolas dividem as costureiras por alas, assim, a fabricação das fantasias acontece de maneira mais focada. Todos os anos, as irmãs pegam de duas a três alas. Este ano elas farão três alas, sendo duas com 80 fantasias cada e outra de 120.

    Em 2020 elas terão que se superar, pois pegaram as fantasias há menos de um mês. Para atingir a metas, elas estão trabalhando das 8h às 23h, todos os dias. “Não é fácil não. Eu tenho problema de coluna, dói as costas, mas vale o sacrifício”, conta Guiomar.

    A família toda hoje é envolvida com o Carnaval. Na sala de estar da família, todo mundo acaba ajudando um pouco. “O dinheiro não compensa, a gente faz porque tem amor pela escola”, desabafa Guiomar. Nem sempre as escolas dispõem de todos os recursos para pagar os colabores conforme eles merecem. 

    Depois do trabalho com as linhas agulhas, costureiras conseguem tempo para também desfilar na escola de samba
    Depois do trabalho com as linhas agulhas, costureiras conseguem tempo para também desfilar na escola de samba | Foto: Marcely Gomes

    Depois de toda a correria para fazer as fantasias, as três ainda têm fôlego para desfilar. Este ano, Guiomar também faz parte da harmonia técnica da Reino Unido.

    Especialista em fantasias

    Outra costureira que terá o prazer de ver suas criações desfilando na avenida é Cristina Mota, 58. Ela já tem história no Carnaval. Costurou por seis anos para a Mocidade Independente de Aparecida, um ano para a Reino Unido e, em 2020, estará com a Vitória Régia, confeccionando três alas.

    Ela conta que a responsabilidade é grande, pois este ano a escola homenageia o artista plástico Wernher Botelho, conhecido suas criações que abrilhantaram as avenidas no Carnaval de Manaus, no eixo RJ-SP, e também no Festival Folclórico de Parintins. O artista faleceu em abril do ano passado.

    “Desde o ano passado a gente já conversava, fizemos protótipos e dividimos as atividades. Como estamos quase chegando na semana do Carnaval, tem que correr”, compartilha. Ela e sua equipe estão trabalhando há pouco mais de um mês para entregar quase 400 fantasias.

    Festivais

    Não é só no Carnaval que ela tem a oportunidade de dar vida a fantasia. Cristina é especialista em fantasia e também faz as roupas de grandes festivais da cidade como o Festival Amazonas de Ópera e o Festival Folclórico do Amazonas. Só no especial de Natal do Teatro Amazonas, ela trabalha desde 2005. Estes são os períodos em que ela ganha mais.

    Ela conta que não tem alegria mais que ver suas fantasias no palco. Ela relembra a primeira vez que viu seu trabalho do Festival de Ópera. “Fiquei emocionada ao ver o resultado do meu trabalho”, conta. Cristina também é costureira há mais 30 anos. Aprendeu a função com a mãe e é apaixonada pelo que faz.