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    Comida Regional


    Amigos da Floresta misturam gastronomia e ajudam comunidades do AM

    Projeto existe desde 2010 e tem como objetivo criar pratos baseados na cultura amazonense e gerar renda para comunidades ribeirinhas

    Chef conta histórias sobre a gastronomia cabocla e mais, cria pratos com matéria-prima regional
    Chef conta histórias sobre a gastronomia cabocla e mais, cria pratos com matéria-prima regional | Foto: Lucas Silva

    Manaus - Da floresta amazônica, exalam cheiros de cupuaçu, tucupi, pupunha e macaxeira, entre outros. Foi o que Fábio Silva, 53, percebeu, ainda em 2010, quando criou a 'Amigos da Floresta', empresa do ramo turismo e gastronômico. Com a proposta de oferecer pratos típicos e utilizar a produção de comunidades do Amazonas, o negócio rapidamente alcançou patamares nacionais e já esteve presente em diversos eventos, como o Passo a Paço, na capital amazonense. Além disso, com o Programa do Artesanato Brasileiro, a empresa já percorreu estados como São Paulo, Minas Gerais, Bahia, Pará e Distrito Federal. 

    Na Amigos da Floresta, segundo os chefs de cozinha Fábio Silva e Sandra Espíndola, casados e sócios da empresa, os principais objetivos são trabalhar com alimentos saudáveis, livres de agrotóxicos e com a menor interferência possível no sabor e natureza dos ingredientes. Além disso, fornecer produtos e serviços sustentáveis com uma pegada ambiental positiva e, levar a Amazônia, sua cultura e suas histórias para todo o mundo.

     Para a produção dos pratos típicos, a empresa compra, hoje, mais de 80 itens naturais da Amazônia, de cerca de 50 famílias de produtores rurais e na maior parte na região metropolitana de Manaus. Alguns produtos adquiridos são cubiu, camu camu e araça boi. Além disso, compram também farinha Uarini do médio Solimões; cogumelos Yanomami e pupunhas, dos municípios de Borba, Maués e Coari; e açaí de Codajás. 

    Os principais pratos são as geleias amazônicas de cupuaçu com mangarataia, cupuaçu com maracujá, e a de pimenta de cheiro. As três fazem sucesso, e são feitas por Sandra Espíndola. A cozinheira entrou para o mundo da gastronomia, quando, sozinha, precisou se virar para sustentar os dois filhos.

    Além disso, a Amigos da Floresta reúne participações em eventos grandes. Entre eles, está o Prêmio Ajinomoto 2011, quando estiveram na cozinha e serviram tambaqui à igapó. Outra participação foi na Copa do Mundo de 2014, quando Fábio e Sandra serviram Pirarucu à Portuguesa para a seleção lusa, que jogou em Manaus. 

    "

    Quando a gastronomia emergiu como força profissional eu decidi contar as histórias pelas receitas, fazer com que os sabores pudessem falar da região, da gente, das belezas dos rios e floresta. "

    Fábio Silva, chef de cozinha e empreendedor,

    Tempero na veia

    Fábio sempre foi apaixonado pela arte de cozinhar, e a ligação por boa comida vem de família. "Nasci em São Paulo, mas meus parentes são de Minas Gerais. Era sempre fácil, em meados dos anos 70, juntar 50 pessoas para uma feijoada de Dias das Mães, por exemplo. Assim, a cozinha sempre foi onde recebíamos as visitas, discutíamos orçamento familiar e revisávamos as tarefas da escola. Tudo regado a café e queijo minas, doces e pães caseiros e cheiros de nossa tradição", conta o cozinheiro.

    Quando veio morar em Manaus, em 1986, Fábio diz ter criado novas ambições, como a indústria, o comércio exterior e o aprendizado da Zona Franca. "Assim se deu minha vida por cinco anos a partir de 1986. Mas sempre que reunia amigos, eu ia para cozinha. Era a minha forma de fazer os amigos sentirem-se em casa", lembra ele.

    Geleias amazônicas são o principal produto da marca
    Geleias amazônicas são o principal produto da marca | Foto: Lucas Silva

    Mas o negócio despontou mesmo quando Fábio, que já possuía graduação em Administração em Comércio Exterior e especialização em Organização de Eventos, estava buscando um novo plano de vida. Depois de estudar aventura, ecologia, saúde, pesca e terceira idade, ele resolveu que era hora de se especializar em gastronomia.

    "Em 2009, entrei para a Faculdade de Tecnologia da Gastronomia e comecei a mudança gradual de dedicação exclusiva ao mundo dos alimentos. Quatro anos antes eu havia tido uma experiência, quando montei uma linha de sanduíches, alguns de sabores autorais (Jacaré à jardineira e Calabresa assada na Cerveja) e outros clássicos feitos à minha moda (Quatro Queijos e Berinjela à Vinagrete de forno). Eu trabalhava como comprador internacional em uma fábrica do distrito, e aproveitava para vender meus sanduíches. Rapidamente, de 20 vendas por dia, passei para 70", conta Fábio.

    Sopa de peixe é um dos produtos oferecidos pela empresa, que foca em vender alimentos mais saudáveis e com menos processos nocivos
    Sopa de peixe é um dos produtos oferecidos pela empresa, que foca em vender alimentos mais saudáveis e com menos processos nocivos | Foto: Lucas Silva

    Quando saiu da empresa em que era funcionário, o cozinheiro percebeu que os colegas de trabalho, agora clientes, também se mudaram para outras empresas, logo, e seu público havia espalhado. Foi quando ele decidiu entrar definitivamente para a gastronomia e imprimir nas comidas sua própria linguagem e sabores, e ainda com a possibilidade de gerar lucro.

    Já na faculdade de gastronomia, Fábio ganhou destaque desde o início do curso. Em uma visita da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel), a entidade desafiou os estudantes a criarem um prato que unisse a mão de obra em formação com diversos empreendimentos associados. "Eu não tinha currículo profissional na cozinha, mas sabia bem o que queria. Contar histórias no prato", lembra Fábio.

    Na emoção do desafio e à chegada dos jurados da Abrasel, o cozinheiro apresentou 'A história do Amazonas', um prato que surpreendeu a todos. "Queria algo que contasse a história do Estado, e por isso levei Filé de Jacaré feito em molho de café e castanhas do Brasil. O alimento é considerado o primeiro item introduzido no Brasil colônia, para fins de comercialização. Além disso, considero o maior valor de nossa floresta, hoje", conta Fábio, que ganhou a condecoração de destaque acadêmico de 2009. Ainda no mesmo ano, foi convidado para participar na Agenda Brasil Sabor, no programa da Baby Rizzato, um encontro junto aos chefs de cozinha premiados daquele ano. Um verdadeiro "pé direito" para o início do curso.

    Economia inclusiva

    Produtos são vendidos por comerciantes de comunidades do Amazonas
    Produtos são vendidos por comerciantes de comunidades do Amazonas | Foto: Lucas Silva

    Fábio conta que o maior impacto percebido por ele nos fornecedores é o aumento de renda que eles têm ao formarem parcerias com a Amigos da Floresta. Mas, não apenas. 

    "Os comunitários ganham mais visibilidade e isso é muito importante, porque as pessoas que vivem no campo sempre são tomadas como anuladas, mudas e esquecidas. Mas nós pensamos diferente. Um dos nossos fornecedores, o sr. José Maruoca, que faz tucupi, participou de um documentário sobre cultura alimentar. A indicação foi nossa e o trabalho virou livro. 'Brasil Expedições Gastronômicas' ganhou o prêmio Jabuti 2014, de literatura", conta Fábio.

    Azeite regional produzido pela marca
    Azeite regional produzido pela marca | Foto: Lucas Silva

    Não apenas a visibilidade, mas a Amigos da Floresta já ajudou até mesmo a montar uma biblioteca comunitária na comunidade Bela Vista do Jaraqui, distante cerca de 70km de Manaus.

    "Queríamos expressar como foram bons o aprendizado e a amizade e confiança em nosso trabalho naquela comunidade. Dividimos histórias de sobrevivências de selva com eles, mas também de muita farinha d'água, cupuaçus e 'mari maris' que trouxemos de lá", lembra Fábio.

    Fábio Silva, chef de cozinha e empresário
    Fábio Silva, chef de cozinha e empresário | Foto: Lucas Silva

    Os mais de 100 livros da biblioteca falam sobre a Amazônia e sua história, geografia, cultura e meio ambiente. Mas há também legislação e  poesia. "São diversos títulos somente sobre a Amazônia para mostrar a quem não tinha livros como sua própria cultura é diversa e rica", ressaltam Sandra e Fábio.

    Segundo eles, muitos dos autores que doaram livros à biblioteca comunitária fizeram questão de deixar dedicatórias à comunidade. A ideia era aproximar quem escreve de quem começou a ler.

    Edição e pauta: Rebeca Mota