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    Finanças Pessoais


    Educação financeira: importante nas escolas e essencial para crianças

    De R$10 em R$10, o dinheiro soma R$1000. Especialista e pais experientes ensinam como a educação financeira para crianças pode evitar adultos endividados no futuro

    Crianças educadas financeiramente podem se tornar cidadãos com menos dívidas | Foto: Freepik

    Manaus - Em janeiro de 2020, o Brasil alcançou um total de 65,3% endividados. O número  cresceu, se comparado ao mesmo período do ano passado, quando foram 60,1%. Os dados são da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), divulgada no início de fevereiro. Para evitar a falta de controle do dinheiro na vida adulta, há quem aposte em ensinar as crianças, desde cedo, a lidarem com finanças. 

    Para Roberta Veras, a educação financeira é o futuro do Brasil. Ela, que é consultora, educadora e terapeuta financeira, diz que é preciso fazer uma mudança cultural na sociedade. "Essa é a solução para que brasileiros diminuam os números de dívidas", afirma. 

     Ela faz consultoria para famílias que se veem com muitas contas e dificuldades para gerencia-las, mas também é procurada por pais que trabalham muito, e, por isso, tentam retribuir a ausência dando bens materiais aos filhos. 

    "Eu tento fazer com que a criança entre na rotina de planejamento financeiro. Sugiro sempre uma reunião com os filhos, para que se possa ensinar sobre o dinheiro. E claro, se a criança for menor, ensinar de forma lúdica", explica a especialista.

    Roberta é voluntária na Comissão da Mulher Contabilista, que tem o objetivo de incentivar a participação da mulher na vida social e política do Brasil
    Roberta é voluntária na Comissão da Mulher Contabilista, que tem o objetivo de incentivar a participação da mulher na vida social e política do Brasil | Foto: Reprodução/Instagram

    Nessas reuniões, que devem ser semanais, ela sugere que pais expliquem para os filhos a importância do dinheiro no dia a dia da família; que os bens materiais da casa são alcançados com dinheiro; e que é preciso trabalhar para tê-lo, por isso os pais saem todos os dias. 

    Não apenas, mas também ensinar a criança o que é consumismo. Nesse sentido, podem ser tanto os gastos elevados que atrapalham alcançar objetivos e sonhos, como o consumo de energia elétrica e água, em excesso. Roberta diz que crianças precisam aprender desde cedo sobre economizar nesses aspectos. 

    Mesada

    Segundo a pesquisa mencionada no início do texto, os endividados declararam ter como principais contas as do cartão de crédito (79,8%), carnês (15,9%) e financiamento de carro (10,9%). Ou seja, em disparado, a compra em crédito parece prejudicar boa parte dos brasileiros.

    Como alternativa para o parcelamento de aquisições, a especialista Roberta Veras diz que é preciso ensinar a criança a guardar seu dinheiro para alcançar objetivos e um bom jeito é por meio da tradicional mesada. No mais, vale explicar aos filhos como funciona um cartão de crédito e quais são os prós e contras. 

    Roberta costuma participar de programas para falar sobre soluções financeiras
    Roberta costuma participar de programas para falar sobre soluções financeiras | Foto: Reprodução/Instagram

    "Mesada é um bom artifício para ensinar a criança a guardar dinheiro. O ideal é estipular uma meta para que a criança possa fazer seu 'cofrinho'. Por exemplo, se ela começar a juntar o dinheiro da mesada em fevereiro, quando for em outubro, no mês das crianças, pode comprar algum presente super legal à vista. Vai evitar parcelamentos e dívidas, e de quebra, ainda aprende sobre poupar o que recebe e fazer planos", sugere Roberta. 

    Mas ela alerta para o cuidado com a mesada. "Nunca dê dinheiro por ausência na vida do filho. Já vi muitos pais encherem as crianças de bens materiais porque trabalham muito e não têm tempo para os filhos. O que acontece é que a criança passa a dar menos valor ao que tem e quer sempre algo novo. Isso, com certeza, vai refletir no futuro", diz ela.

    Roberta aproveita para, vez ou outra, ensinar sobre finanças para o próprio afilhado
    Roberta aproveita para, vez ou outra, ensinar sobre finanças para o próprio afilhado | Foto: Reprodução

    Como alternativa, a especialista aconselha sempre conversar com a criança, até mesmo deixar claro o motivo dela receber mesada. "Se for dar dinheiro para ela lanchar na escola, por exemplo, explique que faz isso porque não tem tempo para preparar o lanche em casa para ela levar, se for o caso", afirma Roberta. 

    A mesada é a maneira da enfermeira Gesiele Oliveira, de 36 anos, ensinar suas duas filhas. Para ela, esse dinheiro representa o primeiro contato das crianças com a responsabilidade financeira e a necessidade de saber como gastar sabiamente.

    "Comecei com uma mesada que não era para elas gastarem, mas sim um depósito que eu fazia em uma conta-poupança. A ideia era ajudá-las a guardar dinheiro, mas com o auxílio da gente, os pais", conta Gesiele.

    Gesiele e as duas filhas
    Gesiele e as duas filhas | Foto: Reprodução

    Ela ressalta que não é fácil educar os filhos financeiramente, e diz que muitas vezes é preciso ter que se reeducar para então ensinar para as crianças. "Não temos datas específicas para que elas ganhem presentes. Isso acontece se elas alcançarem condições, como pequenas tarefas domésticas e boas notas escolares", afirma a mãe. 

    Por fim, Gesiele diz que ela apresenta às filhas todos os ganhos e gastos da casa, "para que elas entendam o valor das coisas e para que haja transparência", finaliza. 

    Alternativas 

    Para além da mesada, alguns pais utilizam outras táticas bem-vindas para ensinar educação financeiras às crianças. Uma delas é a já mencionada pela consultora de finanças entrevistada para esta matéria. A ideia de estipular sonhos e metas de curto, médio e longo prazo, para os filhos. 

    A universitária Alessandrine Silva, de 28 anos, é uma das adeptas dessa opção. Ela é mãe de um casal, de seis e quatro anos, e conta como faz para aplicar a técnica com as crianças. 

    "Meus filhos ainda são muito novos, então não recebem mesada. Mas eu estipulo, junto com eles, objetivos, que chamamos de 'sonhos', aqui em casa. Temos os de curto, médio e longo prazo. No caso desse último, é sempre para o final do ano", conta Alessandrine. 

    Alessandrine usa a técnica de objetivos com as crianças
    Alessandrine usa a técnica de objetivos com as crianças | Foto: Anne Lucy

    Ela diz que as crianças já aprenderam que o troco da merenda escolar vai para o cofre, e quanto menos alimentarem os 'porquinhos', mais distantes estarão dos seus propósitos. "Construir esses entendimentos é fundamental  para que nós possamos estabelecer e cumprir nossas metas e melhorar nossa relação com o dinheiro", ressalta Alessandrine. 

    Ela diz que sente falta de ter aprendido sobre educação financeira na infância e, que acredita, ter se endividado cedo por isso, também. "Eu não tinha muitas responsabilidades com as minhas obrigações financeiras e nem jogo de cintura para ligar com questões bancárias. A leitura e a visualização de metas para nosso futuro é o que me tornou mais consciente", finaliza. 

    A reportagem procurou a Secretaria Municipal de Educação (Semed), para saber quais os projetos de educação financeira vigentes no município e também quais escolas públicas têm finanças em sua grade curricular. No entanto, até o fechamento dessa matéria, as respostas não foram enviadas.