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    INSTABILIDADE DO GOVERNO


    Sem Moro, governo amplia crise econômica, avaliam especialistas

    Crise política derrubou o mercado financeiro e ainda apontou ministro Paulo Guedes como o próximo possivelmente demitido

    Depois de Sérgio Moro, mercado especula saída do ministro da Economia, Paulo Guedes | Foto: Antonio Lacerda

    Manaus - Após a saída de Sérgio Moro do Ministério da Justiça, que movimentou negativamente a Bolsa de Valores de São Paulo, com forte queda e o dólar subiu novamente, o cenário político econômico passou a especular que o próximo ministro a cair do governo Bolsonaro será o da Economia, Paulo Guedes. No Amazonas, economistas e representantes da indústria e do comércio que saída de Moro traz mais que complicações políticas, afeta a econômica por conta da instabilidade do governo.

    Durante o anúncio de saída de Sério Moro, em que ele apontava uma série de interferências políticas do presidente Jair Bolsonaro sobre a Polícia Federal, o Ibovespa que é o mais importante indicador do desempenho médio das ações negociadas na B3 - Brasil, Bolsa, Balcão –, chegou a cair 9,5% na sexta-feira (24). Se aproximou da necessidade de acionar o circuit breaker, mecanismo que interrompe as negociações por 30 minutos. Após bastante volatilidade, porém, o índice passou a negociar com perdas na casa de 7%.

    Enquanto Sério Moro anunciava saída e reclamava de interferência polícia na PF, B3 caía e dólar ficava mais caro
    Enquanto Sério Moro anunciava saída e reclamava de interferência polícia na PF, B3 caía e dólar ficava mais caro | Foto: Suamy Beydoun

    Enquanto Moro seguia com discurso da quebra de compromisso no combate a corrupção, o dólar comercial saltou 3,26%, cotado a R$ 5,7072 na compra e R$ 5,7082 na venda. A moeda norte-americana chegou a R$ 5,71 na máxima do dia. O dólar futuro para maio, por sua vez, avançou 3,52%, a R$ 5,734.

    O economista Wallace Meirelles analisa que a instabilidade gerada no governo federal é ocasionada internamente e que já não é mais um problema gerado pela oposição e sim uma incompetência do próprio governo. “Seja pela falta de coordenação ou pela falta de contato com os agentes políticos e principalmente sociais, podemos observar que há uma deficiência muito grande no contato com a população”, explica.

    Diante da saída de Moro, e da instabilidade no mercado, especialistas interpretaram que o próximo na lista de demissão do presidente Bolsonaro é possivelmente o ministro da Economia, Paulo Guedes. O economista Meirelles afirma que, por conta dos posicionamentos neoliberais de Guedes, ele realmente não se enquadra a esse momento em que a economia precisa de um Estado mais participativo.

    “Precisamos de um Estado mais presente. O governo federal precisa ajudar, transferindo renda para os trabalhadores, mas sem muita burocracia e com mais rapidez. As pessoas precisam disso para se alimentar e sem essa certeza eles voltam para a rua, o que pode piorar ainda mais a crise gerada pela pandemia da Covid-19”, salienta o economista.

    A ZFM está sendo afetada e precisa de mais planejamentos, avalia economista
    A ZFM está sendo afetada e precisa de mais planejamentos, avalia economista | Foto: Arquivo EM TEMPO

    Meirelles observa ainda que, em relação à Zona Franca de Manaus (ZFM), existem diversos problemas que o modelo enfrenta com as mudanças que estão ocorrendo no governo e na economia brasileira. “Temos problemas logísticos e de mercado interno. Não estamos exportando e, se tudo piorar, não poderemos mais produzir. Os governos municipais, estaduais e federais precisam se organizar e criar um planejamento para lidar com tudo isso. Não é o momento de cortar gastos”, afirma.

    Crise agravada 

    Para o presidente do Centro da Indústria do Estado do Amazonas (Cieam), Wilson Périco, a decisão de ex-juiz da Lava Jato, Sérgio Moro gerou um grande impacto político e que isso complica ainda mais a situação do país, uma vez que já existem problemas econômicos e sociais ocasionados pela pandemia do novo coronavírus.

    Presidente do Centro da Indústria do Estado do Amazonas (Cieam) avalia que instabilidade política "complica" a crise econômica
    Presidente do Centro da Indústria do Estado do Amazonas (Cieam) avalia que instabilidade política "complica" a crise econômica | Foto: Reprodução/Internet

    Périco reconhece também que a leitura e a forma como Paulo Guedes se posiciona pode não ser a melhor para o momento de crise que o mundo vive. Segundo o presidente do Cieam, a economia liberal não será capaz de recuperar o país no período que está por vir.

    “Temos que desenvolver soluções internas para o país e olhar mais para dentro. Isso não vai de acordo com a academia de Guedes. Pode ser que ele decida sair ou que seja demitido, mas as demandas que teremos de agora em diante serão completamente diferentes das que vinham sendo conduzidas até então. É aguardar e ver como isso vai ficar”, reitera Périco.

    Substituíveis

    O presidente da Câmara de Dirigentes de Lojistas de Manaus (CDL-Manaus), Ralph Assayag, acredita que não existem pessoas insubstituíveis e que, tanto no caso de Moro, como no caso de Guedes - se ele também sair -, é possível que o governo encontre pessoas tão competentes quanto ou até melhores.

    “O pior de tudo é você estar no comando, seja na presidência ou como gerente de uma loja, e determinar certas coisas que não são cumpridas da forma que você quer. Então, você tem de retirar ou demitir alguém. Mesmo essa pessoa sendo boa, você precisa trocar para ter disciplina dentro do seu governo ou negócio”, diz o presidente da CDL-Manaus.

    Assayag diz que também tem aplicações na bolsa e que, mesmo que agora ela tenha caído, ainda pode subir, pois o mercado das especulações segue a todo vapor. Segundo ele, são momentos de instabilidade que vem ocorrendo com muita frequência, desde o início da pandemia.

    Culpa da pandemia

    O presidente da Federação das Indústrias do Estado do Amazonas (Fieam), Antonio Silva, buscou amenizar a movimentação do mercado no dia de hoje, e avalia que o impacto na economia não é definido pela saída de Sérgio Moro ou de Paulo Guedes - se acontecer -, mas pelo novo coronavírus.

    Antonio Silva diz que saída de Moro não interferiu na economia e salienta que o problema é a Covid-19
    Antonio Silva diz que saída de Moro não interferiu na economia e salienta que o problema é a Covid-19 | Foto: Divulgação

    “Nós temos que separar hoje uma coisa da outra. Temos que fazer com que esse coronavírus seja afastado o mais rapidamente para que a economia possa voltar, para que as atividades da indústria e do comércio voltem. Essa é a nossa maior preocupação: combater a Covid-19 para que o mais rápido possamos voltar com nossa economia e isso inclui a ZFM”, ressalva Silva.

    Segundo o presidente da Fieam, a economia não será a mesma do ano passado, mas é preciso pensar em como recuperá-la desde já e entrar com um plano de guerra para salvar o Brasil e o estado do Amazonas.