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    SEM TRANSPARÊNCIA


    Indústrias do PIM voltam ‘silenciosamente’ em pleno pico da Covid-19

    Por medo de gerar má repercussão, companhias retomam as atividades com a mão de obra local, sem transparência no ato

    De acordo com dados do Sindplast, das 600 empresas do Distrito Industrial, 80% delas estão funcionando | Foto: Arquivo Em Tempo

    Manaus - Em meio do pico da pandemia do novo coronavírus no Amazonas – com mais de 7 mil caso e quase 600 óbitos confirmados -, nesta segunda-feira (4), mais de dez empresas retomam às atividades produtivas no Polo Industrial de Manaus (PIM), segundo a Federação das Indústrias do Estado do Amazonas (Fieam). As companhias fazem parte do setor de eletroeletrônico e metalúrgico.

    De acordo com a federação, outras 20 companhias pretendem retornar no dia 18 de maio. Apesar de o Distrito Industrial demonstrar sinais de volta à 'normalidade', boa parte das empresas evita falar sobre as decisões de retomada dos negócios. Dados preliminares apontam que, aproximadamente, 50 mil trabalhadores que estavam de férias coletivas, estão entre os que já voltaram e os que estão para voltar às atividades. Mas, falta transparência sobre esses dados por parte das empresas e dos sindicatos.

    Vice-presidente da Fieam diz que decisão de retorno das atividades das empresas no PIM vem de outros Estados ou países
    Vice-presidente da Fieam diz que decisão de retorno das atividades das empresas no PIM vem de outros Estados ou países | Foto: Divulgação

    O vice-presidente da Fieam, Nelson Azevedo, diz que, apesar de comunicarem à federação o retorno, as empresas pedem para não serem nomeadas, porque têm medo da má repercussão que a volta às atividades pode gerar. "As empresas que voltaram hoje recomendam que não seja mencionado o nome delas, porque você sabe como é..., as decisões delas geralmente são tomadas fora daqui. Elas não gostam porque as pessoas ficam preocupadas com o que está acontecendo", comenta.

    Ele diz que os dirigentes locais das empresas ficam 'prejudicados', porque as decisões de abertura ou encerramento das atividades vêm de outros estados ou países, já que boa parte das companhias do Distrito Industrial são marcas multinacionais.

    "Temos entrado em contato com as empresas para saber se elas ainda vão retomar as atividades, porque as coisas pioraram. Por quê? Você anda por algumas partes de Manaus e parece que não está acontecendo nada [de pandemia]. As pessoas nas ruas, os ambulantes normalmente. Parece que está tudo normal", comenta Azevedo.

    Apesar da crítica ao comércio de Manaus, não é só o setor que continua - ou retoma - as atividades. As empresas do PIM têm voltado gradualmente desde a segunda semana de abril, bem no início do pico de coronavírus no Amazonas, segundo o próprio Governo do Estado. À época, o EM TEMPO noticiou a retomada de atividades por parte das companhias.

    Empresas retomam atividades, mas nem todas cumprem medidas de proteção, aponta pesquisa
    Empresas retomam atividades, mas nem todas cumprem medidas de proteção, aponta pesquisa | Foto: Arquivo Em Tempo

    Como voltam?

    Em nova pesquisa também realizada nesta segunda (4), o  Centro da Indústria do Estado do Amazonas (Cieam) registrou o retorno de 13 empresas agora no início de maio. A entidade realizou uma reunião com as companhias, para saber em quais condições elas retomam as atividades.

    Pesquisa mostra adesão de empresas a medidas de proteção
    Pesquisa mostra adesão de empresas a medidas de proteção | Foto: Reprodução/Cieam

    De 14 empresas do PIM, 11 delas voltaram à produção apenas parcialmente. Apenas duas estão paralisadas. Outra empresa, que não foi identificada, está com 100% de atividade. Além disso, nem todas trabalham com as medidas de proteção indicadas por organizações médicas.

    Vítimas da Covid-19 no PIM

    O presidente do Sindicato dos Trabalhadores das Indústrias de Plástico (Sindplast), Francisco Brito , afirma que 80% das empresas do Distrito industrial estão em funcionamento. Ele expressa o medo dos resultados que essa 'normalidade' pode gerar.

    Francisco Brito diz que retorno assusta, porque já morreram trabalhadores do PIM, vítimas da Covid-19
    Francisco Brito diz que retorno assusta, porque já morreram trabalhadores do PIM, vítimas da Covid-19 | Foto: Divulgação

    "Algumas empresas diminuíram a produção, mandaram os grupos de risco para casa e deram equipamentos de proteção para quem ainda está na fábrica. Mas veja, estamos no meio do pico da pandemia. O retorno das atividades nos assusta muito porque nós temos trabalhadores morrendo no Distrito Industrial", afirma Brito.

    Produção sem demanda

    Nelson Azevedo avalia que empresas do Distrito Industrial de Manaus têm adiado a volta das atividades produtivas não apenas pela contenção do novo coronavírus, mas também por conta da falta de demanda, uma vez que o comércio não essencial brasileiro está de portas fechadas.

    "As empresas também tem adiado o retorno não só por causa do coronavírus, mas porque algumas têm bastante estoque ainda. As lojas de revenda estão fechadas e nós aqui da Zona Franca não fazemos produtos essenciais, mas sim os consumos duráveis. E aí as lojas estão reduzindo seus pedidos ou interrompendo novas compras", comenta.

    Empresas acumulam produção, mas não vendem porque o país está parado, diz vice-presidente da Fieam
    Empresas acumulam produção, mas não vendem porque o país está parado, diz vice-presidente da Fieam | Foto: Divulgação

    Segundo Nelson, como não há demanda, as companhias ficam com estoque acumulado. Ele cita que é fornecedor para uma empresa de equipamentos de ginástica, e que ela tem quatro carretas atualmente paradas em Belém (PA), há mais de um mês. 

    "Essa empresa está com as atividades paralisadas, mas em função disso também. Como as lojas não estão abrindo, as pessoas não saem de casa e não tem consumo. Isso é também uma dificuldade para a Zona Franca. Produzimos para o Brasil inteiro, mas o país está parado", comente o vice-presidente da Fieam.

    Amazonas ainda vive o terror da pandemia

    Este mês de maio é considerado o momento de pico da pandemia de coronavírus no Amazonas, que começou na segunda semana de abril, segundo o Governo do Estado. O sistema de saúde está com colapsado desde o mês passado, e novas vagas para pacientes agora só são oferecidas se alguém tem alta ou morre.

    Nesta segunda-feira (5), o Amazonas bateu recorde de novos casos registrados em um dia. Foram 630, totalizando agora 7.313 infectados. No Estado, 53 dos 62 municípios amazonenses agora têm casos do novo coronavírus. As mortes pela doença no Amazonas já somam 585. Foram 37 novos óbitos, de domingo (4) para segunda.

    Até a sexta-feira (2), Manaus estava em segundo lugar no Brasil entre as cidades com a maior taxa de mortalidade. Enquanto na data ainda tinha 290 óbitos por Covid-19, morriam 100,9 pessoas a cada 100 mil habitantes. Os dados são do Ministério da Saúde.