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    Coronavírus


    Aumenta desemprego e cai ofertas de emprego durante pandemia no AM

    Indicador Antecedente de Emprego, que mede novas ofertas de trabalho, tem pior queda desde 2008

    A realidade da crise é apontada pela nova atualização do Indicador Antecedente de Emprego (Iaemp) | Foto: Arquivo/Agência Brasil

    Manaus - A pandemia do novo coronavírus tem afetado diretamente a economia mundial. Um dos principais fatores é a necessidade de distanciamento social, orientada por organizações médicas. Mas se a quarentena é a solução para um problema, por outro lado, tem ajudado a potencializar outro. O aumento no nível de desempregados e a menor oferta de emprego durante a pandemia. 

    A realidade da crise é apontada pela nova atualização do Indicador Antecedente de Emprego (Iaemp), da Fundação Getúlio Vargas. O índice que mede a expectativa do surgimento de novas vagas de trabalho teve queda recorde neste mês e saiu de 42,9 para 39,7. É o menor nível desde 2008. O resultado desastroso se repete no número que mede as expectativas da indústria para os próximos seis meses.

    Para formar os dados do Iaemp, a Fundação Getúlio Vargas entrevista empresas de setores da indústria, de serviços, e do consumidor.

    Índice econômico da FGV apresentou queda histórica
    Índice econômico da FGV apresentou queda histórica | Foto: Divulgação

    “Os impactos da pandemia de coronavírus se mostram cada vez mais fortes no Iaemp. O resultado do mês registra um aumento do pessimismo em relação ao mercado de trabalho. Os níveis recordes de incerteza tornam empresários e consumidores cautelosos, gerando uma deterioração das expectativas nos próximos meses”. A avaliação é de Rodolpho Tobler, economista do Instituto Brasileiro de Economia da FGV, em nota de apresentação dos dados.

    Mas se, por um lado, a pesquisa mede a falta de novas vagas no mercado, por outro também copila dados de desempregados. Os números ficam a cargo do Indicador Coincidente de Desemprego (ICD), que subiu de 5,9 para 98,4 pontos, em abril. No caso deste medidor, quanto maior o número, pior o resultado.

    Sine Manaus também registra queda

    Até mesmo o Sistema Nacional de Emprego em Manaus (Sine) registrou queda no anúncio de novas vagas de emprego por parte das empresas. Na primeira quinzena de março, a sigla diz ter conseguido ainda aproveitar muitas oportunidades que foram disponibilizadas.

    "Alcançamos 68% do número de vagas oferecidas em janeiro e 86% em fevereiro. Foi menos do que o total oferecido nos outros meses, mas ainda assim a queda não foi tão grande. No dado mês, atingimos 145% de taxa de aproveitamento de vagas. Mas ainda assim, devido à pandemia de coronavírus, 92 vagas que iriam ser disponibilizadas foram  suspensas por tempo indeterminado'', comenta Letícia Siqueira, diretora do Sine Manaus.

    Diretora já participou de matéria no EM TEMPO, onde deu dicas para conseguir emprego
    Diretora já participou de matéria no EM TEMPO, onde deu dicas para conseguir emprego | Foto: Wesley Paiva/Sine Manaus

    A diretora da entidade já participou de uma matéria no EM TEMPO, onde falou sobre como arrumar emprego na quarentena. Na entrevista, Letícia forneceu as principais dicas do que as empresas buscam agora, durante a pandemia.

    Sem emprego e sem benefício

    Apesar da pandemia do novo coronavírus ter sido a principal causadora para um afundamento da economia global, inclusive do Brasil, o desemprego já estava aumentando no País antes da doença chegar em solo brasileiro. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), entre dezembro de 2019 e fevereiro de 2020, o Brasil registrou uma queda de 11,6% no desemprego. Até aquela data, eram 12,3 milhões de pessoas sem emprego no País. Agora, o número já chega a 13,9 milhões, segundo o mesmo órgão. 

    Gleidisom Araújo, 25, é um desses recém-desempregados. Ele foi desligado da empresa ainda no mês de março, no mesmo período em que os primeiros casos de coronavírus foram registrados no Amazonas. 

    "Eu sou engenheiro de produção e trabalhava como técnico de aplicação no departamento de vendas de uma multinacional da Zona Franca. Antes de mim, cerca de uma semana antes, alguns estagiários e um técnico também foram demitidos. Esses são os que eu sei", comenta ele, sobre redução no quadro da empresa onde trabalhava.

    Araújo conta que após a demissão, já no meio da pandemia, enfrentou um verdadeiro desafio para conseguir receber o Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS) e o seguro-desemprego. 

    Agências de Manaus têm apresentado aglomeração durante a pandemia
    Agências de Manaus têm apresentado aglomeração durante a pandemia | Foto: Andreza Souza

    "Depois de dois meses que eu consegui sacar meu benefício. A situação aqui em Manaus está complicada nas agências da Caixa. Eu fui várias vezes, mas dava a hora do banco fechar e eu não conseguia ser atendimento, dada a superlotação", afirma Gleidisom.

    Ele conta que tem conseguido se manter com uma pequena empresa de rastreamento de veículos que ele montou com Karol Ramos, 26, estudante de pedagogia e esposa de Gleidisom. Ela, por sinal, também está em uma situação complicada no emprego. Foi mandada para casa de férias, mas não recebeu o pagamento do recesso. E agora, quando retornou, teve o contrato de trabalho suspenso, conta Gleidisom. Ele diz que a esposa agora está procurando conseguir o auxílio do governo que paga parte do salário de trabalhadores. 

    Casal tem enfrentado juntos a nova realidade da pandemia
    Casal tem enfrentado juntos a nova realidade da pandemia | Foto: Reprodução

    Durante todos esses acontecimentos, Gleidisom ainda perdeu a avó de 71 anos e um tio com 50 anos. Ambos para o novo coronavírus. Sobre todo o contexto de pandemia, o jovem faz uma crítica. 

    "Infelizmente vivemos em um País onde as pessoas demoram para perceber a seriedade da crise. Até o governo, percebo que caminha a passos largos e sem uma coordenação muito séria e efetiva para lidar com todos os pontos dessa crise", diz ele.

    Sem condições de estender o emprego

    Quem também ficou sem poder trabalhar foi Isabella Lopes, 22, estudante de comunicação. Ela estagiava em uma empresa de comunicação de Manaus e tinha um contrato que encerrou neste mês de maio.

    Desemprego está, atualmente, em 12,9 milhões, segundo o governo federal
    Desemprego está, atualmente, em 12,9 milhões, segundo o governo federal | Foto: Agência Brasil

    "Eu entrei em setembro de 2019 e tinha um contrato de estágio que encerrou esse mês. O que me disseram foi que não poderiam renovar meu estágio, porque já estou me formando e que também não poderiam me contratar, pois não teriam condições de me manter, dada a crise", comenta a jovem.

    Para conseguir sobreviver, ela diz que tem recebido ajuda dos pais. Sobre a preocupação com seu futuro, ela diz estar bastante preocupada. 

    "Não faço ideia do que pode acontecer no meio de tantas incertezas, mas espero que novas oportunidades possam surgir", diz Isabella. 

    Ficou doente? Demissão

    Wendell Marques, 24, trabalhava como gerente de estoque em uma loja de pneus de Manaus e  se junta a outros casos de quem foi desligado do emprego durante a pandemia. O jovem teve a sua demissão anunciada no dia 1 de maio, Dia do Trabalhador.

    "Eu estava com sintomas de gripe e precisei me ausentar do trabalho para ir ao médico. Depois de ser diagnosticado com uma síndrome gripal, recebi um atestado de 14 dias do emprego. Quando retornei, meu chefe me chamou para conversar e disse que não tinha gostado daquilo. De eu ter me ausentado por duas semanas, mesmo por questões de saúde", lembra Wendell.

    Ele diz que no mesmo dia o chefe dele disse que iria demiti-lo. Que "não poderia mais continuar com aquilo", de ter um funcionário gripado e ao mesmo tempo que tinha ficado duas semanas de atestado. E assim Wendell deixou um trabalho após dois anos para se juntar a outros novos desempregados que já se amontoam no Brasil.