Feiras de Manaus


Feirantes em Manaus adaptam-se a tempos da pandemia

Alguns feirantes já estão no seguimento há mais de 30 anos e a profissão veio como herança de família, através de pais e irmãos, passando por gerações

A função de peixeiro é uma das figuras mais populares em meio aos feirantes
A função de peixeiro é uma das figuras mais populares em meio aos feirantes | Foto: Lucas Silva

Manaus - Dia 25 de agosto é o Dia nacional do Feirante, uma das profissões mais antigas do mundo e um dos pontos famosos da capital amazonense, inclusive turística, é justamente onde esses trabalhadores atuam e são essenciais: a área da Manaus Moderna, no Centro,  onde ficam localizadas as feiras mais movimentadas da cidade: a Feira Moderna da Banana, o Mercado Municipal Adolpho Lisboa e a Feira Coronel Jorge Teixeira, popularmente conhecida como Feira da Manaus Moderna.

Só nesta última, estão cerca de 900 permissionários vendendo frutas, verduras, peixes, carnes e outros itens alimentícios, abastecendo desde as grandes redes de supermercados locais e o público em geral.

Mercado Adolpho Lisboa é muito frequentado pela população local, para a compra de produtos fármacos e naturais
Mercado Adolpho Lisboa é muito frequentado pela população local, para a compra de produtos fármacos e naturais | Foto: Lucas Silva

Durante a pandemia, assim como em outros seguimentos, alguns dos feirantes tiveram que se adaptar ao momento para continuar vendendo e começaram oferecer o serviço de delivery, como é o caso de Mara Garcia, 51 anos, que trabalha há 12 anos vendendo produtos naturais, como folhas e óleos medicinais, no Mercado Adolpho Lisboa.

Ela conta que no período de pico da pandemia, conseguiu se adaptar para continuar seu trabalho, mas que os preços dos produtos chegaram a aumentar exacerbadamente.

"Eu tava fazendo entregas. Meu filho ficava aqui na banca e eu ia entregar. A clientela aumentou por causa disso. Um problema foi o aumento dos preços, no início, principalmente, os produtores aumentaram muito os valores e era difícil para vender, um maço de jambu que era R$5 passou a ser cobrado R$25. Eu ficava sem o produto mas não vendia por um preço absurdo. Hoje, a gente já consegue comprar e vender por um preço justo, mas, ainda um pouco acima do que era antes dessa pandemia começar", relata a feirante.

Mara é Técnica em Enfermagem e começou a trabalhar no Mercado para ajudar a mãe, que não podia ficar na banca em um certo período. Desde então, ela nunca mais trabalhou com sua primeira profissão e hoje também, conta com a ajuda do filho.

Mara desistiu de ser Técnica de Enfermagem, após precisar cuidar da banca para a mãe, há 12 anos
Mara desistiu de ser Técnica de Enfermagem, após precisar cuidar da banca para a mãe, há 12 anos | Foto: Lucas Silva

Veterano no ramo

Um dos veteranos do lugar é Raimundo Mendonça, 54 anos. Ele trabalha no Mercado há mais de 30 anos e há cinco, conta com a ajuda da esposa, Marlúcia Monteiro, 55 anos. Ele começou a trabalhar por causa do irmão, que tinha uma banca no local e ofereceu a ele. 

"O irmão dele trabalhava aqui e tinha duas bancas, aí passou uma para ele e foi juntando dinheiro para comprar o material para trabalhar. No começo ele vendia goma e tucupi, aí depois, foi colocando outros produtos, que as vendas foram melhorando e deu para investir. Pudemos comprar castanha, queijos. Durante a pandemia tivemos muito prejuízo por conta dos queijos, que estragam rápido. O movimento era muito devagar e foi difícil", conta Marlúcia.

Ela explica que as bancas tiveram que ficar fechadas por cerca de uma semana até que a Prefeitura de Manaus autorizou a abertura do local, com o horário reduzido. Aos poucos, eles foram conseguindo recuperar o ritmo das vendas, que é a única renda da família. Depois que o local foi autorizado a funcionar no período integral, os consumidores começaram a retornar para realizar as compras.

Profissão desvalorizada

Feirante há 30 anos e com uma banca de frutas na Feira da Banana há seis anos, Manoel de Araújo, 64 anos, conta que durante esse período a movimentação no local e as vendas não sofreram tanto, por se tratar de produtos essenciais. Ele explica que, como feirante, se sente desvalorizado pela população.

"Comecei a trabalhar em venda de feiras, de frutas, verduras, quando eu tinha 13 anos e nunca mais parei, hoje, já não me imagino fazendo outra coisa. Eu sinto que a população não valoriza o feirante, se faltar o feirante muita gente vai sentir falta. A gente batalha todo tempo para não faltar nada, os produtos. Nasci no Careiro da Várzea e aprendi por vontade própria mesmo a vender nas feiras, depois que meus pais morreram", conta o feirante.

Manoel, é feirante há mais de 30 anos e ama a profissão
Manoel, é feirante há mais de 30 anos e ama a profissão | Foto: Lucas Silva

Seu Manoel, conta que os horários são massacrantes, têm que acordar às 3h da manhã, abastecer suas bancas e começam a trabalhar até o fim do expediente, por volta das 17h.

De pai para filho

Madson Lima começou a trabalhar na feira, por causa do pai, também, feirante
Madson Lima começou a trabalhar na feira, por causa do pai, também, feirante | Foto: Lucas Silva

Madson Lima, 28 anos, também, permissionário da Feira da Banana, conta que começou a trabalhar acompanhando o pai, há 10 anos. "A banca é do meu pai, aí eu sempre acompanhei ele para ajudar e hoje já fico mais tempo. O movimento aqui ficou bom. O Centro fechou e as pessoas começaram a vir comprar mais aqui. Mesmo que os preços tenham aumentado, a gente conseguiu equilibrar, porque foi devido à paralisação do transporte fluvial. Não compensa para eles sair do interior e trazer só os produtos sem viajantes nos barcos, aí os preços aumentaram mesmo, foi natural", analisa o comerciante.

Ele lamenta o acontecimento da pandemia, que levou a vida de muitos amigos e parentes, e conta que mantém todas as normas de segurança, para si e para os familiares e feirantes próximos.

Ações da prefeitura

Como forma de combate ao contágio pela Covid-19, a Prefeitura de Manaus, realizou diversas ações de desinfecção e higienização com hipoclorito de sódio nas Feiras da Manaus Moderna. As ações foram realizadas desde o início da pandemia, para evitar a paralisação total do lugar e garantir a segurança dos permissionários. Nos lugares, também foram colocadas informações sobre a importância da utilização do álcool em gel e das máscaras. O serviço de higienização na Feira da Banana é diário, sendo realizado pelo menos seis vezes ao dia.

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