Pobreza e a Pandemia


Pandemia agrava ainda mais quadro de desigualdade social em Manaus

Quadro de desigualdade social já era uma realidade antes da pandemia, mas especialistas observam piora com acentuamento da crise

Para quem já estava desempregado antes da pandemia, a situação só se agravou com a crise | Foto: Lucas Silva

 Manaus – No Amazonas, 45,7% da população vive abaixo da linha da pobreza, com o valor de US$5,5 que, na cotação atual, corresponde a R$ 30,99 por dia, de acordo com dados do último censo, em 2018, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Especialistas explicam como as consequências da pandemia da Covid-19 afetam principalmente os mais pobres e geram um cenário ainda mais preocupante de desigualdade social na capital, Manaus. 

Para quem já estava desempregado antes da onda do novo coronavírus, a situação se agravou com a crise. A doméstica Maria Gorete dos Santos, por exemplo, recebeu o auxílio emergencial, mas tanto ela como o esposo estão desempregados.

“O auxílio nos ajudou muito. Mas o encerramento vai ser difícil para as pessoas que precisam, assim como nós”, afirma Maria.

Segundo o presidente do Conselho Regional de Economia (Corecon), Francisco de Assis Mourão, esse cenário evidencia a desigualdade social durante a pandemia no Amazonas. “As classes mais afetadas foram as C e D, principalmente das pessoas com pouco grau de estudo, que estavam desempregadas antes da pandemia e dependendo de trabalhos periódicos”, declara Mourão.

Apesar do acesso ao auxílio emergencial, que contribuiu para o sustento de mais de 1,2 milhões de pessoas no Amazonas, segundo dados da Controladoria Geral da União (CGU), até o mês de junho, o economista explica que a crise maior ainda irá se manifestar com o fim do benefício.

“Podemos dizer que em janeiro a bomba explode, porque a renda do governo deve acabar, podendo até ser estendida, mas a previsão é essa”, antecipa Mourão.

Com a classe mais afetada, os trabalhadores vivem em um dilema - sair para realizar trabalhos informais e se contaminar ou ficar em casa e não ter como sustentar a família.

Para criar soluções para esse impasse, o pesquisador e professor da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), Wilhelm Alexander Cardoso, acredita que o Governo Federal precisa criar medidas em conjunto com o poder estadual e municipal.

Cardoso ficou conhecido ao publicar um artigo sobre a propagação da Covid-19 no começo da pandemia, ainda em março. “A gente percebe que as políticas públicas estão atrapalhadas. O Governo Federal nega o distanciamento social restritivo que os cientistas recomendam e, assim, consequentemente, o Estado também não cumpre a sua parte para se cumprir essas medidas”, contesta.

No entanto, ele ressalta que não adianta obrigar as pessoas a ficarem em casa sem condições financeiras para comer.

Com a ideia de equilibrar os dois pontos, o pesquisador sugere que o poder público crie situações favoráveis para dar suporte às famílias mais afetadas pela crise, mas sem desrespeitar o distanciamento. De acordo com o pesquisador, quem paga a conta mais cara é a população carente, que depende do Sistema Único de Saúde (SUS), que para ele é bom, porém não suficiente para resolver o problema.

"Com o retorno do mercado, é primordial se capacitar para ter melhores condições de trabalho", sugere Mourão
"Com o retorno do mercado, é primordial se capacitar para ter melhores condições de trabalho", sugere Mourão | Foto: Divulgação

Lockdown x distanciamento social

O distanciamento, sugerido por Cardoso, trata-se de respeitar o limite de distância de dois metros entre as pessoas, com o uso de máscara e evitando aglomeração. Resultando, assim, no fechamento de escolas, universidades, igrejas e todo o tipo de local que ocasione o excesso de pessoas. Já o lockdown é uma medida obrigatória feita pelo Estado, na qual é veementemente proibido o fluxo de pessoas nas ruas.

Para a estrutura econômica, o confinamento restritivo traz prejuízos que podem atrasar o processo de superação.

“As consequências do lockdown são gigantes para a economia. Uma pessoa que trabalha como empregada doméstica em uma casa, por exemplo, vai acabar dispensada, pois os contratantes terão o receio do contágio. Infelizmente, estamos nos deparando com uma política que envolve educação para preparar essa mão de obra para o futuro”, revela o presidente da Corecon, Mourão.

Apesar do retorno das atividades econômicas com restrição, os empregos não voltaram com as mesmas oportunidades de antes e muitos ainda estão sem conseguir trabalhar. Para amenizar as sequelas da pandemia, Mourão dá alguns conselhos.

“No momento, é preciso comprar só o necessário com o auxílio emergencial e buscar programas do governo para requalificação. Com o retorno do mercado, é primordial se capacitar para ter melhores condições de trabalho", relata o economista.

Efeitos na economia local

O economista Wallace Meirelles esclarece por que os efeitos da pandemia local foram imediatos para a classe trabalhadora.

“O Estado do Amazonas é muito desigual. Hoje, 80% do Produto Interno Bruto (PIB) do estado está concentrado em Manaus e uma grande parcela da economia da capital está concentrada no Polo Industrial. Como a nossa economia é interligada à mundial, o impacto é imediato”, revela.

Nesse contexto, a economia pós-pandemia vai demorar para se reerguer, segundo Meirelles. Ele diz que a Zona Franca de Manaus (ZFM) vive em uma condição diferenciada.

Economia pós-pandemia vai demorar para se reerguer, segundo Meirelles
Economia pós-pandemia vai demorar para se reerguer, segundo Meirelles | Foto: Divulgação

“Quando a economia entra em queda, rapidamente entra em crise. Nos últimos meses, a economia nacional voltou a se restabelecer. Agora o Governo Federal precisa trabalhar aliado aos estados e municípios para um grande plano de reestabelecimento da estrutura socioeconômica, pois, se não fizer isso, vamos sofrer muito mais tempo”, analisa o economista.

Para agravar a situação, com a economia em queda, as pessoas passam a sobreviver com menos, por conta do desemprego. Meirelles ainda ressalta que a inflação complica a situação financeira de quem já tem uma renda baixa, além de afetar também a classe média.

Segmentos afetados pela inflação

Segundo a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), a alimentação básica foi o valor que mais subiu no início da pandemia, no mês de abril, por exemplo, como resultado da crise que a pandemia ocasionou em 37 países. Apesar de o Brasil não fazer parte da OCDE, a situação é similar. 

No Amazonas, a cesta básica teve uma variação de 70% em seu valor, no início de outubro, de acordo com o levantamento da Comissão de Defesa do Consumidor da Assembleia Legislativa do Estado do Amazonas (CDC/Aleam). Os produtos mais caros foram itens de higiene pessoal. O creme dental apresentou o maior aumento entre os produtos, com 207,34%.


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