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    Entrevista Especial


    Noruega não tem lastro ambiental para cobrar o Brasil, diz Azevedo

    Vice-Presidente da Federação das Indústrias do Estado do Amazonas (FIEAM), economista Nelson Azevedo fala ao Em Tempo sobre as ameaças de insegurança jurídica que rondam a ZFM e aborda a ingerência internacional com relação a Amazônia. Confira a entrevista:

     Vice-Presidente da Federação das Indústrias do Estado do Amazonas (FIEAM), Nelson Azevedo
    Vice-Presidente da Federação das Indústrias do Estado do Amazonas (FIEAM), Nelson Azevedo | Foto: Arquivo EM TEMPO

    Manaus - Vice-Presidente da Federação das Indústrias do Estado do Amazonas (FIEAM), o economista Nelson Azevedo fala ao Em Tempo sobre as ameaças de insegurança jurídica que ainda rondam a ZFM e aborda também a ingerência internacional com relação a Amazônia. Confira a entrevista.  

    Como sempre, o Governo Federal não dá sossego à Zona Franca de Manaus (ZFM). No último dia 27 reduziu a alíquota de IPI para a produção de jogos eletrônicos. Essa medida afeta a ZFM? 

    Nelson Azevedo – Todas as vezes que o governo reduz as alíquotas do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) ou de qualquer outro imposto incidente sobre importação, principalmente de produtos fabricados em Manaus, o polo industrial é afetado automaticamente. A ZFM foi criada no governo militar para substituir importação. Quando o governo beneficia os produtos importados, gera emprego no mercado externo e tira emprego do nosso polo industrial. Enfim, essa redução de alíquota diminui a competitividade da produção manufaturada localmente e cria cenário benéfico para importação. 

    Na sua opinião, o deveria ser feito para evitar essa prática tão danosa ao modelo ZFM? 

    NA - Essas alterações repentinas criam um cenário de insegurança jurídica, que dificulta o planejamento das empresas e gera dúvidas na cabeça do investidor. Como as decisões em nosso país têm um viés político forte, e nós do Amazonas temos uma bancada parlamentar aguerrida, mas muito reduzida, entendo ser importante a mobilização, sob a liderança do Governo do Estado, Suframa e da bancada do Amazonas, envolvendo os demais governos estaduais e os parlamentares da região Norte, e ao mesmo tempo exigindo que a riqueza gerada em Manaus seja aplicada na região. Assim trocamos o apoio o político para a ZFM e lutamos juntos para exigir mais recursos, os nossos recursos, para a Amazônia. 

    A Amazônia tem sido colocada na berlinda por conta do desmatamento, das queimadas e da política ambiental, sofrendo muita pressão internacional por causa disso. Como os amazônidas podem enfrentar esse conflito? 

    NA - Temos que ficar muito atentos sobre quem pressiona e quais os interesses por trás disso. Países, como a Noruega, não têm lastro ambiental para cobrar nada do Brasil. Países em processo eleitoral usam essa pressão jogando para a plateia eleitoral. E há aqueles efetivamente preocupados porque sabem da nossa importância para equilibrar o clima do planeta. O que devemos fazer é cobrar por esse serviço ambiental. 

    O senhor acha possível ou viável cobrar pelo serviço ambiental para o clima? 

    NA - Não sou especialista no assunto, mas pelo pouco conhecimento que tenho, posso lhe dizer que o carbono fixado ou sequestrado da atmosfera pela floresta, algo em torno de 20 bilhões de toneladas, teria um preço vantajoso na bolsa de carbono, os chamados green bonds. Isso só depende do governo federal. O Japão tem insistido fortemente para comprar esses créditos de carbono da Amazônia. Temos também a alternativa de avançar na formatação do PIB Verde. 

    Como funcionaria o PIB Verde? 

    NA - Esse projeto foi apresentado pelo senador Flexa Ribeiro e aprovado e homologado pelo Presidente Temer. Assim como o PIB medido pela economia ao longo do ano, nós teríamos a somatória de todos os ativos ambientais disponíveis no Brasil em geral e, muito particularmente, na Amazônia. Desse ponto de vista, o Amazonas seria o estado mais rico da Federação. 

    Se é um bom negócio, por que o Brasil não leva adiante? 

    NA - Entendo que isso, na visão de alguns diplomatas, é uma ameaça à soberania brasileira sobre a Amazônia. Entendo diferente, porque os países comprariam os créditos de carbono, e não o território amazônico. Esses créditos seriam utilizados pelos países poluidores no Acordo de Clima. Neste acordo, quanto à soberania territorial, as cláusulas contratuais têm que ficar bem claras para os países envolvidos, ou seja, que não paire qualquer dúvida. 

    Atualmente se fala muito em bioeconomia. Por que todos falam e na prática ninguém faz nada? Qual sua visão sobre isso? 

    NA - A meu ver, o grande problema é a falta de um projeto de gestão da Amazônia, que o Brasil não tem. Como já falou o general Villas-Bôas, “o Brasil nos trata como colônia”. Falta vontade política. Quando Brasil quis ou teve necessidade, criou-se o Pró-Álcool na crise do petróleo nos anos 70. Do mesmo modo foi criada a Embrapa, para o sucesso do agronegócio ou a Embraer, na indústria aeronáutica. Nesses três programas, o Brasil é referência mundial. Portanto, para que isto se torne realidade, o Brasil precisa querer a Amazônia, abraçar a Amazônia, pois a bioeconomia será um dos nossos mais promissores polos industriais da ZFM e a redenção econômica do Brasil. 

    Então você acredita que a biodiversidade será uma das saídas econômicas da região? 

    NA - É só nos lembrarmos que durantes três décadas, com a produção de borracha na Amazônia, contribuímos com 45% do PIB brasileiro e, se tivéssemos feito bioeconomia do látex, ou seja, agregado inovação tecnológica para o beneficiamento local, hoje talvez fôssemos uma nação do Primeiro Mundo. Infelizmente, desde aquela época, o Brasil já estava de costas para a Amazônia. 

    Qual a sua ideia para superarmos essa indiferença do governo federal em relação à Amazônia? 

    NA -Atualmente existe uma grande movimentação nesse sentido. Fala-se muito de bioeconomia da biodiversidade. Até o ministro Paulo Guedes chegou a mencionar a transformação de Manaus em um centro mundial de bioeconomia. Provavelmente, ele deve ter colocado o assunto em segundo plano. Cabe a nós, amazônidas, arregaçar as mangas e irmos à luta. 

    Neste caso, por onde começar? 

    NA - Nesses momentos, baseio-me sem pessoas que reputo com maiores conhecimentos que os meus. Em debate recentemente promovido pela Fundação Getúlio Vargas, o empresário e colega economista Denis Minev defendeu a multiplicação da Embrapa Amazônia Ocidental. Ou seja, a criação de núcleos de prospecção de bionegócios por toda a Amazônia. Afinal, a Embrapa é uma empresa pública integralmente voltada para o mercado. Ela daria suporte de inovação tecnológica para os empreendedores do setor privado, nacionais e estrangeiros, adensamento e diversificação do Polo Industrial de Manaus. 

    E as indústrias atuais seriam aos poucos removidas? 

    NA -Não aceito essa ideia por hipótese alguma. Seguiriam na evolução dos próprios negócios, com a inclusão deste novo polo, que virá a acrescentar às indústrias existentes em sustentabilidade. Já pensou na utilização de algumas fibras vegetais para substituir as fibras de vidro dos celulares e das motocicletas? Que tal substituir o NaOh, a soda cáustica dos cosméticos, por óleos vegetais do açaí, buriti e dendê? 

    Então, em resumo, como você enxerga o futuro da Amazônia? 

    NA - Eu sou um otimista, mas não sou ingênuo. Precisamos apenas fazer mais barulho para acordar o Brasil em seu berço esplêndido. Qualquer país desenvolvido daria tudo para apossar-se desse tesouro biológico e mineral, que é a Amazônia. Se nós nos mobilizarmos, de todas as formas, podemos começar um novo tempo de desenvolvimento com sustentabilidade e prosperidade social. Mãos à obra.

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