Entretenimento


Com a pandemia, setor de entretenimento teve prejuízo de 100% no AM

Há 8 meses com casas de shows fechadas, especialistas preveem recuperação do segmento somente em cinco anos

As consequências foram tão graves, que alguns artistas locais temeram passar fome
As consequências foram tão graves, que alguns artistas locais temeram passar fome | Foto: Divulgação

Manaus – Com a chegada da pandemia da Covid-19, empresas de entretenimento e de eventos foram duramente afetadas em seu faturamento, após seus estabelecimentos serem fechados em Manaus. O setor teve um prejuízo de 100%, segundo a Associação de Entretenimento do Estado do Amazonas (Asseeam). Analistas do segmento e artistas acreditam que a recuperação das perdas só ocorrerá definitivamente daqui cinco anos.

Estabelecido no ramo de eventos há quase dez anos na capital amazonense, o Grupo Stylus foi diretamente afetado pela crise. Em Manaus, mesmo com a pandemia, em agosto de 2020, 24 eventos de formaturas foram realizados. No mesmo período do ano passado, 115 haviam sido celebradas. Ou seja, uma perda de quase 80%, com 91 cerimônias a menos. 

Segundo o gerente de relacionamento do Grupo Stylus, Ronaldo Mendonça, o ramo de eventos, como um todo, foi o primeiro afetado pela pandemia e está sendo o último a conseguir certa normalização. “Acontecimentos como formaturas e bailes são momentos, em sua essência, que geram aglomeração, pois as famílias querem e merecem participar desse dia tão especial com seus formandos”, conta.

Espetáculo "O além da música", no Teatro Amazonas. O local é referência cultural do Estado
Espetáculo "O além da música", no Teatro Amazonas. O local é referência cultural do Estado | Foto: Divulgação/Caio di Biasi

Com as dificuldades, o uso do meio virtual foi uma tática que várias empresas adotaram para não sentir de forma tão cruel os prejuízos e acalmar seus clientes. Os próprios alunos, tomados pela expectativa de vivenciar a formatura, tiveram que se adaptar à nova realidade. Por isso, algumas entidades educacionais realizaram colações online, já outras tiveram que adiar bailes e aulas da saudade.

O Grupo Stylus foi um dos que adotou novas estratégias na internet. “Para enfrentar o momento difícil, onde sequer podíamos abrir o escritório da empresa, lançamos mão, principalmente, dos recursos online. A companhia já possui um portal de atendimento onde o cliente pode acompanhar todas as informações do seu contrato 24 horas por dia e, desde março, os estudantes tinham acesso à empresa por e-mail e WhatsApp, com as comissões de formatura”, detalha Mendonça.

Para realizar o sonho dos alunos, a empresa - em parceria com as instituições - tem realizado colações presenciais com dois a três convidados por formando, evitando grandes aglomerações. Já nas faculdades, as aulas da saudade estão voltando gradualmente. “Sem dúvida está longe de ser o que era no ano passado, pois tudo indica que a normalidade plena só virá quando a vacina sair. Acredito que, só a partir daí, vamos ficar mais tranquilos”, declara o gerente. 

Perdas para os artistas

Os artistas também tiveram que lidar com a crise de frente. Kléber Romão, CEO da produtora de eventos Smart Bureau, possui três empresas no ramo de entretenimento, cultura e comunicação. Todas elas foram severamente afetadas com as medidas restritivas aplicadas pelo poder público.

“Fomos afetados de forma muito cruel, afinal, somos o único ramo de atividade comercial que está impedido de atuar. Estamos há mais de 8 meses com nossas atividades paralisadas, com uma estimativa de prejuízos de R$ 4 milhões. De janeiro a dezembro de 2019, realizamos 83 eventos em Manaus. Neste ano, realizamos apenas 16, dentre eles, os maiores blocos de carnaval da cidade e, desde lá, estamos impedidos de voltar às nossas atividades”, explica Kléber.

Outro local acometido foi a Casa Criativa Vila Vagalume, espaço de encontros culturais em Manaus, que também teve as atividades canceladas por tempo indeterminado. Com a restrição, os artistas, em parceria com o espaço, realizaram uma agenda cultural - transmitida pela internet - com atividades voltadas para diversas linguagens artísticas. Foram realizadas apresentações musicais, oficinas de técnica vocal, aulas de percussão, oficinas de culinária vegana, oficinas de jardinagem, produções e audiovisuais.

Artistas na Casa Criativa Vila Vagalume durante a pandemia
Artistas na Casa Criativa Vila Vagalume durante a pandemia | Foto: Divulgação/Vila Vagalume

O cantor, cozinheiro e produtor audiovisual da Vila, Andreas Dominique, explica que a divulgação permitiu que as pessoas tivessem acesso ao trabalho dos artistas e contribuíssem para a manutenção deles. “O projeto foi essencial para que conseguíssemos sobreviver durante esse período em que nós estávamos impossibilitados de desenvolver nossos trabalhos da maneira que fazíamos antes”, revela.

Para a cantora, compositora e poeta, Marcela Paiva, outra artista da Casa, parar com o trabalho foi uma prova. “Passar pela pandemia com nove artistas, que vivem e sobrevivem da arte que fazem, foi um processo muito difícil e dolorido. A Vila Vagalume é um espaço cultural que fomenta a cultura em Manaus e ela lida diretamente com pessoas, de forma presencial”, destaca.

As consequências foram tão graves, que os artistas temeram passar fome. O grupo não tinha condições financeiras de custear o aluguel, quitar a água e a energia elétrica. “Uma das dificuldades que mais nos afetou foi o medo da fome e de ficarmos sem teto, já que a ordem de despejo já se anunciava. O desespero foi imenso. Isso fez com que tivéssemos a iniciativa de arriscar buscar outra morada. Que acabou por nos abrir novos caminhos, com novas possibilidades de sobrevivência”, desabafa Marcela.

Tentativa de driblar a crise

A jornalista e produtora cultural, Wanessa Leal, atua no cenário cultural da capital amazonenses há mais de dez anos, nas mais diversas linguagens artísticas. Com a dificuldade deste ano atípico e com o cancelamento da festa de réveillon na cidade, ela sugere que os artistas façam contratos com empresas ou órgãos estaduais e municipais para prestarem algum serviço no final do ano.

Um dos eventos produzidos pela Wanessa Leal antes da pandemia; na fotografia estão Poeta Thiago de Mello, pai e filho, no espetáculo Amazônia Subterrânea
Um dos eventos produzidos pela Wanessa Leal antes da pandemia; na fotografia estão Poeta Thiago de Mello, pai e filho, no espetáculo Amazônia Subterrânea | Foto: Divulgação/Juliana Rosa

“Recorrer aos eventos particulares com público extremamente limitado, e aqui me refiro a um recorte de espaços culturais e casas de shows de eventos que possuam a mínima estrutura para promover determinado episódio cultural - como shows musicais, por exemplo - dentro do respeito aos protocolos de segurança e saúde, pode ser uma forma de amenizar os impactos da crise”, indica a jornalista.

Wanessa luta pelo debate e implementação de políticas públicas culturais para o município e para o estado, por meio do movimento Mobiliza Cultura Amazonas, em parceria com outros colegas e trabalhadores das mais diversas linguagens e expressões culturais. Para se adaptar à nova realidade, ela tem estudado empreendedorismo, economia criativa, produção cultural e novas tecnologias de informação.

Expectativas

Segundo o presidente da Associação de Entretenimento do Estado do Amazonas (Asseeam), Evandro Almeida Junior, o prejuízo no setor foi de 100% com a pandemia. Em setembro de 2019, a associação possuía cinco casas de shows abertas, com eventos todos os dias da semana, ou seja, uma média de 30 eventos no mês. Com oito meses sem nenhum evento, a Asseeam perdeu duas casas pelo custo alto do aluguel e outras despesas.

“Vai demorar uns dois ou três anos para recuperar o prejuízo se der tudo certo na retomada, que acho muito difícil. Vamos começar, praticamente, do zero, e já tem um mercado clandestino funcionado na cidade. Mandamos um projeto para o Governo do Estado para fazer alguns eventos na Arena da Amazônia, com protocolos de distanciamento, usando apenas 10% da capacidade e estamos aguardando resposta”, informa o presidente.

Projeto para apresentações culturais no espaço externo da Arena da Amazônia
Projeto para apresentações culturais no espaço externo da Arena da Amazônia | Foto: Divulgação/Asseeam

De acordo com o economista Ailson Rezende, a completa recuperação da área deve ir além de três anos. “As previsões dos analistas de mercado esperam que o setor de entretenimento deve se recuperar somente nos próximos cinco anos. Mas a forma de apresentação deve mudar, com o uso das plataformas digitais, como os streamings, nossos artistas locais podem usá-los, sem necessidade de baixar conteúdo para assistir o evento, ou outras formas de apresentação remota”, salienta.

O economista ainda dá exemplo de prejuízo gerado com o isolamento social. No festival de Parintins, cinco mil empregos eram gerados diretamente com o evento, revelando ganhos reais mais elevados que a média nacional. Com o cancelamento dessa renda, o trabalhador e o comércio acabaram prejudicados.

Já para o economista e presidente do Conselho Regional de Economia (Corecon), Francisco Mourão Junior, será necessário o uso da criatividade e recursos tecnológicos para sair da crise. “Em São Paulo, alguns shows eram realizados dentro do carro. Ao entrar no estacionamento, era preparado toda uma estrutura para assistir às apresentações. Essa seria uma das opções, mas o momento é de cautela e planejamento", finaliza.

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