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    Restaurantes


    Na pandemia, pizzarias driblam a crise com entregas a domicílio no AM

    Proprietários afirmam que o delivery foi a saída para manter os negócios, sendo capaz até de gerar um crescimento para o setor

    Donos de pizzarias investiram em atendimento online, por meio das redes sociais
    Donos de pizzarias investiram em atendimento online, por meio das redes sociais | Foto: Divulgação/Artur Jaime Barbosa

    Manaus – Com o primeiro decreto de fechamento dos estabelecimentos na capital amazonense em março, a maioria dos negócios do ramo de serviços de alimentação, como bares e restaurantes, foram prejudicados financeiramente e 54% desses foram obrigados a demitir seus funcionários, segundo pesquisa da Universidade do Estado do Amazonas (UEA). Mesmo em meio a crise pandêmica, proprietários de pizzarias em Manaus revelam crescimento nas vendas com auxilio do delivery.

    Essa foi uma das estratégias que o proprietário da Loppiano Pizza, Rogério Cunha, adotou. Há 26 anos no mercado, a pizzaria já oferecia o serviço de entrega, porém, somente a partir das 16h. Com a pandemia, o estabelecimento passou a estender o horário, desde às 11h, afim de alcançar os clientes no almoço. O restaurante também ampliou o atendimento para o meio virtual, com o fornecimento do cardápio e pedidos pelo WhatsApp.

    Segundo Rogério, optar por expandir o serviço de entregas reparou os prejuízos. “De imediato, tivemos que reduzir a equipe ao máximo. O delivery cresceu bastante e foi suficiente para equilibrar as contas. Tivemos que arcar com alguns salários, dar férias para outros. Fomos afetados pela falta de faturamento do restaurante por três meses, mas, boa parte, foi compensado pelo acréscimo do lucro do delivery. Não é que compensou totalmente, mas amenizou o impacto”, revela.

    A Loppiano Pizza realizou uma reinauguração, com lançamentos no cardápio, quando o estabelecimento foi reaberto
    A Loppiano Pizza realizou uma reinauguração, com lançamentos no cardápio, quando o estabelecimento foi reaberto | Foto: Divulgação/Tcheury

    Sem reduzir o quadro de funcionários durante os 26 anos de existência, antes da pandemia, a pizzaria possuía 54 empregados e agora está 44, graças ao delivery, que registrou um crescimento de 70% em relação ao atendimento físico. Após a liberação da reabertura depois de três meses fechado, o dono também utilizou outra tática.

    “Entendemos que a reabertura seria como uma reinauguração. Contratamos uma consultoria de alguns chefs de Manaus para montar quatro novos sabores, com rótulos novos na carta de vinho. Procuramos criar essa diferenciação, dentro dos protocolos de segurança. Comunicamos toda essa mudança aos clientes pelas redes sociais”, conta Rogério.

    Para não ficar totalmente no prejuízo, o proprietário da Cantina Ghiotto, Fábio Cunha, também aderiu ao serviço de entregas. Além de dono do estabelecimento, Fábio é presidente da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel) e confirma a ascensão das pizzarias em Manaus.

    “Realmente teve um aumento nas pizzarias, mas cada uma oferece um resultado diferente. É preciso ter técnica e cuidados com a manipulação dos mantimentos. O setor de alimentação fora do lar tem uma porta de entrada muito fácil. As pessoas, que foram demitidas, acabaram aderindo à ideia, mas com uma falsa imagem de que é um trabalho que ganha dinheiro rápido e facilmente. Para se obter lucro, tem que trabalhar muito. Nesse ramo, estamos quase 24 horas no trabalho e sem férias”, descreve Fábio.

    Com 17 anos no mercado, a Cantina Ghiotto oferece pizzas e pratos com toque regional, valorizando os ingredientes locais, como tucumã, por exemplo. Apesar do diferencial, a crise repentina surpreendeu e afetou empresas consolidadas. “Vi pizzarias fechando, uma delas com mais de 30 anos. O conselho que dou para quem está começando um negócio é buscar associações como a Abrasel para ter uma orientação técnica para o seu empreendimento”, aconselha o presidente da associação.

    Para ter um fornecimento de entregas de qualidade e deixar de sentir os efeitos negativos que a pandemia provocou, Fábio diz que é preciso ter um bom relacionamento com os entregadores, dominar os aplicativos com propriedade, saber administrar a mídia social e todo o processo da elaboração da pizza até a escolha da embalagem.

    Quem já tinha o foco no delivery não sofreu tanto para manter os negócios, como é o caso da Kingston Food. O gerente administrativo da pizzaria, Alvin Enrique Serrano, explica que houve uma intensificação nas vendas por aplicativo. Além dos pedidos online, eles fizeram investimento em publicidade, branding e qualificação dos funcionários. “Com as mudanças, os clientes reagiram positivamente através das nossas redes sociais e dos aplicativos pelos quais atendemos”, destaca Alvin.

    A partir do dia 1º de dezembro, restaurantes voltam com horário estendido
    A partir do dia 1º de dezembro, restaurantes voltam com horário estendido | Foto: Divulgação/Artur Jaime Barbosa

    Por já atuar no ramo de entregas, não foi necessário reduzir o quadro de servidores, pelo contrário, houve crescimento, de acordo com o gerente. Com sete funcionários ativos, a Kingston é um negócio familiar, com o conceito artesanal, sem ponto físico. Em contrapartida, o maior risco foi para os entregadores. “Mesmo assim, os nossos entregadores e funcionários sempre usaram os equipamentos de proteção individual para trabalhar e fazer as entregas sem nenhum contratempo ou risco durante as interações com os clientes”, destaca.

    Negócio no começo

    Para quem já estava há anos no mercado de alimentos, a crise foi um desafio, ainda mais para as empresas que estavam começando. Foi o caso do Ponto do Rodízio, com apenas três meses de existência antes do início da pandemia. Como o próprio nome revela, o foco da pizzaria era 100% voltado para rodízio.

    Nesse momento, a adaptação do fornecimento do serviço fez a diferença para o estabelecimento prosseguir com sucesso. “Nossa pizzaria era muito nova quando a pandemia chegou. Tivemos que reduzir o quadro de funcionários, o nosso foco era rodízio, então passamos a investir no delivery. A gente deu um salto, cresceu muito, porém, com a reabertura, a entrega diminuiu. O valor dos insumos aumentou também”, confessa o proprietário, Ary Renato Oliveira Filho.

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    A estratégia foi muito boa, pois diante do cenário econômico desfavorável e driblando a crise, foram mantidos os empregos e a renda, além de abrir vagas de trabalho para os entregadores autônomos "

    pontua o, economista Ailson Rezende.

    Antes do colapso, o estabelecimento tinha 15 empregados. Com o corte, hoje possui sete. Segundo o dono, com as entregas, além de salvar a pizzaria, houve uma contenção de gastos. “No rodízio, tínhamos bebida liberada e um funcionário só para servir, então, acabamos economizando. Para aumentar as vendas no delivery, montamos combo com lasanha e outros pratos, o que não havia antes da pandemia”, completa.

    Especialistas

    O economista Ailson Rezende confirma a eficácia do serviço. “Os serviços de delivery já vinham sendo explorados, mas a procura por alimentos prontos e entregues em casa explodiu com o isolamento social, imposto pela Covid-19. As empresas que estão neste segmento foram obrigadas a se modernizarem, criando ambientes seguros para pagamentos online e garantindo a entrega no menor tempo possível”, admite.

    Além de aprovar o método como uma maneira de se adaptar ao cenário, Ailson sugere a adequação dos preços. Mesmo assim, considera o aumento no preço dos ingredientes. “Para um crescimento maior, o segmento de alimentação deveria manter preços acessíveis às classes C e D, que possuem renda mais baixa. Infelizmente, os itens que compõem os pratos oferecidos também tiveram aumento com a pandemia, dificultando a oferta de alimentos prontos com preços baixos”, explica o economista.

    Segundo o economista Martinho Azevedo, diante da pandemia, os setores comerciais foram obrigados a usar a criatividade para conseguir vender, se fortalecer para não falir. “Na verdade, todos os ramos de negócios estão se reinventando no sentido de buscar soluções para atender seus clientes, seja pelo serviço delivery ou mesmo através da venda programada”, pontua.

    Decretos

    O Decreto nº 42.099, de 21 de março de 2020, promulgado pelo governador do Estado, Wilson Lima, foi o primeiro a determinar o fechamento de bares, lanchonetes, restaurantes e praças de alimentação no Amazonas durante 15 dias. Havia uma liberação apenas para serviços de entrega a domicílio.

    A segunda determinação do Governo do Amazonas foi anunciada no dia 24 de setembro, com o Decreto nº 42.794/2020, suspendendo o acesso às praias, balneários, eventos, casas de shows e com a redução de horário dos bares e restaurantes até o dia 26 de outubro. Porém, com o aumento dos casos da Covid-19 no Estado, a ordem foi estendida até a última sexta-feira (27). 


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