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    Inflação no Natal


    Ceia natalina pode sair até 20% mais cara em Manaus

    Na capital amazonense, a cesta básica sofreu um aumento de 8,49% no preço em novembro em relação ao mês anterior

     

    Com o peso no valor da cesta básica, a ceia de Natal dos amazonenses deve sair mais cara
    Com o peso no valor da cesta básica, a ceia de Natal dos amazonenses deve sair mais cara | Foto: Vanessa Lemes

    Manaus – Com o ano atípico, as comemorações tradicionais do fim de ano, como o Natal, devem ser afetadas com a inflação. Em novembro, o preço da cesta básica em Manaus ficou 8,49% mais caro em relação ao mês de outubro, segundo levantamento feito pela Comissão de Defesa do Consumidor da Assembleia Legislativa do Estado do Amazonas (CDC/Aleam). Especialistas do ramo de ceias natalinas avaliam um aumento de 20% no preço dos ingredientes para o banquete tradicional.

    Ainda de acordo com a pesquisa sobre os alimentos básicos, a farinha de mandioca, o feijão carioca, o ovo e o frango foram os alimentos que mais encareceram. Em outubro, a cesta com alimentos básicos custava, em média, R$ 228,75. Já em novembro, passou para o valor de R$ 248,18. A análise foi realizada em dez supermercados de Manaus, dos dias 9 a 11 de novembro.

    O gastrônomo Rômulo Moreira sentiu esse aumento no bolso. Graduado em Gastronomia desde 2018, de lá para cá, Moreira tem sido contratado para preparar menus para aniversários, confraternizações e festas de fim de ano. Como está sempre de olho nos preços dos ingredientes, afirmou estar cada dia mais chocado com a alta no preço dos produtos alimentícios.

    “A ceia tradicional teve aumento, inclusive, em ingredientes básicos como no óleo de soja, tomate, batata e até nas carnes bovinas e suínas. Esse ano teremos tudo mais inflacionado. Acredito que a ceia de Natal de 2020 seja 20% mais cara do que no ano passado”, calcula o gastrônomo.

    Normalmente, Moreira realiza um cardápio para a data natalina com rabanadas de entrada, peru, tender e salada de bacalhau como pratos principais e a taça da felicidade e opções de frutas como sobremesa. No entanto, por conta da crise econômica e sanitária que a pandemia ocasionou, ele acredita que tudo será adaptado.

    “Em partes, acredito que as numerosas famílias optaram por uma celebração mais intimista. Por conta da pandemia, muitas pessoas vão evitar enfrentar mercados lotados ou não vão querer pesquisar em muitos lugares. Nesse caso, a opção é sempre o serviço por encomenda. Os pequenos negócios são essenciais por terem esse um trato mais diferenciado com os clientes”, revela Moreira sobre como serão direcionadas as entregas de seu serviço.

    Na foto, o gastrônomo Rômulo Moreira em um menu degustação para o Natal
    Na foto, o gastrônomo Rômulo Moreira em um menu degustação para o Natal | Foto: Divulgação

    No ano passado, o profissional estava a todo o vapor com o trabalho desde outubro, quando as empresas começavam a realizar as confraternizações para encerrar o ano. Em dezembro, a agenda estava lotada para atender os clientes em casa. No presente momento, ele está se adaptando, oferecendo seu cardápio e opções por encomenda.

    Outro colega de profissão é o gastrônomo Marcos Paulo Guerra. Experiente como chef de cozinha em três restaurantes, começou a atuar no ramo de montagem de ceias de Natal em 2019, um negócio recente para Guerra, mas satisfatório. “Esse período natalino é sempre bom porque as pessoas não querem perder tempo na cozinha, com isso, o ofício com ceias tem para todos que se dispõem a fazer, sobre o aumento de alguns ingredientes”, conta.

    Diferente do ano passado, o ofício foi afetado pela Covid-19, com poucos atendimentos a domicílio nesta época, e, ainda, o chef terá que incluir essa diferença no valor dos ingredientes. “É notório que esse ano será bem diferenciado. Todos os produtos e materiais para a produção aumentaram o valor significativamente", revela Guerra.

    Segundo o gastrônomo Moreira, no final de outubro do ano passado, os agendamentos para o seu serviço já eram requisitados e quase não havia data
    Segundo o gastrônomo Moreira, no final de outubro do ano passado, os agendamentos para o seu serviço já eram requisitados e quase não havia data | Foto: Divulgação

    Além do mais, o chef terá que colocar no papel a diferença também dos materiais de produção para preparar os pratos natalinos, como o gás, a água e energia. Mesmo achando difícil calcular a diferença no valor da ceia tradicional deste ano em comparação com 2019, ele também prevê um aumento de 20%. Ele também ressalta que houve uma queda na procura pelo serviço em relação ao mesmo período do ano anterior.

    Ceia amazonense

    O estudante Luis Filiphe Fernandes, 18 anos, ajuda seus pais na cozinha, com pratos do dia a dia. Como está sempre em contato com os alimentos, o manaura notou a inflação nos alimentos. “Senti muito o aumento dos preços nos produtos básicos. Os principais alimentos consumidos no Natal, como o peru, o suco de uva e, principalmente, a carne se tornaram os mais impactados por conta desse aumento em Manaus”, destaca.

    Diante dessa realidade, o orçamento familiar, mais ainda para o mês festivo, fica apertado. Em média, a família de três membros gasta mais de R$ 600,00 por mês no supermercado só com a alimentação. Sobre a expectativa da ceia, Fernandes diz que os ingredientes mais caros não chegariam a atrapalhar o momento tradicional, mas que ficaria mais salgado para o bolso.  

    O economista Wallace Meirelles indica substituir alguns ingredientes por outros mais em conta para a população de renda mais baixa conseguir comemorar o Natal
    O economista Wallace Meirelles indica substituir alguns ingredientes por outros mais em conta para a população de renda mais baixa conseguir comemorar o Natal | Foto: Vanessa Lemes

    Fim do auxílio

    Somados às questões sanitárias, com o fim do auxílio, o quadro pode se agravar logo em janeiro de 2021. Segundo o economista Wallace Meirelles, a economia brasileira pouco mudou e vem se deteriorando com a pobreza. “É evidente que essa crise está penalizando, principalmente, os pobres. As classes D e E são as que estão sofrendo muito. A inflação acaba sendo desgastante para as famílias. Nesse momento delicado, o governo não poderia deixar de fornecer o auxílio emergencial ou somar de outra forma, com a ajuda dos empresários”, pontua.

    Com o fim do benefício, a economia local e nacional será negativamente afetada. “A renda é a que segura parte da arrecadação dos tributos, se ela despencar, é evidente que os tributos vão cair, e o déficit vai aumentar. Sem planejamento, o Governo Federal vai ter dificuldade de manter suas atividades. O grande problema é que o mesmo não tem política de inserção daqueles que mais precisam”, critica Meirelles.

    O economista ainda acredita que as classes mais favorecidas deveriam pagar mais tributos para equilibrar a situação econômica. Ele afirma que o sistema tributário brasileiro é regressivo, penalizando os mais pobres e a classe média.

    De semelhante modo, o economista Ailson Rezende confirma esse acréscimo no valor. De acordo com ele, a previsão para a cesta natalina deste ano será de custo elevado, devido aos problemas com a alta do dólar e a diminuição na produção, por conta da pandemia.

    “Certamente, a cesta natalina de 2020 será a mais cara dos últimos anos, uma vez que, dentre os itens da cesta natalina, existem produtos importados e sabemos como o dólar está alto e a falta de produção em função da Covid-19. Os itens mais comuns na cesta são: espumante, panetone, snacks (como queijos, amendoins, azeitonas, torrones, biscoito champanhe), peru, chester, etc, que devem ter seus preços elevados devido a demanda ser maior que a oferta este ano”, detalha o economista.

    Rezende ainda relembra que a redução do auxílio emergencial, de R$ 600,00 para R$ 300,00, causou forte impacto na diminuição do consumo e irá causar maior choque para os beneficiários e para a economia do Estado, quando acabar. Ele também enfatiza que a consequência da inflação depende da classe social do consumidor, de acordo com sua renda.

    “O preço dos produtos é um aspecto muito importante para todas as classes sociais, mas faz a diferença para as classes C e D, que possuem renda menor. A população que compõe essas classes são consumidores exigentes e segue um princípio simples, o produto deve ser “bom, bonito e barato”, complementa Rezende.

    Para economizar

    Somado os fatores, Meirelles indica substituir alguns produtos por outros mais em conta para a população menos favorecida conseguir comemorar o Natal, já que, no Amazonas, os ingredientes são ainda mais caros devido ao peso da logística comprometida.

    Neste sentido, o gastrônomo Rômulo Moreira dá algumas dicas de trocas de pratos na ceia de Natal com o objetivo de diminuir os custos e ser viável realizar um momento especial em família. “É possível encontrar alternativas mais em conta, substituir o peru pelo frango ou abrir mão de produtos importados e optar por nacionais, como na escolha do vinho, por exemplo”, orienta.

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