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    Benefício


    Com o fim do auxílio, 1,2 milhões de amazonenses serão prejudicados

    Somente com a redução do subsídio em setembro, mais de 7 milhões de brasileiros migraram para abaixo da linha da pobreza

     

    No Amazonas, 45,7% da população vive abaixo da linha da pobreza, com R$ 28,57 por dia
    No Amazonas, 45,7% da população vive abaixo da linha da pobreza, com R$ 28,57 por dia | Foto: Lucas Silva

    Manaus - Em decorrência da crise sanitária, mais de 1,2 milhões de pessoas no Amazonas foram aprovadas no cadastro para receber o auxílio emergencial. Só em Manaus, 636 mil pessoas receberam o benefício e deixaram de ganhar com o término da última parcela em dezembro, de acordo com a Controladoria Geral da União (CGU). Economistas concordam que o impacto negativo do corte irá acarretar em mais pobreza no Estado, que já sofre com diversos problemas sociais.

    Somente com a redução do valor do subsídio em setembro, de R$ 600,00 para R$ 300,00, cerca de 7 milhões de pessoas migraram para abaixo da linha da pobreza, com renda menor que US$ 5,50 por dia o mês de outubro. É o que demonstra o estudo do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV).

    No Amazonas, 45,7% da população vive abaixo da linha da pobreza, com o valor de US$5,50 que, na cotação atual, corresponde a R$ 28,57 por dia. Já o limite de pobreza extrema, de 13,8%, sobrevive com o valor de US$ 1,90, ou seja, com R$ 9,87 por dia, com a soma de R$ 296,10 por mês. Os dados são do último censo, em 2018, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

    Uma das beneficiadas do auxílio foi a diarista Angélica Sampaio. Com sete pessoas em casa, a moradora do Grande Vitória, bairro na Zona Leste de Manaus, conta que apenas o esposo trabalha de carteira assinada, porém, está cumprindo aviso prévio. “Sem a ajuda do Governo Federal, vamos ter que economizar mais ainda, pois o maior gasto será com alimentação para cinco crianças”, expõe ela, que faz diárias esporadicamente.

    Com a situação, a família está cogitando ir para o interior do Estado para ficar com o restante da família. Angélica acredita que o governo deveria auxiliar as pessoas com uma renda fixa para cada família que está desempregada por um bom tempo. “Seria bom se a gente tivesse mais ajuda e também oportunidade de emprego para quem precisa, como nós. Muitas pessoas não têm uma chance e ficam fazendo coisas erradas na vida”, desabafa.

    A mãe solteira Aline Simões está desempregada desde o nascimento da sua segunda filha, de 1 ano e sete meses. Morando na casa cedida pela mãe, ela cria suas duas filhas com a ajuda do auxílio emergencial. Com o fim da assistência, a situação ficará ainda mais delicada. “Deixando de receber esse dinheiro, vai ser bem difícil, porque as coisas estão cada vez mais caras. Minha filha usa fralda e tem outros itens que as crianças precisam. Vai fazer bastante falta e dá um desespero só de imaginar”, revela.

     

    O subsídio do Governo Federal foi depositado de abril a dezembro deste ano
    O subsídio do Governo Federal foi depositado de abril a dezembro deste ano | Foto: Reprodução Internet

    Efeitos do fim do auxílio

    Na visão do economista Wallace Meirelles, o auxílio emergencial é visto como uma questão humanitária, de manutenção da vida, ainda mais no momento de crise pandêmica. Para ele, para manter vidas, é óbvio que o Governo Federal acaba gastando. No entanto, esse custo colabora para o social e também é capaz de movimentar a economia.  

    “A manutenção da sociedade é importantíssima. O próprio Governo Federal poderia ter discutido o teto para evitar isso. A gente tem um número grande de miseráveis e pobres, fora que a pandemia também afetou parte da classe média. A demanda agregada enfraquece com o fim do benefício, com a queda no consumo, afetando as empresas, consequentemente, na queda da receita, o aumento dos custos e dificuldades para se manter”, explica Meirelles.

    O economista Ailson Rezende também ressalta os efeitos negativos do corte do subsídio em plena pandemia. “A situação dessas pessoas ficará bem mais complicada, pois o auxílio estava servindo para pagar contas e comprar mantimentos para a manutenção familiar. É importante informar que o auxílio foi concedido pelo Governo Federal às pessoas que não tinham trabalho formal com carteira assinada que, durante esse período delicado, não tinham como gerar renda para seu sustento e de seus familiares”, complementa.

     

    A requalificação no mercado de trabalho pode ser uma das soluções para lidar com o fim da ajuda do governo
    A requalificação no mercado de trabalho pode ser uma das soluções para lidar com o fim da ajuda do governo | Foto: Pablo Jacob

    Possíveis soluções

    De acordo com Meirelles, ao invés do Governo Federal cancelar o benefício, poderia se unir aos poderes estaduais e municipais para ajudar os populares, maiores afetados com a crise pandêmica, com carência de alimentos para sobreviver. “Precisa ter essa união, criando algum sistema de renda momentânea por mais três ou quatro meses para ajudar uma população que é pobre, miserável, sem ter o que comer e nem manter famílias, que são grandes. É preciso ter um pouco de bom senso, mas cuidado com os ortodoxíssimos econômicos e neoliberais que circundam o país”, critica o economista.

    Para Rezende, a requalificação e reinserção da população no mercado de trabalho é uma solução imediata. “O desemprego cresceu e a atividade econômica do país continua em crise. Uma saída é o apoio do governo aos micro e pequenos empreendedores, que estão querendo entrar no comércio virtual, criando ferramentas para o exercício das atividades e mantendo um grupo para orientar e ajudar os novos empresários do mundo virtual”, ressalta.

    Pensamento semelhante sobre a união dos poderes e a requalificação para gerar renda tem o economista Origenes Martins. Ele articula que os governos deveriam criar programas de ativação da produção, gerando renda e emprego. Dessa forma, os impactos na economia e para a sustentação das famílias amazonenses diminuiriam.

    “Logicamente que, para atingir este objetivo, precisa haver a parceria com o Governo Federal e, principalmente, a boa vontade do Congresso Nacional, que ultimamente tem colocado suas prioridades de maneira um tanto estranha. Mas é fundamental que seja feita alguma coisa para estimular a produção e a renda”, enfatiza Martins.

     

    Projetos foram implantados pela Prefeitura de Manaus para ajudar a população durante a pandemia
    Projetos foram implantados pela Prefeitura de Manaus para ajudar a população durante a pandemia | Foto: Marcello Casal Jr./Agência Brasil

    Ao ser sondada sobre como a Prefeitura Municipal de Manaus poderia contribuir para que as famílias não fiquem desassistidas, em nota, a assessoria de comunicação informou que outros projetos já foram implantados durante o agravamento do novo coronavírus.

    Segundo os assessores, a prefeitura tem concedido auxílio às famílias em vulnerabilidade social, por meio de programas como o “Nossa Merenda”, que beneficia as famílias dos mais de 240 mil alunos da rede municipal com vale-alimentação, em cartão magnético.

    Além desse plano beneficente para os estudantes, a prefeitura também implantou o “Abraço Solidário na Pandemia”, que contou com a ajuda do governo da França para distribuir mais de 15 mil cestas básicas. E também o “Bolsa Auxílio Emergencial”, no valor de R$ 300, disponibilizado nos meses de pico da pandemia para 1 mil comerciantes permissionários do projeto “Viva Centro Galerias Populares” e para 274 catadores que atuam nos projetos de coleta seletiva da Prefeitura de Manaus.

     “Vale destacar que, além dos programas, a prefeitura também publicou decretos prorrogando a cobrança de dívidas com o município e suspendendo o corte no fornecimento de água e esgoto para consumidores inadimplentes, durante a pandemia”, declara a assessoria.

    Crise sanitária

    Segundo dados da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), até setembro, o Governo Federal gastou R$ 322 bilhões, dez vezes mais que o Bolsa Família, que corresponde a R$ 33 bilhões por ano. Até dezembro, o gasto ultrapassou os R$ 509 bilhões. O levantamento também informou que os principais gastos dos beneficiados do auxílio foram revertidos na aquisição de alimentos, em itens básicos da cesta básica.

    Apesar dos investimentos para manter as famílias, sobre a vulnerabilidade que a Covid-19 trouxe, o Brasil está atrasado com as medidas, segundo Meirelles. “Nós estamos reduzindo os recursos para a manutenção da sociedade e, do outro lado, esticando o prazo para a vacinação. O Brasil está indo em caminho esdruxulo. Até países com uma menor organização econômica estão mais adiantados do que a gente. Estou muito preocupado porque parece que não há desejo de resolver o problema e atuar consistentemente em uma pandemia mundial”, completa o economista.

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