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    Dívidas


    Manauaras ficam endividados após custos com tratamento da Covid-19

    Segundo pesquisa da BBC, a média da diária em uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI) nos hospitais particulares de Manaus chega a R$ 10 mil

     

    No Amazonas, mais de 11 mil pessoas foram vítimas fatais da Covid-19; do total, mais de 8 mil ocorreram na capital
    No Amazonas, mais de 11 mil pessoas foram vítimas fatais da Covid-19; do total, mais de 8 mil ocorreram na capital | Foto: Divulgação

    Manaus - Desde o início da pandemia, em março de 2020, mais de 11 mil pessoas foram vítimas fatais da Covid-19 no Amazonas. Do total de óbitos, mais de 8 mil ocorreram em Manaus. Com a disseminação dos casos e a necessidade do tratamento, familiares ficaram com dívidas em hospitais particulares da capital e alguns perderam o principal provedor financeiro de suas casas. Segundo advogado, é possível receber de volta o dinheiro, o que pode contribuir com a renda familiar em um momento tão delicado. 

    Na capital amazonense, a angústia de perder um ente querido nessas circunstâncias foi sentida pelo empresário Juarez Luís Coelho Filho, 28. Sua mãe, de 56 anos, ficou internada e lutou contra a Covid-19 durante 24 dias em um hospital particular da cidade, mas acabou não resistindo. Como a família havia contratado um plano de saúde no início de janeiro e poucos dias depois precisou utilizá-lo, houve a necessidade de fazer um depósito no valor de R$ 10 mil como garantia, fora a mensalidade de R$1.500 do convênio.

    Apesar do alto custo, Juarez não considera o que foi gasto como um dinheiro perdido e sim um investimento para dar um tratamento digno à mãe. “Foi um investimento, porque não tivemos que esperar em uma fila, chegamos ao hospital e minha mãe teve todo o suporte que precisava, sem burocracia. Fizemos tudo o que estava ao nosso alcance para que ela se recuperasse”, relembra.

    Diferentemente do empresário, que tinha condições financeiras para oferecer um tratamento à familiar, centenas de histórias demonstram um cenário contrário na capital - com falta de recursos para internações particulares - gerando dívidas às famílias que buscam fazer de tudo para salvar seus entes queridos, sem garantia que o tratamento fará efeito.

    Outra manauara que passou pelo mesmo sofrimento foi Yêda dos Santos, 40. Há quase um ano, ela perdeu o principal provedor financeiro da família, seu marido, de apenas 45 anos. Acometido pela Covid-19 durante a primeira onda da pandemia no estado, tragicamente o esposo da dona de casa veio a falecer. Com três filhos para criar, o companheiro da viúva era quem sustentava a família, como operador de máquinas pesadas, recebendo R$2.100,00. Atualmente, sem sua presença, só o filho mais velho trabalha em uma fábrica no Polo Industrial de Manaus (PIM).

    Para tentar ganhar dinheiro e colaborar com a renda familiar, Yêda sempre trabalhou com serviços temporários - de forma independente - como manicure e pedicure, fazendo crochê e até produzindo e vendendo empadas. “Se não fosse pelo auxílio emergencial, tínhamos passado fome. Mesmo assim, passamos por dias bem apertados, infelizmente”, desabafa. 

    Gastos

    Segundo pesquisa da BBC, a média da diária em uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI) nos hospitais particulares de Manaus chega a R$ 10 mil. Ou seja, se um paciente ficar 20 dias internado, os familiares terão que arcar com o total de R$ 200 mil. Para alguns planos de saúde, se não for respeitado o prazo de carência estabelecido, uma caução se faz necessária.

    É neste cenário, de sair na busca por alternativas para salvar a vida de um familiar, que as famílias acabam se endividando. O economista Origenes Cruz afirma que a medicina particular no Brasil possui valores exorbitantes e, da mesma forma, os planos de saúde, os quais deixam a desejar em sua formulação quando os associados precisam utilizá-los.

     

    Além da dor da perda, essas pessoas precisam se reestruturar em todos os aspectos ao lidar com as dívidas
    Além da dor da perda, essas pessoas precisam se reestruturar em todos os aspectos ao lidar com as dívidas | Foto: Arquivo EM TEMPO

    Cruz também enfatiza que, justamente por não ter definido o tempo de tratamento, fica difícil calcular os gastos totais, o que faz com que famílias de baixa renda acabem perdendo o pouco que têm ao tentar fazer o possível e o ‘impossível’ para salvar um ente querido. “Eu vejo esta situação muito mais como cidadão do que como economista, até por ter passado na prática por esse pesadelo. Muitas famílias se viram envolvidas com dívidas totalmente incompatíveis com sua capacidade de pagamento. No entanto, o desespero pela manutenção da vida de um ente e a falta de crédito no sistema público de saúde nos leva a assumir o risco”, declara.

    De acordo com a economista Socorro Corrêa, o falecimento de um provedor também traz sérios problemas financeiros para uma família a curto e médio prazo. Além da dor da perda, essas pessoas precisam se reestruturar em todos os aspectos. “A queda no poder aquisitivo altera o padrão de qualidade de vida, ocasionando em mudança de escola, redução de planos de saúde, venda de carro, revisão de hábitos alimentares e até mudança de casa. Ou seja, há uma transformação brusca”, salienta.

    E agora, o que fazer?

    Para se reajustar a nova realidade, a economista orienta que os familiares devem fazer uma lista com os cálculos de todos os valores a receber e outra com todas as dívidas. Feito isso, deve-se destacar quais são os pagamentos mais urgentes. A partir desse processo, Corrêa explica que todos os membros da família devem ter conhecimento da situação, para que todos ajudem ao economizar. “A união, o diálogo e o planejamento feito com todos fortalecem as relações nesse momento de perda e crise”, enfatiza.

    Em relação as dívidas em hospitais, para aqueles que trataram algum familiar, Corrêa sugere que os familiares negociem os valores, o prazo, e, se necessário, a venda de um carro ou um bem para quitar. Em último caso, a economista recomenda um financiamento, mas com todos os cuidados e buscando a taxa de juros mais baixa possível.

    Direitos do cidadão

    De acordo com o advogado Illy Soares, especialista em Direito do Consumidor, se o cidadão manauara não foi atendido ao procurar os hospitais públicos e acabou sendo obrigado a assumir uma dívida no particular, o poder público deve ressarcir quem ficou com o prejuízo. “Quando o poder público não cumpre com seu papel, o cidadão pode fazer um requerimento junto ao governo para montar um processo. É preciso comprovar que não foi atendido, ter o documento evidenciando que os hospitais não puderam atender, e solicitar o reembolso. Caso não receba um positivo, pode recorrer à justiça”, esclarece.

     

    O cidadão pode fazer um requerimento junto ao governo para montar um processo
    O cidadão pode fazer um requerimento junto ao governo para montar um processo | Foto: Brayan Riker

    Para quem não tem condições de arcar com as despesas de um advogado, Soares recomenda buscar ajuda profissional na Defensoria Pública ou em algum escritório jurídico nas universidades públicas ou privadas da capital, nos quais os serviços são oferecidos gratuitamente à população. Esse mesmo passo a passo é válido para as situações que envolvem cilindros de oxigênio e medicamentos.

    Nesse processo, o advogado elucida que é preciso comparecer com os documentos e comprovantes, com datas dos dias que o paciente buscou atendimento no setor público de saúde e também com as despesas hospitalares. No entanto, para aqueles que não foram ao público antes de ir ao hospital particular, Soares aconselha dialogar com a administração para tentar parcelar o valor, conforme a realidade do paciente.

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