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    Paralisação


    Em Manaus, concessionárias podem sofrer desabastecimento de veículos

    Com a paralisação de 29 montadoras no país, as concessionárias da capital, que já estão sofrendo com queda nas vendas, agora serão prejudicadas com o desabastecimento

     

    Algumas empresas do ramo apresentaram uma retração de até 70% nas vendas desde o início do ano
    Algumas empresas do ramo apresentaram uma retração de até 70% nas vendas desde o início do ano | Foto: Arquivo EM TEMPO

    Manaus - Desde o mês de março, diversas fabricantes de veículos estão paralisando suas produções devido ao agravamento da Covid-19 no país e à falta de insumos no cenário internacional. Até o momento, 29 montadoras já suspenderam seus trabalhos, segundo a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea). Com isso, não só o Polo Industrial de Manaus é prejudicado (PIM), mas também as concessionárias da capital.

    Funcionários do setor afirmam que as vendas já estavam em queda nos dois primeiros meses de 2021 e agora podem piorar.

    A Volkswagen foi a primeira a anunciar a suspensão. Nos dias seguintes, os anúncios de parada se sucederam. No momento, mais de 60% dos 105 mil trabalhadores diretos do segmento estão em casa. Em relação a fabricação, até 300 mil veículos podem deixar de ser produzidos no Brasil, conforme levantamento da BBC Brasil.

    Anteriormente, em entrevista ao EM TEMPO, os representantes da indústria amazonense deixaram claro como as paralisações - a longo prazo - seriam prejudiciais para o PIM, uma vez que as peças do setor automotivo nacional são confeccionadas por fábricas do polo e enviadas às grandes montadoras do país. Como consequência das suspensões, outro segmento da cadeia será afetado: o das concessionárias.

     

    Em relação a fabricação, até 300 mil veículos podem deixar de ser produzidos no Brasil
    Em relação a fabricação, até 300 mil veículos podem deixar de ser produzidos no Brasil | Foto: Arquivo/Agência Brasil

    Para essas empresas os efeitos serão graduais, ou seja, serão verdadeiramente sentidos na medida em que seus estoques forem chegando ao fim. Contudo, a situação já preocupa os administradores do setor. Um deles é o gerente de uma revendedora de veículos no bairro São Jorge, Zona Oeste de Manaus, Allysson Azevedo, 39.

    Segundo o funcionário, as concessionárias amazonenses já vêm sofrendo desde o início deste ano, com o fechamento de todos os segmentos não-essenciais, para conter a segunda onda da Covid-19 na cidade.

    Nesse período - janeiro e fevereiro - a loja onde Azevedo atua apresentou queda de 50% nas vendas, o que ele salienta não representar o pior cenário, uma vez que outras empresas do ramo tiveram uma retração ainda maior, superior a 70%.

    O gerente conta ainda que, justo no momento em que foi observada uma diminuição no número de casos do novo coranavírus no estado e a retomada econômica para o setor parecia ser uma realidade, a paralisação nacional surpreendeu negativamente. 

    “As concessionárias em geral perdem um volume expressivo de vendas, pois, neste segmento, o cliente faz muita questão de conhecer o produto na revenda, bem como realizar um teste no veículo (Test Drive), que ajuda bastante na decisão de compra. Dessa forma, há um prejuízo pelo menor fluxo de clientes e pela indisponibilidade de alguns modelos”, explica Azevedo.

    Os automóveis da loja que Azevedo administra são fabricados em Piracicaba, no interior de São Paulo. Na concessionária na capital, a empresa possui 55 funcionários, divididos entre os setores de vendas, administrativo e pós-vendas.

    Mesmo com a pandemia, não houve uma diminuição drástica no número de colaboradores. Contudo, a nova realidade pode ocasionar um cenário de desemprego, se prolongada. 

    As paralisações também incomodam Diogo Augusto Maia, 38, sócio proprietário de uma concessionária no bairro Adrianópolis, Zona Centro-Sul de Manaus. Apesar de possuir 50 carros no estoque, o maior receio é que faltem veículos novos e seminovos para oferecer aos clientes.

    Desde o início da pandemia, a loja apresentou queda de 40% nas vendas. Com a retomada das atividades no estado, o medo é que haja outro declínio. “Com a falta do carro novo, as pessoas permanecem com seu seminovo. Você vende bem quando consegue fazer estoque e comprar carros, mas está complicado manter o pátio sempre cheio e com modelos diferentes devido ao fechamento das fábricas”, desabafa Maia.

     

    Desde o início da pandemia, a loja de Maia apresentou queda de 40% nas vendas
    Desde o início da pandemia, a loja de Maia apresentou queda de 40% nas vendas | Foto: Arquivo EM TEMPO

    Mercado

    Assim como no Amazonas, o cenário nacional também contou com retrações nas vendas desde o início de 2021. De acordo com a Anfavea, o primeiro trimestre deste ano apresentou queda de 5,4% nas vendas, em relação ao mesmo período em 2020. Entretanto, na produção, o mês de março foi responsável por um bom resultado, com 197 mil autoveículos fabricados, ou seja, um crescimento de 15,7% se comparado com o mesmo mês no ano anterior.

    A expectativa de recuperação, no entanto, foi barrada pela suspensão das atividades por parte das fabricantes.

    Segundo representantes da indústria, caso a inatividade seja prolongada, o desabastecimento pode trazer consequências graves para a região. O presidente da Federação das Indústrias do Estado do Amazonas (Fieam), Antônio Silva, é um dos que vê a estagnação com certo temor, pois a previsão é que haja uma escassez de automóveis no estado ainda neste primeiro semestre. 

    Além das medidas restritivas para conter o estouro de casos da Covid-19 no país, a falta de materiais para montar os veículos também é outro problema que a pandemia gerou. “O segmento enfrenta ainda uma dificuldade de fornecimento contínuo dos insumos importados, o que também tem impactado substancialmente as atividades produtivas, não obstante a própria retração natural do consumo”, analisa Silva.

    De acordo com o economista Origenes Martins, as dificuldades enfrentadas pela indústria automobilística não são somente as observadas recentemente.

    Conforme o profissional, a atualização tecnológica ocasionou um impacto nas montadoras - com o surgimento do carro elétrico e sua viabilização - somado à instabilidade nos preços dos combustíveis fósseis. Com a pandemia, a revisão de metas se fez necessária e o fechamento de algumas unidades também.

    Com tantos efeitos negativos, as perdas alcançam todos os envolvidos no processo, desde os empregadores até os empregados e consumidores. “Temos o prejuízo dos empregos eliminados, diretos e indiretos, causando problemas maiores na diminuição da renda. Além do declínio nas vendas das empresas periféricas e concessionárias, que dependem diretamente do funcionamento das fábricas", pontua o economista.

     

    Com tantos efeitos negativos, as perdas alcançam todos os envolvidos no processo
    Com tantos efeitos negativos, as perdas alcançam todos os envolvidos no processo | Foto: Arquivo/Agência Brasil

    Martins ainda salienta que, com as fábricas fechadas, a responsabilidade em atender a demanda dos serviços de assistência técnica das unidades vendidas no período anterior recairá sobre as revendedoras, sobrecarregando-as. “É uma situação que muitas não conseguirão suportar”, frisa.

    Efeitos econômicos

    Essa não é a primeira vez que parte da indústria interrompe atividades no país. A paralisação temporária atual já piora a perspectiva para o desempenho da economia brasileira em 2021. As projeções para o Produto Interno Bruto (PIB) já vêm sendo reduzidas desde janeiro, devido ao agravamento da pandemia e ao lento avanço da vacinação.

    No início do ano, a projeção mediana do mercado para o avanço do PIB este ano era de 3,4%, após queda de 4,1% registrada em 2020.

    No boletim Focus do Banco Central mais recente (de 5/4), a previsão de crescimento para 2021 já estava em 3,17%. Nesse cenário, os mais pessimistas apostam em números abaixo dos 3% daqui para frente.

    O economista Wallace Meirelles comenta que essa demora na vacinação gera preocupação nos empresários, investidores e trabalhadores. “Quanto mais tempo a economia permanecer na situação em que está, mais nociva será para diversos setores econômicos, como o automobilístico, e para a sociedade - com a crescente de problemas sociais”, adverte.

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