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    Bate-papo


    'BR-319 irá reduzir as desigualdades entre Norte e Sul', diz Azevedo

    Com a infraestrutura necessária, o vice-presidente da Fieam, Nelson Azevedo, acredita que as desigualdades entre o Norte e o Sul do país podem diminuir

     

    Além da BR-319, Azevedo também discute sobre a privatização dos aeroportos do Amazonas
    Além da BR-319, Azevedo também discute sobre a privatização dos aeroportos do Amazonas | Foto: Brayan Riker

    Manaus - Sempre disponível e permanentemente disposto a conversar sobre as dificuldades e saídas para a Amazônia, o empresário e vice-presidente da Federação das Indústrias do Estado do Amazonas (Fieam) Nelson Azevedo, fala ao Em Tempo sobre as questões prioritárias da economia do Amazonas a partir do ressurgimento da BR-319. 

    EM TEMPO -  O assunto do momento é a notícia de retomada das obras da BR-319. Na sua opinião, desta vez a pavimentação vai acontecer?

    Nelson Azevedo - Pelas obras de infraestrutura já concluídas neste governo, entre outras em andamento, deveria afirmar que sim. Considero, porém, mais prudente dizer talvez. Como diz o povo: “cachorro picado de cobra tem medo de linguiça”.

    Nós já tivemos bem próximos a outros governos em épocas recentes que juraram por todos os Santos que reconstruiriam a estrada... E aí, na última hora alguma ilegalidade era criada. A nosso favor temos um ministro de Infraestrutura, Tarcísio Freitas, muito qualificado, com um histórico de compromisso com nossa região.

    EM TEMPO - Isso significa que viveremos um novo tempo com mais infraestrutura para nossa região?

    Nelson Azevedo - Isso depende de nós. Tenho insistido desde sempre na necessidade de maior união entre nós. Está mais do que provado: toda vez que priorizamos em conjunto os objetivos que beneficiam a todos, o resultado é espetacular. Unidos para valer conquistaremos muito mais nossos maltratados direitos do que possamos imaginar. Esta união deve e precisa se ampliar por toda a região. 

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    Com uma bancada amazônica bem estruturada e focada em interesses regionais comuns, vamos alcançar nossa meta mais importante, que é a redução das absurdas desigualdades entre o Norte e o Sul do Brasil "

    Nelson Azevedo, Vice-presidente da Fieam

    EM TEMPO - Como você analisa a privatização dos aeroportos do Amazonas, abertamente considerada um presente espetacular para os investidores?

    Nelson Azevedo - Consta que os felizardos saíram do leilão rindo de orelha a orelha. Tomara que todos possamos compartilhar os ganhos. O preço do arremate pode ser considerado simbólico, muito embora a empresa vencedora tenha uma folha de serviços bastante robusta no setor aeroportuário. É lamentável, cá entre nós, que as empresas brasileiras não tenham se credenciado.

    EM TEMPO - O Governo Estadual está lançando uma campanha defendendo investimentos no agronegócio. Isso não compromete nossa obrigação constitucional de proteger a floresta?

    Nelson Azevedo - Proteger nosso patrimônio natural foi uma consequência virtuosa da ZFM. Isso não é obrigação constitucional. Entretanto, essa atribuição que nós empresários assumimos acabou se transferindo num argumento fundamental para justificar mais ainda nosso compromisso com a floresta e fazer jus às vantagens competitivas de nossa indústria.

    EM TEMPO - Isso quer dizer que poderemos plantar cana de açúcar e fazer pecuária à vontade no Amazonas?

    Nelson Azevedo - Vamos ver o que diz a Lei. Pelo Código Florestal, podemos e devemos preservar 80% da floresta. O Amazonas preserva mais de 95%, ou seja, teríamos um crédito de aproximadamente 30 milhões de hectares. Entretanto, a decisão de manejar uma área dessa dimensão tem que levar em conta custo e benefício socioambiental de seu aproveitamento.

    Na Amazônia, a ciência recomenda que nós conservemos a floresta em pé. Graças à Embrapa, temos projetos agroindustriais no Sul do Estado com excelentes resultados na modelagem ILPF - Integração Lavoura, Pecuária e Floresta.

    No Amazonas, também já sabemos que, com inovação tecnológica e qualificação de nossos jovens, podemos agregar muito mais valor à biodiversidade, sem precisar desmatar. Além da BR-319, precisamos qualificar os jovens, adensar a indústria e diversificar economia.

     

    "Além da BR-319, precisamos qualificar os jovens, adensar a indústria e diversificar economia", diz Azevedo
    "Além da BR-319, precisamos qualificar os jovens, adensar a indústria e diversificar economia", diz Azevedo | Foto: Divulgação

    EM TEMPO - O ministro Ricardo Salles disse em entrevista na semana passada que vai cobrar US$ 1 bilhão para reduzir 40% do desmatamento. Qual sua opinião a respeito?

    Nelson Azevedo - Na minha opinião, ele foi modesto. O Brasil, nos últimos 20 anos, tem arcado sozinho com o desmatamento. E tudo é caro na Amazônia. Hoje temos satélite para identificar toda a movimentação que vai desembocar em desmatamento, mas não temos recursos para uma operação relâmpago. O deslocamento nesta imensidão tropical é muito oneroso e o Brasil gasta 90% de seus recursos para manter sua gigantesca máquina pública.

    Por isso, enquanto não fizermos uma sólida reforma administrativa, devemos, de maneira organizada e com apoio da mídia, negociar com os países ricos participação financeira mais justa, tanto para evitar o desmatamento como para oferecer alternativas para os nossos irmãos ribeirinhos.

    EM TEMPO - A Coluna Contexto desta semana mostra as receitas da comercialização de produtos da Amazônia no exterior, um total de US$ 300 milhões. Isso é pouco ou muito para a nossa economia?

    Nelson Azevedo - Do ponto de vista das condições precárias de cultivo e colheita dos produtos demandados por outros países, o valor não é desprezível. Mas também não faz milagre. Poderíamos ganhar mais e multiplicar por 20,40 ou 100x se nós pudéssemos beneficiar esses produtos mantendo suas propriedades, ou extrair deles os princípios ativos para alimentação funcional, cuidados fitoterápicos e cosméticos.

    Estou falando de fruticultura, medicina alternativa e da dermocosmética, o mercado que não tem crise. Nós temos como cultivar, beneficiar e manufaturar esses produtos no interior e na capital do Amazonas. Isso é bioeconomia, ou economia da diversidade biológica sustentável.

     

    "Precisamos nos unir, mais fortemente, para decidir para onde ir e porque não fomos até agora", afirma o empresário
    "Precisamos nos unir, mais fortemente, para decidir para onde ir e porque não fomos até agora", afirma o empresário | Foto: Divulgação

    EM TEMPO - E por que não fazemos tudo isso se dinheiro não falta?

    Nelson Azevedo - Você tocou na ferida do nosso problema. Recentemente, num debate com o presidente nacional da Embrapa, o secretário de Ciência e Tecnologia do Amazonas, Jório Veiga, declarou esta grande verdade: “dinheiro não é o problema”. E disse porquê. Entre verbas para pesquisa, desenvolvimento e inovação, turismo, interiorização do desenvolvimento e fomento de micro e pequenas empresas, a indústria de Manaus repassa ao poder público R$4 bi por ano, qualquer empresa ou qualquer país com legislação adequada, já teriam feito uma revolução tecnológica, agroindustrial e de bioeconomia.

    Sequer precisaríamos derrubar uma árvore para isso. O Centro de Biotecnologia da Amazônia, para dar um exemplo, tem laboratórios capazes de produzir milhares de clones de espécies com alto valor comercial por semana. Para cultivar essas pequenas mudas nós temos áreas já degradadas na Amazônia e 32 milhões de hectares na região de Humaitá.

    São campos gerais onde não foi plantada uma só árvore que seja preciso manejar. Por que isso não acontece? Essa resposta também eu procuro desde que me entendo por empreendedor. Precisamos nos unir, mais fortemente, para decidir para onde ir e porque não fomos até agora.

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