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    Mercado de trabalho


    No AM, 25% dos graduados não conseguem emprego na área de formação

    Trabalhadores da capital amazonense contam como a falta de oportunidades os fez trilhar caminhos bem diferentes dos que sonhavam na faculdade

     

    Dos recém-formados em 2019 e 2020, 25,27% não trabalham em suas áreas de formação, segundo pesquisa do Nube
    Dos recém-formados em 2019 e 2020, 25,27% não trabalham em suas áreas de formação, segundo pesquisa do Nube | Foto: Reprodução

    Manaus – As dificuldades para conseguir um emprego após a conclusão da graduação têm aumentado com a crise econômica. No Amazonas, dos recém-formados em 2019 e 2020, 25,27% não trabalham em suas áreas de formação, segundo pesquisa do Núcleo Brasileiro de Estágios (Nube). Trabalhadores da capital amazonense confirmam o dado e revelam como a falta de oportunidades os fez optar por trilhar caminhos bem diferentes dos que sonhavam na faculdade. 

    De acordo com o levantamento do Nube, desses mais de 25% que não estão trabalhando em suas áreas, 76,67% alegam que a falta de experiência foi determinante para não conseguirem.

    A pesquisa, realizada com 8.465 brasileiros de todos os estados, demonstra ainda que, no Brasil, até dois anos atrás, 27,02% dos brasileiros conseguiram vagas em suas respectivas áreas de formação em menos de três meses, enquanto hoje somente 14,87% conseguem - uma queda de 44,96%. 

    O motorista de aplicativo Daniel Ferreira, 38, é um dos que não trabalha no ramo em que se formou. Graduado em Logística Empresarial desde 2010, Ferreira chegou a fazer várias entrevistas de emprego em empresas da sua área, mas nunca foi chamado.

    “Em todas as entrevistas que fiz, a falta de experiência me impedia de ficar com a vaga. Percebi que eles não querem ensinar, preferindo uma pessoa já experiente”, desabafa o motorista.

    Os colegas da faculdade de Ferreira só conseguiram emprego na área de logística, porque já trabalhavam na especialidade antes da graduação. "Como vou trabalhar no meu ramo se não me dão oportunidade?", contesta o motorista de aplicativo, que se sente frustrado por não conseguir se desenvolver na profissão.

    Segundo o presidente da Associação dos Motoristas e Entregadores por Aplicativo do Estado do Amazonas (Ameap-AM), Alexandre Matias, 46, dos quase quatro mil motoristas de aplicativo cadastrados na associação, 40% têm alguma formação específica, mas estão exercendo o trabalho de forma temporária ou definitiva.

    Esses dados correspondem à Ameap, porém, o Amazonas possui 65 mil cadastros de motoristas de aplicativos e, destes, cerca de 40 mil rodam diariamente na capital, Manaus. O restante circula eventualmente. Portanto, Matias acredita que o número de graduados que operam nessa área seja bem maior.

     

    No Brasil, somente 14,87% conseguem emprego em suas áreas de formação
    No Brasil, somente 14,87% conseguem emprego em suas áreas de formação | Foto: Divulgação

    A pequena empreendedora Thallyne Campos, 25, montou um negócio de produção e vendas de empadões e tortas há quase um ano, em plena pandemia, após de ser demitida.

    Formada em Direito desde 2018, ela chegou a atuar no ramo por cerca de dois anos, porém, foi dispensada pelo corte de funcionários diante da crise econômica. Desempregada, a advogada recorreu a outra área.

    “Eu fiz o curso para prestar concurso público, mas não apareceu nenhum que me agradava. Por ter muitos advogados, os escritórios acabam aproveitando e deixando o salário baixo. Por exemplo, no escritório onde eu trabalhava eles pagavam bem pouco. Hoje, para fugir da crise, adentrei em outro ramo”, relata Thallyne.

    Faculdade x mercado

    Para o especialista em mercado de trabalho e recrutamento Flávio Guimarães, o universitário que foca na teoria e pouco se envolve na prática pode criar uma lacuna em seu aprendizado, principalmente ao tentar ingressar no mercado de trabalho. 

    No entanto, o especialista também vê o lado de quem é impedido de viver um momento de maior imersão no curso escolhido, porque precisa estudar e trabalhar ao mesmo tempo, buscando o sustento pessoal e, muitas vezes, familiar.

    “Não podemos esquecer ainda que muitos jovens e adultos já chegam na universidade cheio sde responsabilidades, com emprego e família para lidar. Então, tudo isso reflete no rendimento do curso e, posteriormente, acaba sendo prejudicial para quem busca o primeiro emprego depois de formado. Muitas vezes, isso inclui receber um salário inferior, porque a carreira é construída em etapas e o planejamento estratégico acaba sendo negligenciado”, ressalta Guimarães.

    O especialista também enfatiza a relevância de fazer estágios, inclusive como voluntário, para enriquecer o currículo.

    A experiência na área pode ser um dos maiores quesitos exigidos pelas empresas numa entrevista de emprego. Para resolver essa questão, Guimarães recomenda que o aluno estagie nos laboratórios de práticas na universidade onde estuda, se aperfeiçoando.

    Além disso, Guimarães salienta que o recém-formado deve tomar a iniciativa ao criar pontes entre a empresa e si mesmo. “Ser ativo inclui também ir até à empresa, fazer uma ligação ou enviar uma mensagem. Essa integração entre o profissional e a empresa é fundamental para que se cresça no mercado de trabalho”, orienta.

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