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    Crise econômica


    No Dia do Trabalhador, quase 50% da população do AM está desempregada

    Sem motivos para comemorar, trabalhadores amazonenses vivenciam a crise ocasionada pela pandemia em meio à altas taxas de desemprego e informalidade

     

    Para os que estão no mercado de trabalho, a taxa média de informalidade atingiu 57,3%
    Para os que estão no mercado de trabalho, a taxa média de informalidade atingiu 57,3% | Foto: Divulgação

    Manaus – Apesar de ser classificada como uma data comemorativa, os trabalhadores amazonenses não têm motivos para comemorar neste Dia do Trabalhador (1°). No Amazonas, a taxa de desemprego bateu o recorde de 15,8% em 2020, ficando acima da média nacional de 13,5%.

    Além disso, para os que estão no mercado de trabalho, a taxa média de informalidade atingiu 57,3% no mesmo ano, ou seja, mais da metade dos trabalhadores ocupados no estado, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

    De acordo com economistas e sindicalistas presentes no estado, a única forma de reestabelecer a economia amazonense é gerando empregos e melhores condições de trabalho através de políticas públicas.

    As falas fazem sentido quando o levantamento do IBGE é considerado e demonstra que o Amazonas apareceu na oitava colocação no ranking dos estados brasileiros mais atingidos pelo desemprego, com quase metade de sua população desocupada - levando em conta o dado de que apenas 50,3% dos amazonenses estão trabalhando.

    No Brasil, um novo recorde foi batido um dia antes do Dia do Trabalhador, na sexta-feira (30), com a taxa de desemprego chegando a14,4%, de dezembro de 2020 a fevereiro deste ano.

    Durante um ano de pandemia, cerca de 7,8 milhões de postos de trabalho foram perdidos no país. No mercado informal, considerando toda a população ocupada em 2020, o Brasil bateu a marca de 38,7% da população na informalidade, ou seja, sem direitos garantidos por meio da carteira de trabalho assinada. 

     

    O Brasil bateu a marca de 38,7% da população na informalidade
    O Brasil bateu a marca de 38,7% da população na informalidade | Foto: Arquivo EM TEMPO

    A manauara Núbia Ferreira, 52, vive a realidade do desemprego no Amazonas. Em novembro de 2020, a fabricante de bolsas foi dispensada da empresa em que atuava pela queda de clientes. Sem salário, Núbia, que morava sozinha, passou a residir na casa da mãe para reduzir os custos.

    “A situação é muito cruel, cortaram minha água, luz e acabo sobrevivendo com as cestas básicas, quando alguém lembra de mim. Mandei vários currículos, mas não consegui emprego até então”, desabafa Núbia. 

    O vendedor Luciézio Freitas, 41, também perdeu o emprego em função da pandemia. Desde o início da crise pandêmica, em abril do ano passado, Luciézio deixou de trabalhar com vendas de vassouras nas ruas da capital amazonense.

    Hoje, ele vive com os poucos recursos da reciclagem, opção encontrada para conseguir sustentar sua família. Também fazendo parte do mercado informal, o autônomo nunca teve sua carteira de trabalho assinada. 

    “Eu trabalho de 10 a 12 horas por dia e o dinheiro só dá para pagar a comida. A conta de água e de luz ficamos devendo, porque o jeito é pagar uma e deixar a outra”, confessa. Ao ser perguntado o que gostaria de receber no Dia do Trabalhador, Luciézio deixou claro que a vacinação para todos seria o ideal. “Eu queria a vacina para imunizar a gente. Imunizado, a gente pode correr atrás do prejuízo”, declara.

     

    A taxa média de informalidade atingiu 57,3% dos amazonenses
    A taxa média de informalidade atingiu 57,3% dos amazonenses | Foto: Arquivo EM TEMPO

    No PIM

    Diante de tantas perdas para a classe trabalhadora, o presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do Amazonas (Sindmetal-AM), Valdemir Santana, diz que a data realmente não é de festa.

    O representante critica a administração passada do Governo Federal - com a Reforma Trabalhista em 2017, tirando diversos direitos dos trabalhadores, segundo ele – e também a atual, pelo desempenho caótico na pandemia.

    “Antes do impeachment em 2015, o Polo Industrial de Manaus (PIM) tinha 120 mil trabalhadores diretos. Hoje esse número gira em torno de 85 mil, porém, quase 7 mil correspondem a mão de obra temporária, ou seja, subempregos onde os funcionários não têm direitos como seguro-desemprego, décimo terceiro e aviso prévio. Nesse momento, não temos nada para comemorar", esclarece Santana. 

    O sindicalista salienta que os operários são sempre os que mais sofrem com as crises e revela ainda que, no PIM, a discriminação de idade em relação aos assalariados é um problema.

    "O poder público não fiscaliza as empresas para que isso não aconteça", afirma. Segundo Santana, para as mulheres, a idade máxima para serem contratadas é até os 25 anos e para os homens, até os 27.

     

    O PIM conta com cerca de 85 mil trabalhadores atualmente
    O PIM conta com cerca de 85 mil trabalhadores atualmente | Foto: Arquivo EM TEMPO

    Reforma da Previdência

    Com a Reforma da Previdência em 2019, o trabalhador também sofreu perdas, principalmente em relação ao tempo de serviço para se aposentar.

    Antes, o homem precisava ter 65 anos de trabalho e 15 anos de contribuição para se aposentar. Nas novas regras se tornou necessário ter, pelo menos, 20 anos de contribuição ao Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). Para a mulher, é preciso ter 62 anos e ser contribuinte durante 15 anos.

    Analisando as mudanças, o presidente do Sindmetal-AM afirma que a classe trabalhadora é a que mais precisa fazer sacrifícios. “Atualmente, o trabalhador não consegue mais se aposentar. Com tanto tempo exigido, a gente vai se aposentar morto”, desabafa.

    Santana também aponta que grandes empresas no distrito retiraram o décimo terceiro salário no final de 2020 e parte das férias. “O faturamento das empresas foi de quase US$ 90 bilhões e esse ano será maior. As fábricas têm redução de incentivos fiscais e não dá para retirar mais do trabalhador”, contesta.

     

    Os homens precisam ter, pelo menos, 20 anos de contribuição ao INSS
    Os homens precisam ter, pelo menos, 20 anos de contribuição ao INSS | Foto: Divulgação

    Empresários e empregados

    De acordo com o presidente da Associação dos Magistrados da Justiça do Trabalho da 11ª Região (AmatraXI), juiz Sandro Nahmias, todos foram afetados com a pandemia – empresários e empregados – e as empresas não tiveram uma ajuda efetiva dos governos para que se mantivessem saudáveis, do ponto de vista econômico e na intenção de manter os empregos dos trabalhadores.

    “Houve uma falta de construção de planos, inclusive em relação ao aporte financeiro às empresas, já que são elas multiplicadores de riqueza”, considera o juiz.

    Para sair do efeito dominó de consequências negativas geradas pela crise econômica, Nahmias sugere a criação de uma política de incentivo de negócios, com uma ajuda financeira para as corporações que contratam os serviços dos trabalhadores.

    Dessa forma, segundo ele, toda a cadeia seria beneficiada, e não com uma solução transitória, como o auxílio federal, mas com novos postos de trabalhos permanentes. “É preciso olhar essa ponta contratante para beneficiar o trabalhador, ou será apenas um auxílio emergencial para a população”, analisa.

    Nesse sentido, de trazer soluções para a classe, o magistrado destaca que os trabalhadores só poderão se reerguer se novos postos de trabalho forem abertos, gerando emprego e renda para os amazonenses.

    No entanto, para a economia ser reaquecida, a vacinação em massa e a contenção do novo coronavírus também precisa avançar, como o primeiro passo para retomada.

    Desde início da pandemia, houve um aumento na informalidade. Nas ruas de Manaus é possível notar o crescente número de entregadores de aplicativos, além de trabalhadores em outras funções que surgiram na carência de suprir um trabalho formal. Sobre esse mercado informal, Nahmias frisa que esse grupo também está sofrendo e procurando se reinventar.

     

    Desde início da pandemia, houve um aumento na informalidade no AM
    Desde início da pandemia, houve um aumento na informalidade no AM | Foto: Arquivo EM TEMPO

    “Nem todos esses trabalhadores têm acesso a uma plataforma digital para divulgar o seu trabalho. E até os entregadores que atuam em plataformas de aplicativo de entregas de alimento são afetados pelo baixo rendimento e sofrem pela falta de cobertura de um salário fixo e benefício social – sem auxílio em caso de doença, e, no caso de falecimento, a família não tem uma ajuda pela Previdência Social”, pontua.

    Direitos trabalhistas

    Para quem foi demitido sem nenhum benefício, Nahmias recomenda um diálogo com o empregador, já que alguns empresários não assumem os benefícios do empregado, porque estão praticamente falidos desde o início da crise.

    Caso não seja resolvido e sem um acordo devido, o presidente da AmatraXI recomenda que o funcionário busque a Justiça do Trabalho, de forma presencial ou virtual. Para isso, não é necessário o acompanhamento de um advogado. O processo poderá ser acompanhado virtualmente e a audiência deve ocorrer no formato telepresencial. 

    Segundo o economista Wallace Meirelles, para recuperar a economia amazonense é preciso de uma ação conjunta dos governos - no âmbito federal, estadual e municipal - para a criação de políticas públicas, essas que são coletivas e não soluções isoladas.

     

    Somente a criação de políticas públicas poderá solucionar a crise econômica
    Somente a criação de políticas públicas poderá solucionar a crise econômica | Foto: Arquivo EM TEMPO

    “Nós precisamos do trabalho conjunto do poder público para reduzir o tempo de degradação da economia e da sociedade. Com o desemprego, a fome e a miséria aumentam. Para isso, precisamos de políticas públicas. Não tem como o governo estadual trabalhar isolado do federal, é um trabalho em equipe para resolver esses problemas”, sugere o economista.

    Após essa unificação de projetos na tentativa de criar estímulos produtivos, Meirelles observa que o empreendedorismo pode ser um deles, além do fortalecimento dos empregos formais, já que são relevantes para os trabalhadores e para os cofres públicos, como arrecadação do estado.

    Outra opção para estimular mais a economia, segundo o economista, seria criar um programa para aproveitar e expandir o potencial de cada município. Assim, a capital e o interior do estado seriam desenvolvidos.

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