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    Impacto da cheia


    Cheia no Amazonas gera prejuízo de R$ 165 milhões a produtores rurais

    Até o momento, segundo o levantamento do Idam, 15.110 famílias foram afetadas e ficaram impossibilitadas de trabalhar devido às perdas em suas produções

     

    Os principais municípios atingidos já totalizam mais de R$ 112 milhões em perdas
    Os principais municípios atingidos já totalizam mais de R$ 112 milhões em perdas | Foto: Milla Freitas

    Manaus – As consequências da cheia no Amazonas já estão sendo sentidas pelos produtores rurais do estado. Até o início de maio deste ano, as perdas em relação a produção agrícola chegaram a R$ 165 milhões. Em 2019, na última enchente registrada, os danos alcançaram mais de R$ 65 milhões, segundo o Instituto de Desenvolvimento Agropecuário e Florestal Sustentável do Estado do Amazonas (Idam). Agricultores familiares lamentam que tiveram prejuízo de 100% em suas produções.

      Até o momento, segundo o levantamento do Idam, 15.110 famílias foram afetadas e ficaram impossibilitadas de trabalhar devido às perdas em suas produções.  

    Os principais municípios atingidos foram Manacapuru (Solimões), Pauini, Carauari e Manicoré (Purus), Carauari (Juruá) e Manicoré (Rio Madeira), totalizando mais de R$ 112 milhões em perdas. Entre as principais produções afetadas estão a banana (R$50,2 milhões), o mamão (R$ 23,7 milhões) e a mandioca (R$21,7 milhões).

    A agricultora familiar Adriana Carla Ribeiro, 45, faz parte de uma das regiões mais afetadas. Moradora da comunidade Menino Deus (a 100 quilômetros de Manacapuru por via fluvial), a produtora perdeu 100% das suas plantações de mamão, banana, jerimum e macaxeira, em decorrência da cheia do Rio Solimões.

    Ao ver todo o trabalho – desde o preparo da terra até o ponto de colher os frutos – ser jogado fora, Adriana lamenta as perdas.

      “Eu fico triste porque a gente perde tudo, inclusive o nosso sustento. O recurso que a gente tira de uma produção anterior já é direcionada para a próxima, com o pagamento do trabalhador, a compra de sementes e tudo o que precisa para começar de novo”, desabafa Adriana.  

     

    A produtora Adriana conta que nem deu tempo de recolher os frutos, porque a cheia veio antes
    A produtora Adriana conta que nem deu tempo de recolher os frutos, porque a cheia veio antes | Foto: Divulgação

    E os gastos não são poucos. Só o pacote com cerca de mil sementes de mamão, por exemplo, chega a custar entre R$ 490 e R$ 530. E o tempo para produzir é longo. O cultivo do mamão e da macaxeira dura, em média, nove meses. Como o mês de março era o início da colheita, Adriana conta que nem deu tempo de recolher os frutos, porque a cheia veio antes.

    Outra produtora que foi 100% afetada pela enchente foi Alcione Ferreira, 43. Além de estar com os plantios de mamão, macaxeira e maracujá submersos, a água do rio chegou ao nível do assoalho da casa de madeira de sua família.

    “A gente perdeu tudo, até minha casa está sendo afetada, porque o rio está muito cheio. Nos anos anteriores, não chovia tanto assim em maio. As últimas vezes que isso aconteceu foi em 2019, 2015 e 2012. Hoje levantei alguns móveis para não molhar, mas não terá jeito, vou ter que sair da minha casa”, relata Alcione.

    Antes da cheia, Alcione, que reside na Comunidade São Pedro (a menos de 100 quilômetros de Manacapuru), chegava a produzir quase oito toneladas de mamão semanalmente e enviava para revender na Feira da Manaus Moderna, na capital do estado. A agricultora ainda conseguiu colher essa quantidade nos meses de março e abril, já que a plantação ficava mais acima do rio, porém, no início de maio, tudo ficou debaixo d’água.

     

    A casa da agricultora Alcione também foi afetada por conta do nível da cheia
    A casa da agricultora Alcione também foi afetada por conta do nível da cheia | Foto: Divulgação

    Sem ajuda para escoar os produtos anteriormente, Alcione e Adriana enviavam os alimentos para Manaus por conta própria, assumindo todos os custos, e, mesmo quando vendiam para as escolas da região - por meio do Programa de Regionalização da Merenda Escolar (Preme) - as despesas do frete também eram descontadas na carteira do produtor mensalmente.

    Com o fechamento das escolas, os produtores deixaram de fornecer também para a educação, perdendo mais um leque de possibilidades. Sobre o prejuízo, Alcione revela que não recebe nenhum tipo de subsídio.

      “Infelizmente, não temos ajuda nesse momento em que a nossa produção está embaixo d’água. Sem produtos, não temos dinheiro, agora é esperar o nível do rio diminuir, provável que no final de junho”, confessa a produtora.  

    Prejuízos

    O presidente da Associação dos Agricultores da Costa do Ajaratubinha (Assacoab), José Nunes, 50, responsável por representar 83 produtores próximos a Manacapuru, calcula que cada agricultor chegava a atingir o faturamento de R$ 700,00 a R$ 3.000,00 semanalmente com as vendas.

    Calculando uma média de R$ 2 mil para cada um dos 83 agricultores, o prejuízo chega a R$ 166 mil por semana e R$ 664 mil por mês.

    Por ano, os cultivadores da Assacoab produzem 200 toneladas de banana, 300 toneladas de mamão, 200 toneladas de macaxeira e 50 toneladas de maracujá, em média, mas Nunes acredita que seja mais. O preparo da terra e a plantação começam a ser feitos em agosto, enquanto a colheita da safra se inicia em março, porém, este ano quase nada foi aproveitado por conta da cheia do Rio Solimões.

    De tudo o que é produzido, 80% é destinado para Manaus, uma pequena parte para o município de Manacapuru, outra para a merenda escolar - antes da pandemia - e outra para o consumo das famílias.

    Diante das dificuldades e dos danos, Nunes explica que um aterro mais acima da várzea ajudaria, porque assim os produtores conseguiriam plantar chicória, maxixe e outras opções que não demandam muito tempo, até o nível da água diminuir.  

     

    Quando o nível da água baixar, os produtores pretendem plantar melancia
    Quando o nível da água baixar, os produtores pretendem plantar melancia | Foto: Divulgação


    “Na nossa região de várzea, se tivesse um pequeno aterro, poderíamos cultivar outros produtos com mais rapidez. Mas precisamos da ajuda do governo para isso, porque a prefeitura local é difícil. Precisamos que o poder público olhe para nós nesse momento de dificuldade”, apela o presidente da Assacoab.  

    Quando o nível da água baixar, os produtores pretendem plantar melancia, pois é um alimento que consegue ser produzido em três meses, diferente da macaxeira e do mamão. A previsão dos agricultores é começar o plantio em setembro para colher no final do ano. “O plantio de melancia é possível para a gente esse ano, mas o restante só no ano que vem”, salienta Nunes.

    Crédito emergencial

    De acordo com o secretário da Secretaria de Estado da Produção Rural (Sepror), Petrúcio Magalhães Junior, o Governo do Amazonas tem trabalhado para atender os pequenos agricultores familiares com o crédito emergencial aprovado pela Assembleia Legislativa do Estado do Amazonas (Aleam) e com a absolvição de dívidas.

     

    O secretário ainda informa que o estado também realizou compras emergenciais no valor de R$ 7,5 milhões
    O secretário ainda informa que o estado também realizou compras emergenciais no valor de R$ 7,5 milhões | Foto: Divulgação

    “Temos o crédito emergencial de mais de R$ 20 milhões para socorrer os atingidos pela cheia. Da mesma forma, foi concedido, aos produtores, anistia de suas dívidas aos agentes financeiros. O governo conseguiu, em tempo recorde, encaminhar 42 toneladas de semente para, logo após da descida dos rios, os produtores poderem plantar hortaliças, frutas e cereais, como milho e feijão”, declara.

    O secretário ainda informa que o estado também realizou compras emergenciais no valor de R$ 7,5 milhões, por meio da Agência de Desenvolvimento Sustentável (ADS), dos agricultores atingidos pela cheia, que ainda possuíam alguma produção.

    Os produtos adquiridos foram doados para entidades sócio-assistenciais, que se encontram em vulnerabilidade.

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