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    Setor primário


    No AM, 80% dos produtos hortifrutigranjeiros são importados

    O setor primário, apesar de possuir potencial de desenvolvimento, ainda retrocede por questões estruturais, logísticas e licenças ambientais

     

    Dificuldade logística para escoar os produtos é um dos empecilhos
    Dificuldade logística para escoar os produtos é um dos empecilhos | Foto: Arquivo/Em Tempo

    Manaus – Apesar de ter espaço na região para produzir, o Amazonas importa cerca de 80% dos produtos hortifrutigranjeiros para consumo local, segundo economistas. Com isso, os produtos se tornam mais caros e inacessíveis para a maior parte da população, que fica refém dos preços inflacionados pela crise financeira, além dos valores cobrados para fazer a logística desses alimentos. Especialistas acreditam que falta de incentivo e problemas estruturais impedem maior produção para suprir a demanda do estado.  

    Para agravar a situação, a cheia histórica do Rio Negro gerou R$ 165 milhões em perdas das produções agrícolas até o início de maio deste ano. Além disso, o setor primário amazonense passa por contratempos, que vêm se desenvolvendo a longo prazo, como problemas ambientais, de escoamento e de relação produtor-estado. De um lado, o governo apresenta programas e planejamentos para o desenvolvimento desse segmento, enquanto de outro, os produtores reclamam que essa relação está cada vez menor.

    O produtor José Medeiros, 43, da zona rural de Iranduba (a 36,6 quilômetros de Manaus), encontra dificuldades para manter sua produção de hortaliças. Com a cheia, a plantação de cebolinha, coentro, couve e chicória ficou em baixo d’água, dificultando ainda mais a situação.

    Ainda assim, o agricultor sente falta de incentivos, como implementação de financiamentos, capacitações e tecnologias, como monitoramentos por drones. “Tem muita burocracia para conseguirmos financiamento. E, quando a pessoa consegue, tem toda uma dificuldade para a liberação do dinheiro e para a utilização dele.  Particularmente, nunca consegui”, desabafa José.

     

    Com a cheia, produções ficaram embaixo d'água
    Com a cheia, produções ficaram embaixo d'água | Foto: Divulgação/Milla Thays

    Segundo a produtora agrícola Mirian Gorete Nunes, 54, o escoamento é o maior empecilho para aumentar sua produção. Moradora da comunidade Terra Nostra, na BR 174, ela planta banana, produz o tucupi e o mel de abelha. Mas revela que, em épocas de chuvas, os ramais, a maioria sem asfaltamento, ficam deteriorados, dificultando ou impedindo do deslocamento dos produtos até a capital.

    “Durante a pandemia, o consumo dos nossos produtos aumentou, no entanto, não conseguimos atender a demanda porque não temos como levar todos os produtos para as áreas de feira devido à precariedade dos ramais. As autoridades locais cediam um caminhão para nós, mas, durante a pandemia, isso foi retirado. Estamos tentando arranjar mais transporte que consiga fazer esse tráfego, pois estamos perdendo a mercadoria, que fica presa na comunidade. Infelizmente, não temos condições de repor”, relata Mirian.

    A terra é propícia para exploração?

    Com a dificuldade logística para escoar os produtos, outro fator que contribui para esse volume de importação dos produtos hortifrutigranjeiros no Amazonas é a pouca exploração das terras.

    Para a agrônoma Assunção Pereira, o Amazonas possui potencial para produzir, mas existem fatores que retardam esse processo, como as questões ambientais e políticas públicas.

    “Durante décadas se acreditava que, devido a exuberante floresta, seria suficiente derrubar para plantar e já se teria uma ótima produção, o que não é verdade. Necessitava-se ainda de estudos específicos, pois esse bioma possui peculiaridades que são particulares dele”, explica.

     

    Outro fator que contribui para esse volume de importação dos produtos no Amazonas é a pouca exploração das terras
    Outro fator que contribui para esse volume de importação dos produtos no Amazonas é a pouca exploração das terras | Foto: Divulgação

    O resultado das pesquisas demonstrou que a forma mais adequada para plantio na região não seria o monocultivo - plantio de uma só cultura em larga escala -, mas sim os Sistemas Agroflorestais (SAFs) e Agrossilvipastoris, que são sítios domésticos feitos por interioranos no entorno das casas, com várias culturas juntas.

      Outra questão é o solo. Comumente utilizado, o solo de terra firme é considerado velho e pobre em nutrientes, necessitando de correção da acidez e a realização de adubação, o que demanda insumos. Os solos de terra baixa, como os de várzea, são solos jovens, ricos em nutrientes e ideais para a maioria dos cultivos, porém, se encontram em Área de Proteção Ambiental (APP), localizadas às margens dos rios e não autorizadas para cultivos, conforme previsto por lei.  Incentivos

    De acordo com secretário da Secretaria de Estado da Produção Rural (Sepror), Petrúcio Magalhães Júnior, o Governo do Amazonas criou, em 2019, o Plano Safra bianual 19/20, disponibilizando mais de 350 milhões de reais para diversificar a matriz econômica por meio da produção de alimentos, geração de emprego e melhoria da renda dos produtores rurais.

    A produção de hortaliças está entre os projetos prioritários do Plano Safra, bem como a produção agroecológica e orgânica que se concentram grandemente no cinturão verde da região metropolitana de Manaus. Segundo o secretário, além da política de acesso ao crédito rural, por meio da assistência técnica, o governo tem investido na recuperação de ramais e vicinais (SOS Vicinais), nos programas Pró-Mecanização e Pró-Calcário, além de garantir a compra da agricultura familiar.

    “Inegavelmente nos últimos anos, com os investimentos acertados do Programa Agro Amazonas do Governo do Estado, a produção regional tem crescido e a prova maior é o crescimento no número de feiras da Agência de Desenvolvimento Sustentável (ADS), que já beneficia mais de mil e quinhentos produtores regionais, mesmo atravessando uma pandemia e a maior enchente dos últimos 120 anos”, afirma o secretário.

     

    Mesmo com números expoentes, a produção estadual não é suficiente para alimentar a população manauara
    Mesmo com números expoentes, a produção estadual não é suficiente para alimentar a população manauara | Foto: Arquivo/Em Tempo

    Magalhães ainda salienta que, mesmo com números expoentes, a produção estadual não é suficiente para alimentar a população manauara (principal consumidora) devido ao tipo de alimento consumido aqui. “Embora os dados oficiais da Conab e do IBGE apontem para o crescimento da produção estadual de diversas cadeias produtivas, ainda dependemos da importação de produtos agrícolas de outras regiões, como por exemplo: o tomate, a batata, a cebola, o alho e outras verduras produzidas em lugares de clima temperado, diferente do nosso”, comenta.

    O secretário concorda, ainda assim, que o estado ficou muito tempo focado apenas na Zona Franca de Manaus (ZFM), esquecendo das atividades econômicas do interior. “É preciso ter um planejamento e vontade política para diversificar a matriz econômica do Amazonas. Não que o modelo não seja importante, mas estava na hora de investir mais em novas matrizes e profissionalizar o setor”, ressalta.

    Economia rural

    De acordo com o economista Altamir Barroso, grandes programas de incentivos ao setor primário, feitos pelo governo, não deram certo por falta de apoio técnico, melhorias de infraestrutura para o escoamento da produção, financiamentos e legalização fundiária.

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    A cadeia produtiva precisa estar bem planejada para que seus objetivos sejam alcançados. A produção nas áreas de várzeas é de ciclos curtos devido a sazonalidades das subidas das águas e impossibilitam a mecanização. Nos últimos anos, acompanhamos a redução dos recursos investidos. O Amazonas é obrigado a importar mais 80% dos hortifrutigranjeiros que consumimos e até mesmo o tambaqui vem de Rondônia e Roraima, o que é uma vergonha "

    critica, Barroso.

     

    Para o economista Wallace Meirelles, falar de economia primaria é falar de uma economia de relevância para o interior do Amazonas, mas com um problema de participação no Produto Interno Bruto (PIB) do estado. “Hoje o PIB nesse setor representa uma faixa de 7% do PIB como um todo, o que é um papel muito pequeno”, lembra.

    Assim como Barroso, Meirelles ressalta que o estado não tem um planejamento de longo prazo para o setor, sejam em questões estruturais ou conjunturais. “Nós continuamos com uma infraestrutura ruim, com uma logística terrível, e as distâncias entre os municípios do Amazonas são gigantescas. Se não tiver um planejamento conjunto com as cidades, nada irá adiante”, finaliza.


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