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    Inadimplência


    No AM, mais de 1,4 milhão de pessoas estão com as contas atrasadas

    Os dados revelam que os amazonenses sentem dificuldades em manter as contas em dia devido os constantes aumentos no preço da cesta básica, do gás de cozinha e da energia elétrica

     

    No país, até maio deste ano, 68% da população estavam com suas contas atrasadas
    No país, até maio deste ano, 68% da população estavam com suas contas atrasadas | Foto: Arquivo/Em Tempo

    Manaus - Não é novidade que a pandemia da Covid-19 impactou diretamente o bolso do cidadão amazonense. Tendo que escolher entre comprar carne ou pagar a conta de luz, o índice de inadimplência aumenta com a falta de condições para quitar as dívidas. No Amazonas, mais de 1,4 milhão de pessoas estavam com as contas atrasadas até março deste ano, sendo 1 milhão apenas em Manaus, segundo dados do Serasa. 

      O levantamento ainda mostra que Manaus ocupou a quarta posição na classificação nacional de capitais inadimplentes, ficando atrás apenas de São Paulo, Rio de Janeiro e Salvador. No país, até maio deste ano, 68% da população estavam com suas contas atrasadas, conforme apresenta a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic)  

    Entre os entrevistados em Manaus pelo EM TEMPO, a reclamação maior é em relação ao pagamento da conta de energia elétrica. A estudante universitária Patrícia Rodrigues, 22, relata a dificuldade que tem enfrentado para ficar com a conta em dia.

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    Tudo está extremamente caro. Aqui em casa sou só eu, meu filho e meu marido e, recentemente, a fatura de energia mensal veio em torno dos R$ 653,00. Aí você imagina para uma pessoa que recebe apenas R$ 1.050,00 e ter que pagar tudo isso só em luz? Manaus é quente demais, e o trabalhador não pode nem ao menos ter o conforto de ter um ar-condicionado, senão vai pagar um absurdo desse. Se você sai de casa, gasta um absurdo, se fica em casa, gasta um absurdo também "

    , reclama Patrícia.

     

    A assistente social Linéia da Silva, 43, compartilha as estratégias que tem adotado para driblar o alto preço na tarifa. “Na pandemia a minha energia de R$ 120 foi para R$ 220. Agora eu ligo o ar-condicionado apenas por uma hora, e depois fico só no ventilador. Quando utilizo a máquina de lavar também monitoro quantas vezes precisei usar durante o mês. Caso tenha usado cinco vezes no mês, no próximo já diminuo para quatro”, revela.

    O aposentado Marcos Cunha, 65, diz já estar acostumado a sempre pagar caro no fornecimento da energia elétrica, visto que os valores, em vez de baixar, aumentam com constância. “Pago R$ 300 por mês só em energia. Para tentar diminuir o valor, abandonei o ar-condicionado e tenho usado apenas o ventilador. À noite, além das luzes, também desligo a geladeira. Isso é uma grande desfeita para a população”, lamenta. 

     

    Com a privatização da Eletrobras, energia elétrica pode ficar mais cara
    Com a privatização da Eletrobras, energia elétrica pode ficar mais cara | Foto: Arquivo/Em Tempo

    E o pão de cada dia?

      A dificuldade para manter as contas em dia também afeta a mesa da população, seja pelo esforço em adquirir comida ou o gás para seu preparo. No primeiro quadrimestre de 2021, a cesta básica acumulou um aumento na ordem de 6% só em Manaus. No mês de abril, a variação média entre o preço mínimo e máximo da cesta chegou ao patamar de 43%, conforme apresenta a pesquisa da Comissão de Defesa do Consumidor da Assembleia Legislativa do Amazonas (CDC/Aleam).  

     

    Em Manaus, a cesta básica acumulou um aumento de 6% só de janeiro a abril de 2021
    Em Manaus, a cesta básica acumulou um aumento de 6% só de janeiro a abril de 2021 | Foto: Divulgação

    Diante desses constantes aumentos, os moradores em Manaus  também contestam o valor dos produtos básicos. Segundo Linéia, não dá para fazer quase nada com R$ 100 no supermercado atualmente. “Hoje você só compra o básico. Tem semana que eu compro só macarrão, e outras só arroz. Também passamos umas três semanas sem comer feijão. Antigamente, você comprava um quilo de picadinho a R$ 10 e alimentava cinco pessoas. Agora, esse mesmo valor mal dá para duas pessoas. Durante a pandemia, muita coisa deixou de entrar na minha mesa”, desabafa a assistente social.

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    A coisa mais difícil do mundo é a gente colocar carne no nosso carrinho, assim como é raro colocar um frango inteiro. Também voltamos a comer coisas não muito saudáveis, como frango empanado, salsicha e calabresa. Na minha percepção, outras pessoas têm feito o mesmo, porque a gente chega no mercado e a fila do açougue vive vazia "

    , comenta Patrícia.

     

    Efeito da privatização da Eletrobras  

    A Câmara dos Deputados aprovou, no  dia 21 de junho, a Medida Provisória (MP) que permite a privatização da Eletrobras. A MP 1.031/2021 agora segue para sanção do presidente da República Jair Bolsonaro.

      De acordo com o Ministério da Economia, a privatização pode levar a uma redução de 7% na conta de energia do consumidor residencial, no entanto, entidades como o Instituto de Defesa do Consumidor (Idec) afirmam que a tarifa pode, na verdade, ficar mais cara.  

    Em nota, o Idec desaprovou a MP, dizendo que o texto é “extremamente negativo para os pequenos consumidores de energia e que as inúmeras emendas acrescentadas na Câmara dos Deputados e no Senado agregam custos muito significativos ao setor elétrico, que pressionarão muito as tarifas dos consumidores residenciais”.

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    O projeto enviado ao Congresso recebeu tantos jabutis (termo utilizado para se referir às alterações feitas nas Medidas Provisórias) que ficou um monstrengo. O resultado é que para a União apurar R$ 60 bilhões, ela vai ter que gastar R$ 90 bilhões, o que é um absurdo, porque vai terminar, ao invés de arrecadar R$ 60 bi, dispender R$ 30 bi, então não resolve a situação por um lado e nem pelo outro. Nós vamos sair do monopólio público e entrar no monopólio privado, e a energia já vai ficar na bandeira vermelha esse próximo mês, o que significa dizer que vamos pagar uma conta mais alta "

    , esclarece Corrêa.

     

    Outro agravante é a crise hídrica que o Brasil vem enfrentando. Com a diminuição das chuvas, a atual baixa no volume de água dos reservatórios de hidrelétricas, principal fonte de energia do país, é a maior desde 2001. Isso acarreta, portanto, na necessidade de acionar as termelétricas, que funcionam à base de carvão, gás ou óleo diesel, ou seja, combustíveis mais custosos. “A necessidade da contratação das termelétricas, cuja geração é mais cara e ambientalmente muito ruim, será inevitável no aumento do valor da energia”, completou o deputado.

    Para o economista Antônio Geraldo Harb, o maior problema em relação a Eletrobras é a incapacidade de implementar grandes investimentos para ampliar a eficiência e, sobretudo, manter a sua participação de mercado, mas também não vê a privatização como algo totalmente negativo.

    “Os efeitos positivos dessa privatização se darão a longo prazo com o incremento substancial nos níveis de investimentos possibilitando uma matriz energética mais eficiente e mais limpa para o país. A curto e médio prazos, a empresa passará por processos rigorosos de ajustes no Capital Humano e no Capital Estrutural a fim de proporcionar um melhor equilíbrio em suas operações”, salienta.

    Gás de cozinha

    A universitária ainda revela que já deixou de pagar contas básicas para comprar o gás de cozinha. A família costuma usar a botija de 13 quilos, com a duração média de três meses, porém, se acaba antes do previsto, a opção é adquirir uma botija menor. Caso não tenha dinheiro, o valor separado para outra despesa acaba sendo direcionado para essa necessidade.

    “O meu marido fala para usarmos mais o micro-ondas, mas isso também interfere na conta de luz e no sabor da comida. Ainda somos obrigados a ver essas matérias por aí “ah, porque as pessoas estão amando fazer comida a lenha”, não estão não! Daqui a pouco vamos ser obrigados a ir para o rio pescar e fazer fogueira lá na beira para comer. Talvez nem isso eles [autoridades] deixem, já que vão dizer que a terra é deles", critica Patrícia.

     

    Manaus é a décima capital com o valor mais alto de gás de cozinha do país, com uma média de R$ 91,65
    Manaus é a décima capital com o valor mais alto de gás de cozinha do país, com uma média de R$ 91,65 | Foto: Divulgação

    Em junho, o preço médio do GLP (Gás Liquefeito de Petróleo), ou gás de cozinha, da Petrobras, sofreu um aumento de 5,9%. As informações da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) mostraram que Manaus é a décima capital com o valor mais alto de gás de cozinha do país, com uma média de R$ 91,65. As outras seis capitais da região Norte estão entre as nove primeiras colocadas.

    Segundo a Petrobras, o gás vendido para as distribuidoras nas refinarias representa menos da metade do preço do botijão de 13 quilos, cobrado do consumidor. O restante do valor corresponde a impostos estaduais e federais, custos e remuneração de distribuidoras e revendedores.

    Sem perspectiva de consumo

    A Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) revelou ainda que o Nível de Consumo Atual caiu de 61,1% para 60,3% em relação ao ano passado. Referente à Perspectiva de Consumo, a maior parte das famílias acredita que vai consumir menos nos próximos três meses: 56,9%. Em 2020, essa perspectiva era de 58,9%.


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