Fonte: OpenWeather

    Setor primário


    No AM, cheia prejudica agropecuária e intensifica fome no interior

    Os danos da cheia deste ano já somam R$ 206 milhões, o maior número em cinco anos, segundo o Instituto de Desenvolvimento Agropecuário e Florestal Sustentável do Estado do Amazonas (Idam)

     

    Em 26 municípios do Amazonas, 17.699 famílias tiveram suas produções agrícolas atingidas
    Em 26 municípios do Amazonas, 17.699 famílias tiveram suas produções agrícolas atingidas | Foto: Brayan Riker

    Manaus - Os rios do Amazonas já iniciaram a vazante, mas os prejuízos da cheia histórica ainda vão se estender por algum tempo. Os danos à produção rural no interior do estado já somam mais de R$ 206 milhões. Esse valor é o mais alto dos últimos cinco anos, segundo dados do Instituto de Desenvolvimento Agropecuário e Florestal Sustentável do Estado do Amazonas (Idam).

      O levantamento do órgão aponta que, pelo menos, 17.699 famílias tiveram suas produções atingidas em 26 municípios do Amazonas. Entre as principais plantações prejudicadas estão a de banana (R$66,6 milhões), mandioca (R$31,1 milhões), hortaliças (R$29,5 milhões) e o mamão (R$24,2 milhões).  

    "Os danos econômicos da cheia deste ano são indiscutíveis. Eu  tive a oportunidade de visitar vários municípios do interior, como Coari e Tefé, e vi de perto os prejuízos. Há famílias que perderam produções inteiras, como roça de macaxeira e plantações de banana-pacovã", comenta Martinho Luis Gonçalves Azevedo, presidente do Conselho Regional de Economia (Corecon-AM).

     

    Cheia atinge plantação de banana no Amazonas
    Cheia atinge plantação de banana no Amazonas | Foto: Reprodução

    Segundo ele, o cenário no interior do Amazonas é de grandes perdas. Isso porque, além de a enchente ter estragado áreas de plantação, houve ainda prejuízos à pecuária. Somado a isso, alguns ribeirinhos tiveram as próprias casas inundadas.

    "

    O ponto importante a lembrar é que o produtor rural é muito observador e fica atento ao comportamento da natureza, como até onde a última cheia chegou. Isso define onde a plantação será feita. No entanto, a enchente deste ano foi muito além do esperado "

    Martinho Azevedo, economista

     

    Em Manaus, o Rio Negro atingiu a cota histórica de 30,02 metros. As águas invadiram o Centro da cidade, incluindo a principal feira da capital, a Manaus Moderna. Além disso, ruas com atividade comercial também foram atingidas. 

    Agricultura de subsistência

    Apesar de o Amazonas ser conhecido pelo projeto econômico do Polo Industrial de Manaus (PIM), essa grandeza se limita à capital. No interior do estado, boa parte da população tem renda a partir do comércio, agricultura de subsistência (planta para comer) ou são servidores públicos. 

     

    Cheia gerou prejuízo de até 100% em plantações
    Cheia gerou prejuízo de até 100% em plantações | Foto: Reprodução

    Neste cenário, os danos da cheia nas plantações se tornam ainda maiores. É o que explica o presidente da Central de Associações de Moradores e Usuários da Reserva Amanã, Edivan Ferreira Feitosa, em uma região próxima à Tefé (AM). A associação abriga 82 comunidades, somando mais de seis mil pessoas.

    "Em todas essas comunidades, a principal renda das famílias é a agricultura, o que gerou prejuízos a 99% das vilas na cheia. Quem mora na área de várzea, onde era mais fácil alagar, perdeu 100% da produção. O que está nos salvando é o açaí, mas outros itens que vendíamos ficaram escassos", lamenta ele.

      A preocupação maior de Feitosa é que as famílias ainda estão se alimentando com o que guardaram da última colheita. Quando este estoque acabar, não sabem o que pode acontecer, já que perderam o que seria a nova produção.  

    "No momento, as pessoas ainda estão suprindo suas necessidades com a roça que tinham, mas para os próximos meses, pode ficar complicado, porque não vai ter de onde tirar alimento de agricultura", desabafa o presidente da associação.

    Rio 'sem peixe'

    Além da agropecuária, ribeirinhos também têm dificuldade para pescar durante a cheia. O jovem Jonatha Coelho, de 24 anos, passa pelo problema com a família. Ele mora na comunidade  Boca do Mamirauá, região de Tefé. 

     

    Jonatha é guia turístico na região, mas a família tem a pesca como atividade essencial
    Jonatha é guia turístico na região, mas a família tem a pesca como atividade essencial | Foto: Reprodução

    "Aqui a gente mora em área de várzea, então, na época da cheia, o rio chega a subir mais de 12 metros. Quase 95% da terra fica debaixo d'água e isso dificulta muito a pesca, porque quando está seco, os peixes ficam em pequenos lagos, mas na cheia, eles se espalham muito mais", conta Coelho.

    Na região, a pesca serve também como forma de renda. Segundo relatório do Instituto Mamirauá, localidade onde mora Coelho, o manejo do pirarucu rendeu cerca de R$ 1,5 milhão às famílias da região.  Porém, na cheia, encontrar os peixes no fundo do rio se torna um desafio.

    Fome em evidência

    A insegurança alimentar - escassez de alimento - vivida por ribeirinhos no Amazonas foi documentada por pesquisadores da Universidade Federal de Lavras (Ufla), em Minas Gerais, da Universidade Federal do Pará (UFPA) e da Universidade de Lancaster, no Reino Unido.

    Publicado na revista People and Nature, o trabalho ganhou o nome de 'Pesca Difícil e Severa Segurança Alimentar Sazonal em Florestas Inundadas na Amazônia' (tradução livre). O trabalho é assinado pelos cientistas ingleses Daniel Tregidgo, Jos Barlow, Luke Parry, e Paulo Pompeu, do Brasil. 

     

    O peixe está entre os principais alimentos consumidos por ribeirinhos
    O peixe está entre os principais alimentos consumidos por ribeirinhos | Foto: Daniel Tregidgo

    Para o estudo, os pesquisadores entrevistaram 331 famílias ribeirinhas de 22 comunidades ao longo de 1,2 mil km às margens do Rio Purus, nos municípios de Lábrea e Beruri, ambos no Amazonas.

    As entrevistas foram realizadas durante a cheia (abril a julho) e seca (agosto a novembro) dos rios, em 2014. Os participantes foram questionados sobre suas rotinas alimentares nos últimos 30 dias anteriores à visita dos pesquisadores. 

    Os resultados apontam que, durante a cheia dos rios, 85% das famílias disseram precisar substituir o peixe ou a carne por outro alimento, pelo menos uma vez ao longo de 30 dias. Além disso, mais da metade dos entrevistados (65%) disse ter comido menos do que gostaria. 33% precisaram pular alguma refeição e 17% não comeram nada por um dia inteiro.

    "

    Se eu somente tivesse uma cebola e um pacote de macarrão em casa, sem como comprar mais hoje ou amanhã, eu ficaria preocupado. É essa a insegurança que parte dos entrevistados sentem. Mas quando a pesca é boa, se come bastante mesmo. E esses lugares não são chamados de comunidades por qualquer motivo. Quando alguém não tem comida, eles dividem uns com os outros "

    Daniel Tregidgo, biólogo e um dos autores do estudo

     

    Alternativas

    De volta em sua análise, o economista Martinho Azevedo, presidente do Corecon-AM, diz que a solução para o problema está em investimentos e incentivos à agropecuária. 

    "

    Recomendo que haja maior atenção à ciência e tecnologia para podermos possibilitar novas formas de aproveitar os produtos produzidos. A banana não precisa ser vendida apenas enquanto fruta in natura. Por que não estudarmos maneiras de produzir farinha de banana ou mingau? "

    , questiona Azevedo

     

    O especialista exemplifica o caso da macaxeira, outro produto muito comum no interior. "Se você for ao supermercado, o quilo de macaxeira pasteurizada é superior a R$ 10. Precisamos investir nessas alternativas e dar crédito aos produtores", comenta o economista.

    Com estes investimentos, Azevedo acredita que as famílias agropecuaristas poderiam ficar mais estáveis economicamente, sem depender totalmente da produção para se alimentar. 


    Leia mais:

    Sebrae: pequenos negócios têm maior taxa de mortalidade

    Balança comercial tem melhor saldo da história no primeiro semestre

    Apesar do PIB no AM estar acima do nacional, o desemprego preocupa