Fonte: OpenWeather

    Editorial


    Uma cachaça que se chama ‘Providência’

    Existe um tipo de cachaça tipicamente brasileira que só é e só pode ser tomada por autoridades em alto nível de estresse. Chama-se “Providência”. Ela é produzida por um (também) alto grau de irresponsabilidade civil, incompetência, corrupção, conivência com todo e qualquer tipo de malfeito, imprevidência, imprudência, tráfico de influência, lavagem de dinheiro, estelionato, propinagem, mortandade (assassinato) de gente inocente etc., a lista de temperos é enorme e sempre cabe mais um. São esses temperos que provocam o alto nível de estresse.
    Com esse coquetel à mão, a(s) autoridade(s) deposita(m) os pés sobre a mesa de trabalho, chama(m) um serviçal comissionado e lhe ordena(m) que sirva uma dose caprichada e garantida de “Providência”, não sem antes mandar(em) que controle o ar-condicionado a um nível de temperatura tal que não o(s) faça lembrar que não está(ão) onde está(ão) ou deveria(m) estar. Aí descobre que em Santa Maria, região metropolitana de Porto Alegre, cidade tão distante de Manaus (ou Belém) quanto Manaus (ou Recife) é distante dela, provavelmente do outro lado do mundo, consideradas as proporções brasileiras, morreram em uma boate mais de 200 pessoas, todas elas jovens ou quase adultas, a maioria de estudantes.

    Um quadro desses exige uma providência. Vamos começar pelo começo. Quem autorizou a construção (ou adaptação) do imóvel para que nele funcionasse uma casa de shows, sem saídas de emergência? Quem fiscalizou a construção – o Crea da região, a prefeitura, o Corpo de Bombeiros, as agências sanitárias, a Secretaria de Meio Ambiente? Por que a casa funcionava com uma fiscalização dos bombeiros, vencida em agosto do ano passado? Que tipo de contrato foi feito entre o empresário da banda de música e os responsáveis pela casa (trocaram informações sobre as impossibilidades previsíveis – é proibido fumar, tocar fogo nas cortinas, disparar sinalizadores etc.) para a realização do espetáculo? Claro que a resposta a cada uma dessas questões é “não”.

    Mas é assim que se toma providência, acompanhada do tira-gosto de um punhado de desculpas esfarrapadas que só mesmo o “mal caratismo” da administração pública brasileira admite, nas capitais e nos grotões difíceis de visibilizar (visibilizar por quem?). Falta a palavra cinismo nos hinos cívicos do país. Haja providência!