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    Editorial


    Gestores municipais e deficientes morais

    O que estavam fazendo os vereadores e prefeitos dos mais de 5 mil municípios, antes que morressem 231 pessoas, todas jovens e estudantes, em plena capacidade produtiva, no incêndio, que destruiu a boate Kiss, em Santa Maria, Região Metropolitana de Porto Alegre (RS), no último fim de semana?
    O que fizeram os vereadores e prefeitos dos mais de 5 mil municípios brasileiros, depois que um incêndio destruiu o Gran Circus Americano e matou mais de 500 pessoas (a maioria delas crianças), em 1961, em Niterói (RJ)?
    O que fizeram os vereadores e prefeitos de mais de 5 mil municípios brasileiros, depois que 194 pessoas morreram e mais de 600 ficaram feridas, na boate destruída por um incêndio, em Buenos Aires, Argentina, em 2004?
    O que fizeram os vereadores e prefeitos dos mais de 5 mil municípios brasileiros, quando, há dez anos, 100 pessoas morreram na casa noturna “The Station”, em Rhode Island, nos Estados Unidos, pelos mesmos motivos – um sinalizador disparado dentro da boate?

    Enquanto se esperam respostas (não se pode dizer que estavam, vereadores e prefeitos, discutindo o valor do auxílio-paletó) convincentes e não comoventes, já é de domínio público que, sob pressão da cidadania argentina, o prefeito de Buenos Aires sofreu um impeachment e a tolerância com os infratores tornou-se intolerante. Respostas rápidas também aconteceram, na americana Rhode Island: em dois anos, a tragédia serviu para reformular os regulamentos federais antifogo nos Estados Unidos.

    Pena que não se possa dizer o mesmo do país que tem uma cultura de burlar a quantidade enorme de leis que fabrica, o que desmoraliza a estrutura do Estado e faz de cada cidadão um espertalhão que vive à sombra de outros espertalhões, em relações muito bem azeitadas pela propina. Ao comentar a tragédia de Santa Maria, alguém disse na televisão que os gestores públicos do país sofrem de “deficiência moral”.

    Já estão presos músicos e donos da boate. E os que facilitaram a ocorrência da tragédia, quem vai tocar neles e quando? O que fazem vereadores e prefeitos diante da morte... dos outros? Deixam, como sempre, que a poeira baixe e a fumaça se dissipe. Ou alguém tem dúvidas de que, para esses deficientes morais, um auxílio-paletó seja menos importante do que uma vida humana?