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    Editorial


    Depois que a máscara cai, vem o efeito tardio

    Diz-se que a máquina brasileira só começa a funcionar depois do Carnaval. E de fato é. O Congresso, por exemplo, só vai pensar em fazer tramitar o debate em torno do Orçamento da União depois que a ressaca da folia passar. Tempo eles terão para isso, afinal, enquanto os reles mortais brasileiros retornam após o meio-dia da Quarta-Feira de Cinzas, os senhores do destino do país só começam a “bater o ponto” dia 28. Nada mal para quem o Carnaval dura o ano inteiro, ou existe outra explicação que justifique o uso de “máscaras” até o dia 31 de dezembro?
    Máscara, aliás, é a indumentária de quem, sob a sombra e a bênção da folia, deixa de lado o pudor ou a vergonha e se encarcera por trás do que na vida real é incapaz de assumir. E, se atrás do trio-elétrico só não vai quem já morreu, uma multidão de zumbis perambula no transe momesco além da conta e prolonga a alucinação de quem faz de tudo para não acordar.
    É durante as festas carnavalescas que, por um breve e instantâneo momento, o irreal aflora e engana os desavisados de plantão. Existe até uma preocupação exacerbada dos profissionais da saúde com base no “ninguém é de ninguém” quanto ao número de bocas que se beija ou o número de parceiros com quem os foliões se relacionam. Porque no calor da emoção pode-se ter a impressão da síndrome do herói. Ou seja: “Comigo nada pode acontecer, pois estou blindado”.
    Acontece que, depois que o trio passa, a festa acaba e a máscara cai, os holofotes da festança têm outra direção. Dessa vez é iluminar os cacos de quem se perdeu e não soube, com responsabilidade, aproveitar o melhor da festa. Aí, é levantar, sacudir a poeira e dar a volta por cima, embora em alguns casos, não haja tempo para outros carnavais.
    Mas, se de repente o folião não desejar acordar da falsa ilusão de que a alegria da festa dura além da conta, basta lembrar e, se quiser, pode-se juntar aos eternos foliões que fazem a política brasileira, pois para eles o Carnaval dura o ano inteiro.