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    Editorial


    A renúncia de Bento 16 e uma civilização sem fé

    Por mais que alguns religiosos católicos reagissem, como se estivessem diante de um acontecimento “normal”, a maioria não escondeu a surpresa com a renúncia anunciada ontem, pelo próprio Bento 16 à sua condição de papa, o bispo de Roma, chefe da Igreja Católica e do Estado do Vaticano.
    O choque teria sido minimizado por Bento 16, que insinuara em 2010, não apenas a possibilidade, mas a obrigatoriedade de um papa renunciar diante de suas limitações físicas para o exercício de pastor do maior rebanho religioso do Ocidente. Discute-se dois pontos diante dessa opção desse homem de 85 anos. Primeiro, se teria sido pressionado à renúncia por supostas forças progressistas e o argumento de saúde frágil não foi uma cortina de fundo para o gesto radical. “Surpresa é a expressão para dizer que não esperávamos um gesto tão importante dentro da Igreja (...) Mas, em plena atividade, ele dizer que não tem mais condições físicas e, nos tempos atuais, isso exige uma presença mais forte, mais viva, já que tudo corre rapidamente”, comentou o secretário-geral da CNBB, Leonardo Steiner, sem esconder o próprio espanto.

    Um segundo momento de reflexão remete para o momento da história em que Ratzinger assumiu, na vaga de João Paulo 2º: a condição de um mundo em que os valores que sustentavam crença, fé e utopia foi drasticamente substituído por uma febre de consumismo, em que a necessidade de ter superou (ao menos neste momento que está se tornando longo) o que a humanidade consagrou, também historicamente, como a precisão de ser. O discurso de Bento 16 esteve compromissado com o restabelecimento da fé – a luta do ser contra o ter, que fica como compromisso de quem o suceder. Neste foco, está a própria existência da Igreja Católica, da maneira como se consagrou, apesar das contradições que enfrentou em seus 2 mil anos.

    O mundo que Bento 16 não teve forças de continuar tentando reformar está em plena atividade. Mal a notícia da renúncia do papa saiu e a casa de apostas Paddy Power, do Reino Unido, lançou a sorte aos apostadores sobre o futuro sucessor de Bento 16. Quanto vale acertar em quem será o próximo pastor da Igreja Católica?