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    Editorial


    Moralismo e preconceito não combatem as drogas

    A questão do combate ao tráfico de drogas continua sob a suspeita do moralismo e da hipocrisia, enquanto não se define o foco do problema. Um dos desvios está no conceito do que é ou não é droga: mal se suspeita que cigarros, charutos, cerveja, uísque, também sejam drogas, tanto quanto maconha, cocaína, heroína, crack, oxi, ou seja, tudo farinha do mesmo saco. Mas o Estado teima em não cobrar impostos da cocaína, heroína e derivados, prefere gastar (não investir) dinheiro no “combate ao tráfico”.
    Mas para efeito da repressão até o policial pode beber, mas o usuário da maconha é que está fora da lei – aliás, a questão do alcoolismo entre policiais civis e militares também é sublimada por uma atitude corporativista, como se não existisse e não refletisse na atuação desses profissionais. Para efeito de educação, os pais podem beber nos fins (ou durante) de semana, com os amigos, ao redor da churrasqueira do quintal, mas o filho adolescente não pode fumar maconha (embora lhe seja permitido beber cerveja, uísque etc.).

    O Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo divulgou dados de uma pesquisa realizada nacionalmente e ali está demonstrado que 17% das prisões relacionadas a drogas em São Paulo são ilegais, feitas com a entrada da polícia na casa do suspeito sem mandado judicial. Ninguém invade “casa de bêbado”. O professor da FGV-Rio e ex-secretário nacional de Justiça, Pedro Abramovay, afirma que os agentes públicos não respeitam garantias legais quando aplicam a Lei de Drogas: “A cegueira causada pela ideologia da guerra às drogas leva à suspensão da Constituição”.

    A lei diferencia usuários e traficantes, mas não dá parâmetros para o enquadramento legal dos suspeitos. Isso fica, em geral, a critério do policial e reflete o quanto o país está sem uma política clara para a abordagem da questão da droga. Enquanto libera e até incentiva o consumo de algumas drogas, consideradas “sociais”, mas que são as que mais dão prejuízos à economia, outras drogas são “caçadas” pelo preconceito. Esse moralismo não está levando, senão a investimentos altíssimos na repressão do que não se sabe bem o quê.